Ato envolve valores que pais indianos pagam para casar suas filhas e é considerado ilegal desde 1961, mas continua profundamente enraizado na cultura 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Indianas protestam exigindo justiça para Pooja Chauhan, que teria sido assassinada por causa do dote em 2021, na cidade de Beawar — Foto: Sumit Saraswat/Pacific Press/Alamy/ RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/06/2026 - 15:32 Morte de atriz indiana expõe violência persistente por dote no país A morte da atriz Twisha Sharma reacendeu o debate sobre a violência por dote na Índia, prática ilegal desde 1961, mas ainda enraizada culturalmente, resultando em 16 mortes diárias de mulheres. O caso, que envolve suspeitas de tortura e assassinato pela família do marido, destaca a persistência do dote como forma de controle e violência, mesmo entre mulheres urbanas e educadas, revelando falhas sistêmicas na proteção das vítimas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Há pouco mais de um mês, a atriz indiana Twisha Sharma, de 33 anos, conversava normalmente com a mãe no telefone quando a ligação caiu de repente. Preocupados com a filha, que havia relatado conflitos com a família do marido, seus pais tentaram repetidamente retomar o contato, sem sucesso. Foi apenas 20 minutos depois que a sogra de Twisha atendeu e disse: “Ela não está mais entre nós”. Com versões conflitantes, o caso logo ganhou as manchetes do país. Enquanto familiares da atriz sustentam que ela foi torturada e morta pelo marido e a sogra, ambos negam as acusações e dizem tratar-se de um caso de suicídio. Como pano de fundo, porém, o debate atraiu nova atenção para uma prática comum na Índia, mas que raramente ganha destaque: a violência decorrente das exigências de dote, valores frequentemente elevados que pais indianos pagam para casar suas filhas. Desde que a morte de Twisha dominou as manchetes, pelo menos três casos semelhantes foram noticiados, todos relacionados ao dote. A prática é ilegal na Índia desde 1961, mas, segundo especialistas, continua profundamente enraizada na cultura do país. Dados divulgados em maio pelo Escritório Nacional de Registros de Crimes (NCRB) apontam que, apenas em 2024, pelo menos 5,7 mil mulheres morreram por violências relacionadas ao dote. Embora o número seja inferior às 7,4 mil mortes registradas em 2017, ele continua alto: em média, são 16 mulheres mortas por dia; uma a cada 90 minutos. No mesmo ano, foram 12,3 mil ocorrências registradas sob a Lei de Proibição do Dote, além de mais de 120 mil casos de “crueldade praticada por maridos e parentes”, mantendo um padrão que permanece acima de 100 mil episódios anuais há mais de uma década. — A parte mais lamentável é que a sociedade normaliza essa norma patriarcal em nome da tradição e da cultura, e as mulheres são educadas para internalizá-la — disse ao GLOBO Sandhya Raju, fundadora e diretora do Centro para Pesquisa e Defesa dos Direitos Constitucionais (CCRI), sediado em Cochin. — Ainda que ilegal, o dote continuou a ser exigido sob o rótulo de ‘presentes’. O problema surge quando esses ‘presentes’ são extorquidos, resultando em violência física e crueldade. Os Sharma afirmam que as tensões começaram logo após o casamento, em dezembro. Segundo eles, apesar de terem fornecido o dote, eram constantemente provocados pelo marido da filha, o advogado Samarth Singh, e a sogra, a juíza aposentada Giribala, que diziam que a cerimônia não correspondia aos seus “padrões” — uma acusação que eles negam. Após a morte de Twisha, sua família divulgou mensagens em que ela dizia que sua vida era “um inferno” e relatava sofrer tortura. Por sua vez, os Singh questionaram a saúde mental da atriz e atraíram indignação pública ao sugerir que a jovem, descrita por amigos e familiares como “alegre e generosa”, era “promíscua”. O caso segue em andamento, com um tribunal de Bhopal prorrogando, na terça-feira, a custódia judicial dos dois para até 30 de junho. Nos últimos dias, Giribala apresentou uma série de queixas relacionadas ao seu tratamento na prisão e à cobertura do caso pela imprensa, sugerindo que uma “narrativa paralela” estava sendo criada fora da Justiça. Violência estrutural Em poucos dias, as notícias se multiplicaram. Em Uttar Pradesh, estado onde mais de um terço das mortes por dote ocorreram em 2024, Deepika Nagar, 25, morreu em circunstâncias suspeitas, e sua família acusou os sogros de assédio. Em Madhya Pradesh, a família de Palak Rajak, recém-casada de 21 anos que morreu por suicídio menos de um ano após o casamento, afirmou que ela era submetida a abusos constantes, apesar de seus pais terem dado um carro e 116 gramas de ouro no casamento. — A violência relacionada ao dote nunca esteve restrita a famílias pobres ou rurais. Casos como o de Twisha chamam a