Há vários casos de secretários executivos que, ao assumir a Fazenda, superaram o desempenho do titular que substituíram. Por dever de posição conhecem melhor a máquina, os detalhes das políticas públicas e têm a vantagem de terem “botado a mão na massa”. Não é, lamento informar, o caso do atual ministro.Em entrevista a este jornal, por exemplo, Dario Durigan afirmou que “se não moderarmos a pressão das despesas obrigatórias, a gente inviabiliza o País”. Nada de errado com o diagnóstico, a princípio, exceto pelo fato de que o problema vem sendo deliberadamente ignorado desde o início do governo. Pelo contrário, o mesmo ministério do qual faz parte tem estimulado o aumento destes gastos, apesar de reiterados alertas a respeito.A hipótese de que o mesmo governo que vem gastando (na foto, Lula e Durigan) venha a liderar um ajuste fiscal rigoroso após 2026 exige uma dose considerável de fé Foto: Wilton Junior/EstadãoPUBLICIDADENão faltam casos concretos. O mais evidente é a política de valorização do salário mínimo, que desempenhou papel central na elevação dos gastos com benefícios previdenciários, assim como no caso do Benefício de Prestação Continuada. Estes dois grupos registraram elevação de despesas de R$ 197 bilhões entre 2022 e os 12 meses até abril de 2026 já corrigidos pela inflação; destas, R$ 118 bilhões (ou 60% do aumento) se devem à política adotada. Somem-se a isto R$ 54 bilhões a mais do Bolsa Família e R$ 57 bilhões do aumento dos pisos de saúde e educação, resultado da derrubada do teto de gastos, e temos por baixo R$ 229 bilhões que podem ser atribuídos a políticas deliberadas do atual governo. Manifestar surpresa, ou desconforto, com isso equivale a reclamar do ganho de peso depois de passar três anos e meio numa dieta à base de feijoada.Diante disso, a hipótese de que o mesmo governo venha a liderar um ajuste fiscal rigoroso após 2026 exige uma dose considerável de fé.PublicidadeA cereja no bolo contudo, foi sugerir que a inflação acima do teto da meta refletiria, na verdade, uma composição inadequada do IPCA, defendendo revisão do seu cálculo (como se o IBGE, aliás, não fizesse isso a intervalos mais ou menos regulares). A verdade, porém, é que a introdução e retirada de produtos do IPCA, bem como alterações de pesos decorrentes de pesquisas mais atualizadas, não mudam o diagnóstico fundamental sobre a inflação. Podem, no máximo, acrescentar (ou remover) uns poucos décimos, como mostram as diversas medidas de inflação acompanhadas pelo mercado e pelo próprio BC. Todas estas apontam na mesma direção, isto é, inflação em alta.Não basta se surpreender com o ganho de peso. O ministro preferiria também que a balança fingisse que isto não ocorreu.
Opinião | A culpa do excesso de peso é da balança, na análise do ministro da Fazenda sobre as contas públicas
Enquanto Durigan diz que, ‘se não moderarmos a pressão das despesas obrigatórias, a gente inviabiliza o País’, ministério estimula o aumento dos gastos, apesar de reiterados alertas









