Construímos relógios mais exatos, lentes mais nítidas e câmeras mais perfeitas. A precisão das máquinas ameaça aposentar o erro humano 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Máquina de escrever — Foto: Fabio Seixo A inteligência artificial chegou ainda agora e já estamos cansados das imagens falsas, todas iguais; das canções sem gente dentro; dos textos sem mácula, sim, mas também sem dor nem espanto, e repetindo até a exaustão os mesmos tiques e truques. A singularidade humana será o próximo grande luxo. Durante séculos a Humanidade combateu a imprecisão. Construímos relógios mais exatos, mapas mais rigorosos, lentes mais nítidas e câmeras mais perfeitas. A precisão das máquinas ameaça aposentar o erro humano. Em maio, em São Paulo, no fim de um evento literário, fui abordado por um jovem leitor, Louis. Estendeu-me um livro para autografar, e assim que o devolvi perguntou-me: — Gosta de máquinas de escrever? Disse-lhe que sim. Acredito que muitos escritores sintam certo fascínio por máquinas de escrever, mesmo aqueles que nunca utilizaram nenhuma. Aos 16 anos fiz um curso de datilografia. Escrevi os meus primeiros contos e poemas numa Olivetti Lettera 32, cinza, e tenho muitas saudades dela. Louis contou que, tendo ficado sem trabalho durante a pandemia, decidiu começar um novo negócio, recuperando e vendendo antigas máquinas de escrever. Dois ou três dias mais tarde visitei-o na sua minúscula oficina. Fiquei entusiasmado com os diversos exemplares que me mostrou, quase todos limpos, brilhantes, prontos para serem utilizados. O jovem — que é capaz de ficar horas contando a história de cada máquina, animado por uma paixão genuína — vende também as fitas e todos os outros acessórios. Não levei nenhuma máquina comigo porque a essa altura já tinha a mala cheia de livros. Entre os clientes de Louis destaca-se um médium. Muitos dos espíritos com os quais se comunica, e cujas obras psicografa, não sabem, ou não querem, utilizar computadores. Exigem máquinas de escrever. Um espírito dos anos 1930 prefere máquinas daquela época. Imaginemos que o médium se comunique com Ernest Hemingway. É provável que o grande romancista exija uma Underwood Noiseless Portable, um dos seus modelos preferidos. Louis, a propósito, tem um belo exemplar. Hoje, Louis vende máquinas de escrever. Amanhã venderá legítimos erros ortográficos, fotografias ligeiramente fora de foco, discos que estalam, ou manuscritos com manchas de café. Os discos de vinil, aliás, estão de volta. Também há cada vez mais pessoas interessadas em fotografar com película. Quanto mais perfeitas se tornam as tecnologias, mais valorizamos a singularidade e a humanidade das pequenas imperfeições. Queremos escutar a respiração do cantor. Alegra-nos ver como se forma uma imagem. Em alguns casos, escrever com uma Olivetti pode ser apenas uma manifestação de nostalgia. Noutros, será uma exaltação da vida lenta; uma defesa da singularidade. O problema, afinal, está na massificação da perfeição. Um dos maiores desafios do nosso tempo talvez seja, pois, o de proteger a singularidade e a autoria. Errar é humano. Errar bem é uma das poucas coisas que as máquinas ainda não conseguem imitar na perfeição.