A poucos dias da FIA (Feira Internacional de Artesanato) Lisboa, vale a pena voltar a perguntar o que significa, hoje, falar de e pensar o artesanato. Num momento em que se tornou quase um lugar-comum ver marcas de luxo a recorrerem ao “feito à mão” como linguagem de autenticidade, prestígio e diferenciação - quiçá para se afastarem do flagelo da fast fashion -, o artesanato corre o risco de ser celebrado mais como estética do que como prática viva. A pergunta que importa colocar é simples: estamos perante uma valorização real dos ofícios ou perante uma nova forma de craftwashing?Analisemos alguns exemplos recentes no universo das marcas de luxo. A Prada aproximou-se da cerâmica como território cultural e trouxe o utilitário japonês para a galeria de arte; a Dior exibe imagens de carteiras de rattan feitas à mão em edições limitadas, perpetuando o seu discurso em torno da mestria artesanal; a Christian Louboutin criou a mala Portugaba, um patchwork de saberes e referências locais da “portugalidade”, transformando-a em objecto de desejo global. A Bottega Veneta criou a Accademia Labor et Ingenium, uma escola para formar artesãos. A Loewe faz do craft um eixo contínuo da sua identidade. A Dolce & Gabbana elevou o “fatto a mano” a espectáculo. Tudo isto diz muito sobre o presente do luxo, onde o artesanal passou de técnica a capital simbólico.Mas esta tendência levanta outras questões. Quando o artesanato entra no vocabulário do luxo, eleva o seu valor, e também o seu preço. No entanto, esse aumento nem sempre se traduz em melhores condições para quem o produz. Cada vez mais, o que se paga não é apenas o tempo, o saber ou a materialidade da peça, mas também a narrativa, a raridade e a aura de exclusividade que a marca constrói à sua volta. O luxo fala cada vez mais de artesanato, mas nem sempre devolve aos artesãos o valor, o crédito e a visibilidade que proclama defender. É aqui que a fronteira entre valorização e apropriação se torna mais ténue.