Iván Cepeda muda estratégia para tentar atrair centro e eleitorado jovem, mas segue atrás de ‘El Tigre’ nas pesquisas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Iván Cepeda e Abelardo De la Espriella, candidatos à presidência na Colômbia, aceitam debater antes do segundo turno — Foto: LUIS ACOSTA e RODRIGO BUENDIA / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/06/2026 - 18:19 Iván Cepeda Enfrenta Desafio para Superar Vantagem de Espriella Na Colômbia, Iván Cepeda, candidato governista, enfrenta o desafio de reverter a vantagem de Abelardo de la Espriella nas eleições presidenciais. Cepeda adotou uma nova estratégia, visando atrair o centro e jovens, mas especialistas afirmam que a mudança pode ter vindo tarde demais. A campanha foca em um discurso moderado e na mobilização digital, enquanto Espriella mantém apoio da direita tradicional. A polarização e o voto de castigo contra o governo atual influenciam o cenário eleitoral. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Desde que o surpreendente resultado do primeiro turno presidencial na Colômbia foi divulgado, a campanha do candidato governista, Iván Cepeda, mudou radicalmente sua estratégia. Nas redes sociais, adotou uma comunicação mais agressiva e inovadora. Cepeda passou a marcar presença em programas de humor, adotou um tom menos solene e deu mais espaço para a mobilização espontânea de jovens, artistas e criadores de conteúdo. Ao mesmo tempo, tentou se afastar do presidente Gustavo Petro: abandonou a proposta de uma Assembleia Constituinte, substituiu a expressão “paz total” por “paz integral”, divulgou um programa mais moderado e passou a falar de segurança urbana, tecnologia para a polícia, combate a furtos e recuperação de áreas dominadas por economias ilegais — temas caros à direita. Também tem procurado se mostrar mais aberto à iniciativa privada e à disciplina fiscal. A estratégia busca atrair os eleitores que votaram em candidatos de centro e o eleitorado feminino, votos que Cepeda precisa para reverter neste domingo a vantagem de Abelardo de la Espriella, de extrema direita, que conquistou parte do eleitorado popular da esquerda e boa parte da classe média no primeiro turno. Mas parece ter sido colocada em prática tarde demais, afirmam especialistas ouvidas pelo GLOBO. — Seu novo programa, por exemplo, só foi apresentado dez dias antes do segundo turno. A campanha demorou a reconhecer formalmente o resultado do primeiro turno e ficou presa, durante vários dias, às denúncias de Petro sobre uma suposta fraude — diz a analista política colombiana Jenny Paola Lis-Gutiérrez. — Isso dificultou a tentativa de Cepeda de se apresentar ao eleitorado de centro como o candidato mais comprometido com as instituições. Contrariando as pesquisas, Espriella venceu a primeira volta com 43,78% dos votos contra 40,98% de Cepeda, uma diferença de 662.222 votos. O outsider, conhecido como “El Tigre” por suas propostas mais duras de combate ao crime e a grupos armados, conseguiu atrair conservadores, liberais de direita e independentes, além de grande parte do eleitorado do Centro Democrático — partido da direita tradicional, fundado pelo ex-presidente Álvaro Uribe —, o que se refletiu no mau desempenho de Paloma Valencia, candidata apoiada por Uribe. — Uribe, Valencia e boa parte de suas estruturas políticas se alinharam rapidamente a Espriella. Mais do que conquistar do zero esse eleitorado, o advogado se tornou a opção que parecia ter mais chances de derrotar o petrismo — explica Lis-Gutiérrez. Campanha digital Ela destaca que, no primeiro turno, Espriella provou que influenciadores, símbolos esportivos e mensagens simples podem mobilizar eleitores com pouca ligação com os partidos. Agora, Cepeda tenta responder com ativismo cultural, humor e redes organizadas por jovens. — O grupo pode ser relevante em uma eleição apertada, mas seu impacto dependerá de que a mobilização digital se transforme em participação efetiva nas urnas. Sondagens recentes mostram que, na reta final da campanha, “El Tigre” ainda mantém vantagem nas intenções de voto, o que evidencia a dificuldade do candidato governista em reverter os resultados no curto período que restava até a eleição. — As ações adotadas pela campanha de Cepeda na última semana não parecem ter alterado de forma significativa as preferências do eleitorado e, em alguns casos, chegaram a aumentar a visibilidade de seu adversário — explica ao GLOBO Sonia Cardona, especialista em políticas públicas de segurança cidadã, acesso à Justiça e questões de gênero. — Ao mesmo tempo, o confronto entre as duas campanhas tem sido marcado pelo predomínio da violência verbal e simbólica, uma estratégia que reforçou a polarização política sem oferecer incentivos claros para atrair novos eleitores ou ampliar as bases de apoio. Segundo ela, o voto de castigo contra o atual governo continua pesando contra Cepeda, que não conseguiu se diferenciar com clareza da administração que está deixando o poder, nem convencer os eleitores que associam sua proximidade com o atual governo a um risco de continuidade. Katherin Galindo Ortiz, cientista política colombiana e membro da rede de especialistas em segurança Amassuru, ressalta ainda que “parte da dinâmica das eleições da Colômbia é o voto contrário”, não apenas nesse pleito. — São eleitores que não necessariamente concordam com as propostas de Espriella, mas que simplesmente votam nele porque não querem votar no candidato que representa a continuidade desse governo — afirma ao GLOBO. Voto feminino Na reta final, além do voto de centro e dos jovens, os dois candidatos tentaram buscar o eleitorado feminino. Nas últimas semanas, a campanha de Cepeda intensificou os esforços para ampliar o protagonismo da senadora indígena Aida Quilcué, sua candidata à vice. — Mas a experiência de Francia Márquez [ativista ambiental e vice de Petro] mostrou as limitações enfrentadas por mulheres em cargos de alta visibilidade para exercer plenamente sua capacidade de influência política, o que reduz a probabilidade de que a estratégia produza um impacto eleitoral comparável ao observado há quatro anos — explica Cardona. Maria Alejandra Santos, politóloga da Universidade de Rosario, lembra ainda que os eleitores que se abstiveram no primeiro turno podem ter um papel decisivo no resultado, uma vez que o voto não é obrigatório no país. De um lado, Cepeda precisa mobilizar jovens, trabalhadores informais e moradores de bairros populares, que simpatizam com as reformas sociais de Petro, mas não votaram em maio. Já Espriella precisa manter o alto nível de participação que obteve em seus redutos eleitorais. — Temos, em geral, uma porcentagem muito alta de abstenção e as duas campanhas parecem ter falhado em atrair os eleitores que não participaram no primeiro turno. Ambos estão tendo dificuldade de engajar esses eleitores. Como resultado das mudanças recentes nas campanhas, o debate público tem se concentrado “menos no conteúdo específico dos programas de governo e mais nas identidades políticas e nas avaliações sobre a gestão do atual Executivo”, avalia Cardona. — Os documentos programáticos de ambos os candidatos apresentaram, em grande medida, propostas genéricas, o que reduziu sua influência na decisão dos eleitores. Mesmo quando as propostas de Cepeda podem ser interpretadas como sinais de maior proteção de direitos e respeito às instituições, esses aspectos acabaram ofuscados pelo peso das narrativas construídas em torno do apoio ou da rejeição ao legado político do governo Petro.