Eis uma afirmação que pode soar como hipérbole despropositada, mas é a mais pura verdade: os ecossistemas brasileiros de hoje indiscutivelmente ainda são os mais maravilhosos do Sistema Solar. Não descartaria, aliás, a hipótese de que também estejam no topo do ranking na Via Láctea inteira. Mesmo assim, quem tem o privilégio de caminhar por eles não costuma enxergar que, do ponto de vista ecológico, eles estão "esburacados", feito um queijo suíço de desenho animado.
Os rombos de que falo correspondem a um espaço que não é menos real por ser virtual: são as "vagas" ocupadas há pouquíssimo tempo (ao menos do ponto de vista da evolução) pela multidão de grandes mamíferos que outrora vagava de norte a sul do país. Há meros 10 mil anos, mais ou menos, todos os bichos do grupo com mais de 300 kg, e vários que tinham mais de 50 kg, sumiram. E olha que havia uma multidão deles: cavalos, ursos, lhamas, parentes dos elefantes, dentes-de-sabre, tatus e preguiças-gigantes e coisas ainda mais estranhas.
É inevitável que uma hecatombe desse tipo deixe buracos ecológicos para trás. Cada um desses animais interagia de maneiras específicas com suas presas e seus predadores, com a vegetação e com o solo. Já está claro, por exemplo, o fenômeno dos frutos "órfãos", de tamanho avantajado, que provavelmente evoluíram "para" ser devorados pelos megamamíferos, os quais, em troca, dispersavam suas sementes. A ausência dos antigos parceiros tende a afetar as populações das árvores que produzem tais frutos.