atenção pública para um grupo que muitas vezes é considerado protegido: mulheres educadas, urbanas e bem-sucedidas — disse ao GLOBO Amita N. Vyas, diretora do Programa de Saúde Materno-Infantil da Universidade George Washington. — A educação aumenta o potencial de renda de uma mulher, mas não muda automaticamente a percepção dos sogros sobre a ideia de que têm algum tipo de controle ou posse sobre ela, nem impede que o dote seja usado como forma de dominação. Mulheres dalit, grupo historicamente marginalizado pelo sistema de castas da Índia, em vila de Thati — Foto: Atul Loke/The New York Times Assim como no caso de Twisha, a família de Deepika recebeu uma ligação da filha no dia de sua morte. Casada havia 18 meses, ela supostamente vinha sofrendo exigências cada vez maiores, e, naquela noite, relatou ter sofrido agressões físicas do marido, sogro e outros parentes. Seu pai decidiu ir até ela para tentar resolver a disputa, mas, horas depois, foi informado de que ela havia caído da laje — versão que não se sustenta diante da autópsia, que revelou nove lesões compatíveis com trauma contundente e repetido. Familiares da jovem afirmam que ela foi assassinada e depois lançada da laje. A polícia registrou processos contra sete integrantes da família do marido e prendeu o esposo e seus pais. — O fato de ela ter continuado vivendo naquele ambiente apesar do assédio sugere que não recebeu apoio da própria família, ou que o ambiente familiar não a encorajava a deixar uma situação abusiva — disse Raju. — Ainda hoje, muitos pais se sentem mais confortáveis com uma filha morta do que com uma filha divorciada vivendo em casa, especialmente se ela passar a depender financeiramente deles ou tiver filhos. Quando uma filha diz que está enfrentando problemas em casa, a reação mais comum é pedir que ela ‘se adapte’. Os pais, acrescentou, frequentemente se enxergam em uma posição hierárquica inferior à do genro e da família dele. Em muitos casos, já gastaram mais do que podiam com o casamento, o que também dificulta a possibilidade de a mulher denunciar os abusos. Ao mesmo tempo, a mãe da vítima tenta consolá-la dizendo que passou pela mesma situação — ou por algo pior —, enquanto que, na família do marido, as sogras perpetuam o sistema violento. Segundo Raju, isso ocorre porque somente ao seguir as normas patriarcais as mulheres podem receber algum grau de aceitação ou margem de manobra dentro da estrutura familiar. — Essa é uma das verdades mais difíceis sobre a violência de gênero: o patriarcado não opera apenas por meio dos homens — afirmou Vyas. — Isso é uma adaptação a um sistema que recompensa conformidade e autoridade baseada na idade e no status, e não uma prova de que mulheres estão isentas de perpetuar danos. Quando mulheres que sofreram sob esse sistema se tornam suas guardiãs, a transmissão intergeracional da violência continua. Desafios persistentes Com quase metade da população na faixa dos 20 anos, a Índia tem uma das nações mais jovens do mundo. Isso significa que grande parte dos indianos já nasceram em um país que criminalizava a prática do dote. Ainda assim, a lei é repetidamente desrespeitada por famílias de ambos os lados da moeda. Em 2023, um estudo dos economistas Jeffrey Weaver, da Universidade do Sul da Califórnia, e Gaurav Chiplunkar, da Universidade da Virgínia, revelou que, embora com mais educação e oportunidades de emprego para os homens, a prática do dote aumentou: entre 1930 e 1999, cerca de 90% das uniões envolviam dote. — Entre 1940 e 1980, mais homens estavam se educando e conseguindo empregos de melhor qualidade, o que levou ao aumento do dote — disse Weaver à BBC, acrescentando que, entre 1950 e 1999, os pagamentos de dotes totalizaram quase US$ 250 bilhões. Ao mesmo tempo, quem busca justiça também pode enfrentar um sistema lento e ineficaz. Um exemplo frequentemente citado na imprensa indiana é o caso de Satya Rani Chadha, ativista que iniciou o movimento antidote na Índia nos anos 1980 após perder a filha. Seu genro foi condenado apenas em 2013, quase 35 anos após a morte da vítima. Entre os principais problemas, destacou Vyas, estão a dificuldade de reunir provas de um padrão de crueldade que muitas vezes ocorre longe dos olhos de terceiros, além da pressão familiar sobre as vítimas e testemunhas para que não levem os casos adiante. — Uma boa lei no papel não significa nada se o primeiro policial a quem uma mulher recorre disser que ela deve voltar para casa e ‘se ajustar’ — disse. — Além disso, não é possível eliminar com a lei uma norma social que as famílias ainda usam para medir status e garantir o lugar da filha em uma nova casa. A legislação proibiu a transação, mas não enfrentou o sistema de crenças que está por trás dela. Esse é o desafio enfrentado por mulheres e meninas em toda a Índia e no mundo.