Pesquisa com 43 comunidades em todo mundo indica que práticas tradicionais de gestão do território contribuem para conservar ecossistemas e armazenar carbono 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sydney Allicock é líder comunitário, pioneiro do ecoturismo e parceiro da Conservation International na vila de Surama, na região de North Rupununi, na Guiana, além de membro da Assembleia Nacional (Parlamento) do país. Na imagem, ele compartilha plantas da horta da pousada ecológica da comunidade com seus netos. — Foto: Divulgação CI RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/06/2026 - 13:06 Conhecimento Indígena: Essencial na Luta Contra Crise Climática Estudo revela que o conhecimento indígena é crucial para a conservação da biodiversidade e combate à crise climática. A pesquisa, baseada em 43 comunidades em seis continentes, destaca que práticas tradicionais de gestão do território ajudam a conservar ecossistemas e armazenar carbono. Exemplos como o povo Mamoadate, na Amazônia, mostram a eficácia dessas práticas. No entanto, tais territórios enfrentam crescentes ameaças, como invasões e exploração de recursos naturais. A cientista Sushma Shrestha enfatiza a importância de incorporar o conhecimento indígena às políticas públicas e garantir direitos territoriais para enfrentar as mudanças climáticas de forma coletiva. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os sistemas de conhecimento dos povos indígenas desempenham um papel central na conservação da biodiversidade e no armazenamento de carbono em alguns dos ecossistemas mais importantes do planeta, segundo um estudo publicado nesta terça-feira na revista científica “Humanities and Social Sciences Communications”. Baseada em entrevistas com representantes de 43 comunidades distribuídas por seis continentes, a pesquisa conclui que práticas culturais, formas tradicionais de gestão do território e a presença contínua dessas populações ajudam a explicar por que essas áreas concentram altos índices de preservação ambiental. O trabalho parte de uma constatação já conhecida pela comunidade científica: territórios indígenas costumam registrar menores índices de desmatamento e reunir grandes reservas de carbono e riqueza biológica. Em vez de apenas reafirmar esses dados, os pesquisadores investigam o que existe por trás deles e quais práticas adotadas pelas comunidades ajudam a produzir esses resultados ao longo do tempo. Em entrevista ao GLOBO, a principal autora do estudo, Sushma Shrestha — diretora de ciência indígena da Conservation International e cientista especializada em biodiversidade, mudanças climáticas e governança de povos indígenas e comunidades locais — diz que a pesquisa procura olhar para um aspecto pouco explorado: a influência dos sistemas de conhecimento tradicionais sobre a preservação ambiental. Segundo ela, o objetivo não é medir novamente estoques de carbono ou catalogar espécies, mas compreender os processos que sustentam esses indicadores. — Diversos estudos anteriores já demonstram que as terras indígenas apresentam altos níveis de carbono armazenado, grande biodiversidade e menores taxas de desmatamento. Nós perguntamos o porquê disso acontecer. Nossa conclusão é que esses elevados níveis de biodiversidade e de armazenamento de carbono não existem por acaso. Eles estão associados aos sistemas de conhecimento indígenas, às práticas culturais, à forma como essas comunidades administram seus territórios e à continuidade de sua presença nessas áreas — afirma. Essa lógica aparece de maneiras diferentes ao redor do mundo. Na Amazônia brasileira, por exemplo, o estudo cita o povo Mamoadate, que preserva árvores frutíferas silvestres e palmeiras usadas na alimentação da fauna. No Equador, comunidades Kichwa restringem a caça de fêmeas de espécies como anta e onça-pintada. Já no México, povos zapotecas organizam comitês para monitorar o território e brigadas de combate a incêndios florestais. As entrevistas também mostram que muitas comunidades mantêm áreas protegidas por razões espirituais, culturais ou históricas. De acordo com a pesquisa, 96% dos participantes afirmam que seus povos reservam determinadas terras ou corpos d’água para usos especiais, criando espaços que preservam florestas, animais silvestres e nascentes. Os pesquisadores identificam um modelo de gestão do território baseado em normas próprias, fiscalização comunitária e transmissão oral de conhecimentos. Em diferentes países, essas regras determinam desde períodos para caça e pesca até restrições ao corte de árvores, ao uso de determinadas áreas e à exploração de recursos naturais. — Os povos indígenas não devem ser vistos apenas como pessoas que vivem em áreas preservadas. O que mostramos é que eles desempenham um papel ativo na