Quando um corredor cruza a linha de chegada em 9,95 segundos, muita gente conclui que ele foi extremamente rápido. Afinal, durante décadas, correr os 100 metros abaixo de 10 segundos era privilégio de poucos atletas. Mas quem assistiu à prova pode chegar à conclusão oposta. Se todos os demais competidores terminaram na frente, aquele tempo extraordinário pode ter sido insuficiente para vencer.

Com juros acontece algo parecido. Uma taxa, analisada isoladamente ou comparada apenas ao passado recente, pode parecer muito alta ou muito baixa. Para entendê-la corretamente, é preciso olhar quem mais está correndo na mesma pista.

Poucos consensos parecem tão sólidos hoje no mercado financeiro quanto este: o juro real brasileiro está alto demais. Afinal, títulos públicos indexados à inflação pagam juros superiores a IPCA + 7% ao ano, chegando até a 8% ao ano. O número impressiona e, para muitos investidores, parece uma evidência incontestável de que as taxas estão excessivamente elevadas.

Mas, elevadas em relação a quê?

A comparação entre as taxas de juros reais de dez anos no Brasil e nos Estados Unidos ao longo das últimas duas décadas oferece uma resposta interessante. Hoje, os títulos brasileiros de dez anos referenciados ao IPCA remuneram 7,9% ao ano, enquanto os americanos oferecem retorno de 2,2% ao ano mais o CPI, que é o índice equivalente ao nosso IPCA nos EUA.