Iniciativa induz práticas agrícolas inovadoras e valorização de cadeias produtivas Os irmãos Josuel e Lucivane Tembé, da aldeia indígena Piahú, afirmam que a vida melhorou após começarem a vender pulseiras e colares pela internet — Foto: Sérgio Adeodato/Valor Diante dos anúncios de recursos financeiros internacionais de clima e natureza para a Amazônia, cresce o debate sobre como os valores chegam até a base na floresta, com impactos socioeconômicos favoráveis à conservação da biodiversidade. Na ilha do Marajó, no Pará, mulheres ribeirinhas incrementam a renda com o uso sustentável do jupati, uma palmeira nativa cujas fibras são transformadas em biojoias e acessórios de design. “Conquistamos visibilidade, ganho extra e menor dependência de auxílios sociais”, diz Richelly Ferreira, artesã em São Sebastião da Boa Vista, um dos 17 municípios do arquipélago. Há dez anos um coletivo apoia a criação dos produtos em diversas cores e trançados, unindo tradição e técnicas que passam de mãe para filha. “Aos 12 anos de idade eu já vendia a produção para atravessadores em troca de açúcar, café e outros alimentos que não tinham na comunidade”, conta a empreendedora, ao lado de 35 artesãs apoiadas em consultorias para acessar mercados. “É um caminho de solução para o contraste entre riqueza da biodiversidade e baixos indicadores sociais na maior ilha fluviomarinha do mundo”, afirma Luciane Fiuza, voluntária de comunicação do coletivo. O grupo integra o Programa Sustenta e Inova, coordenado pelo Sebrae Pará com investimentos superiores a R$ 28 milhões da União Europeia para suporte a negócios comunitários na Amazônia. A iniciativa atua em diferentes territórios no incentivo a práticas agrícolas inovadoras e valorização de cadeias produtivas da bioeconomia. “Ao conectar empreendedores a mercados nacionais e internacionais, a proposta é consolidar o Estado como referência de desenvolvimento sustentável”, diz Rubens Magno, diretor-superintendente do Sebrae/PA. Em parceria com o Centro Francês de Pesquisa Agrícola para o Desenvolvimento Internacional (Cirad), Embrapa e o Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam), o projeto capacitou 2,4 mil produtores rurais e facilitou a abertura de 60 negócios de impacto socioambiental. No Marajó, na comunidade Santo Ezequiel Moreno, município de Portel, o trabalho abrange o manejo sustentável de açaí. Até dezembro o projeto somará sete centros de referência. Na região da Transamazônica, município de Brasil Novo (PA), o foco é na cadeia do cacau, com melhoria produtiva em pequenas fábricas de chocolate. “Aprimoramos receitas incluindo ingredientes amazônicos e agora temos marca própria com certificações de qualidade”, diz Jiovanna Lunelli, à frente da Cacau Xingu. “Estávamos esquecidos, à margem da sociedade, e com o reconhecimento do nosso valor a vida melhorou”, afirma Josuel Tembé, que, com a irmã Lucivane, produz colares e pulseiras de sementes da floresta, vendidas pela internet. “Agora temos para quem vender, ganhamos visibilidade para além do açaí que os homens coletam na roça”, diz a artesã da aldeia indígena Piahú, em Paragominas (PA). No município, assentamentos recebem inovações como a agroindústria que agrega valor a frutas regionais e beneficia produtores da Colônia Alto Coraci. “Antes a produção era desperdiçada por falta de comercialização”, lembra a presidente da associação local, Oenice Xavier. Com apoio à organização comunitária, foram adotadas práticas que resultaram no selo de origem como produção artesanal. A região de Paragominas, que há duas décadas figurava na “lista suja” do desmatamento, passou a atrair investimentos internacionais para reverter a imagem de vilã. Entre as iniciativas, o programa Amabio - Financiamento Sustentável e Inclusivo da Amazônia Brasileira recebe € 8 milhões da Agência Francesa de Desenvolvimento para o desenho de mecanismos de incentivo à pecuária sustentável. O objetivo é abranger 20 produtores familiares com assistência, regularização ambiental e inovações em linhas de crédito, em parceria com o Banco da Amazônia (Basa). O modelo prevê métricas de bonificação do produtor pelas contribuições ambientais. Criado a partir do acordo de cooperação firmado em 2024, o Amabio inclui o desenvolvimento de soluções financeiras com bancos públicos para demandas da bioeconomia, além do aporte de recursos a negócios comunitários em modelos adaptados às realidades locais. “Os desafios do financiamento estão entre os principais gargalos para escalonar o setor na Amazônia”, ressalta Janaina Galvão, líder de projetos da Expertise France, executora do programa. Neste ano, 27 projetos serão selecionados pelo Basa para o repasse total de R$ 2 milhões.