O Brasil aprendeu, ao longo de décadas, a conviver com a inflação: contratos indexados, preços reajustados automaticamente, aplicações que protegiam patrimônio, decisões moldadas pela correção monetária. A adaptação era racional e, ao mesmo tempo, perpetuava o problema. Quanto melhor a proteção, menor o custo da inflação e mais difícil romper a indexação.
Talvez tenhamos feito o mesmo com os juros. O Brasil não só convive há décadas com taxas reais elevadas. Alterna entre a primeira e a segunda posição no ranking mundial de juro real, com taxa bem acima da média global. Empresas e investidores aprenderam a operar nesse ambiente. Os juros altos deixaram de ser o preço da economia e passaram a fazer parte de seu modus operandi, moldando decisões patrimoniais, critérios de investimento e modelos de negócio.
Surge um paradoxo. Os juros elevados encarecem crédito e investimento, mas remuneram aplicações e posições líquidas. Para empresas com caixa, também podem representar receita.
A adaptação tampouco se limita às empresas. Décadas de juros elevados moldaram a forma como famílias, investidores e instituições financeiras alocam patrimônio, tornando liquidez, baixo risco e remuneração elevada uma combinação familiar ao poupador brasileiro. Assim como a correção monetária naturalizou a proteção contra a inflação, os juros altos naturalizaram essa remuneração excepcional. O vício não está nos juros, mas no sistema de decisões ao redor deles.