conservação desses territórios por meio de seus sistemas de conhecimento, de suas práticas culturais e da forma como administram a terra. Por isso, esses conhecimentos precisam deixar de ser tratados apenas como patrimônio cultural e passar a fazer parte das soluções adotadas nas políticas climáticas e de conservação — explica. Saberes que evoluem diante da crise climática Se a pesquisa reforça a contribuição dos povos indígenas para a conservação ambiental, ela também mostra que esses sistemas de conhecimento enfrentam mudanças climáticas. Os especialistas ouvidos relatam alterações perceptíveis no clima de seus territórios, e todos afirmam observar mudanças nas condições meteorológicas locais, com secas, eventos extremos e alterações no regime de chuvas entre os impactos mais frequentes. Essas transformações afetam práticas desenvolvidas ao longo de gerações. Em diversas comunidades, sinais da natureza usados para prever chuvas, identificar épocas de plantio ou orientar atividades de caça e pesca deixam de seguir os padrões conhecidos. — Os próprios povos indígenas nos disseram que as mudanças climáticas estão ocorrendo em uma velocidade sem precedentes — afirma. A pesquisa também mostra que muitos povos ajustam suas práticas, incorporam novas formas de monitoramento e combinam observações tradicionais com tecnologias e informações produzidas por outros sistemas de conhecimento. — Os sistemas de conhecimento indígenas sempre evoluíram ao longo da história. Se receberem apoio e recursos adequados, acredito que continuarão evoluindo para responder aos novos desafios impostos pela crise climática — diz. Ao mesmo tempo, muitas dessas comunidades convivem com pressões provocadas pela expansão econômica. O levantamento mostra que 61% dos entrevistados relatam impactos associados à mineração, exploração madeireira, agricultura comercial ou grandes projetos de infraestrutura. Para a pesquisadora, esses problemas também atingem a base sobre a qual os conhecimentos indígenas são produzidos e transmitidos. Quando o território muda profundamente ou deixa de estar sob controle das comunidades, práticas culturais deixam de ser passadas às novas gerações. Essa relação entre cultura e natureza leva os autores a defender que proteger a biodiversidade também passa por fortalecer a permanência dos povos indígenas em seus territórios e garantir condições para que continuem exercendo suas formas de gestão ambiental. A necessidade de preservar esses territórios também aparece em um levantamento publicado pelo GLOBO em outubro de 2025, que identificou 196 povos indígenas isolados distribuídos em dez países. Produzido pela organização Survival International, o relatório alerta que 90 desses grupos podem desaparecer na próxima década caso o avanço de atividades como mineração, exploração madeireira, agronegócio e grandes obras continue pressionando suas áreas de ocupação. Segundo o documento, mais de 95% dos povos isolados vivem na Amazônia, considerada o principal refúgio dessas populações no planeta. Os pesquisadores apontam que a destruição da floresta e o contato forçado não apenas ameaçam vidas humanas, mas também colocam em risco conhecimentos acumulados ao longo de gerações sobre manejo do território, uso sustentável dos recursos naturais e conservação dos ecossistemas. Para os autores do relatório, garantir a integridade das terras indígenas é uma medida indispensável tanto para assegurar a sobrevivência desses povos quanto para proteger a biodiversidade. A conclusão reforça a ideia apresentada pelo novo estudo de que a permanência das comunidades em seus territórios e a continuidade de seus sistemas de conhecimento caminham lado a lado com a conservação ambiental. Conhecimento como política pública Na avaliação dos autores, uma das principais implicações do estudo é mostrar que os sistemas de conhecimento indígenas não devem ser vistos apenas como patrimônio cultural, mas como ferramentas capazes de orientar estratégias de enfrentamento da crise climática e da perda de biodiversidade. Para Sushma Shrestha, essa mudança de perspectiva exige que as comunidades indígenas deixem de ocupar um papel apenas consultivo e passem a participar da formulação das políticas ambientais. — Governos do mundo inteiro procuram maneiras de reduzir esses impactos, e nossa pesquisa mostra que muitas dessas soluções já existem em territórios indígenas. Por isso, é essencial ouvir essas comunidades e incorporar seus conhecimentos às políticas públicas — explica. A pesquisadora defende ainda que garantir direitos territoriais representa apenas o primeiro passo desse processo. Em sua avaliação, também é necessário assegurar financiamento, apoio institucional e condições para que as próprias comunidades mantenham práticas tradicionais.