Saldo do Dia: Mesmo com o cessar-fogo e a reabertura de Ormuz, os futuros de juros não cederam por aqui; cenário ameaça os ganhos acumulados pelo índice neste ano Crise de confiança no Copom arrasta Ibovespa para queda de quase 2% na semana — Foto: Getty Images A guerra acabou. O petróleo caiu. A Selic desceu. E, mesmo assim, as taxas nos contratos futuros de juros seguem em alta aqui no Brasil. A sequência rompe a lógica dos eventos esperados para o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, mas explica o mal-estar do investidor brasileiro. O Ibovespa encerrou a semana com perdas de 1,6%, nos 168.334 pontos. Nesta sexta (19), uma sessão morna e sem direcionadores externos com o feriado nos EUA, o índice ficou praticamente estável. No mês, a queda já se amontoa a mais de 3%. No ano, a valorização acumulada pela carteira cedeu dos 23% no pico (em meados de abril) para 4,47% hoje. O Estreito de Ormuz foi reaberto, como previsto, e o fluxo saltou. Depois de mais de três meses, não vem do Golfo Pérsico a pressão sobre o horizonte de juros, e sim do mercado interno. Mesmo sem o expressivo fluxo estrangeiro nem estímulos para movimentação doméstica das carteiras, o giro financeiro do Ibovespa hoje ainda chegou a R$ 20,3 bilhões, 10% acima da média diária nos últimos 12 meses, de R$ 18,4 bilhões. Precisamente do Copom desta semana. Na mesma noite em que cortou a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, o comitê do Banco Central (BC) fez um malabarismo no comunicado que irritou uma parcela do mercado: ao mencionar a inflação do primeiro trimestre de 2028 como referência para justificar a decisão, esticou o prazo dentro do qual espera cumprir a meta. Em bom português, o Copom empurrou para a frente o compromisso com o controle de preços. Naquele momento, o BC de Gabriel Galípolo arranjou um problema que não tinha desde a primeira reunião do presidente no Copom: a queda da confiança. Antes da estreia de Galípolo na presidência do Copom, o mercado financeiro tinha medo de interferência política nas decisões. Esse receio, embora menos palpável, voltou a assombrar alguns horizontes. O investidor precisa acreditar que o BC fará o que for necessário para trazer a inflação de volta à meta. Quando o BC, em vez de apertar o passo, alonga o horizonte em que promete chegar lá, ele pede um voto de confiança. Em ano eleitoral, com estímulos fiscais do governo federal na mesa, esse voto do mercado não veio. O resultado está nos preços. Os contratos de juros futuros, que refletem o que o mercado aposta para a taxa nos próximos anos, dispararam na ressaca da superquarta e mantiveram o tom nesta sexta. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,24% para 14,26% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,76% para 14,90% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,55% para 14,67% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. Quanto mais longo o vencimento, mais o juro tem subido, sinal de que os gestores admitem como, no curto prazo, a Selic pode até cair. Acontece que, lá na frente, essa conta precisará ser paga. E a juros altos. O Brasil viveu isso há não muito tempo e por duas vezes. Entre 2020 e 2022. Depois, do fim de 2023 até meados de 2024, o ponto de partida para a elevação da taxa básica a 15% ao ano. Esses investidores, céticos sobre o horizonte de controle inflacionário, acreditam que o mercado pode estar perto de reviver esse ciclo caso o BC insista em cortar os juros neste momento. Isso porque, em algum momento, a Selic teria que subir de volta. Ou então o ciclo de cortes mais curto da história pode já ter se encerrado. O dólar à vista decolou 2% durante a semana e encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,16. No dia, ainda cedeu 0,17% contra o real, mas, no mês, teve alta de 2,44%. No ano até aqui, recuou 5,9% no mercado de câmbio local. Esse cenário se agrava com a decisão desta semana do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que confirmou os dois maiores temores do mercado financeiro com a presidência de Kevin Warsh: a retirada das projeções para os juros e comunicados mais objetivos. A retirada dos sinais sobre esse horizonte também alimenta uma crise de confiança do mercado sobre a condução da política monetária americana - especialmente dado o histórico de Donald Trump com o Fed. Por outro lado, a elevação das projeções para inflação e a inclinação da maioria dos diretores para uma postura mais rigorosa sobre os juros neste ano freia um ceticismo exagerado, que poderia catapultar as taxas dos títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries). Um cessar-fogo que não cessa o fogo Os enviados americanos, liderados pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, estavam prontos para embarcar hoje para a Suíça. Jornalistas e funcionários do governo já estavam lá. A viagem foi cancelada de última hora depois que Israel e o Hezbollah trocaram os ataques mais violentos desde o início da trégua: quatro soldados israelenses mortos, seguida por uma onda de retaliação com 18 mortos no Líbano. O memorando de entendimento assinado eletronicamente entre Trump e o Irã na quarta abriu uma janela de 60 dias para negociar o programa nuclear iraniano e normalizar o trânsito em Ormuz. Navios já estão passando pelo estreito. Porém essa janela depende de implementação, que, por sua vez, depende de conversas que aconteceriam na Suíça hoje e neste fim de semana - e não aconteceram. O petróleo sentiu, com o Brent (referência mundial) em leve alta hoje, voltando para perto da faixa de US$ 80. Na semana, a commodity acumula queda de quase 9%, refletindo o alívio da reabertura do estreito. Mas a tendência se inverteria rapidamente caso a paz se prove ilusória — como nos cessar-fogos anteriores. A combinação que se apresenta para a próxima semana é incômoda: de um lado, a ata do Copom (que sairá na terça) precisará explicar como o BC chegou a suas projeções e por que estendeu o horizonte de convergência. Se a explicação não satisfizer, a curva de juros pode abrir ainda mais. Do outro, a fragilidade do acordo de paz mantém o petróleo como fator de risco para a inflação - e, portanto, para a Selic. Enquanto isso, a renda fixa continua remunerando muito bem seus investidores, com os títulos que acompanham a Selic rendendo acima de 14% ao ano e, sob deteriorações adicionais nesse cenário, podendo pagar ainda mais. A bolsa, por sua vez, está encurralada. Sem o fluxo estrangeiro que sustentou os recordes de abril nem apelo para os fundos locais, que há meses preferem operar nos mercados de juros, o Ibovespa está preso nos 168 mil pontos há três sessões. O índice precisaria saltar 4% só para voltar a uma zona neutra. Diante de juros mais altos, lucros corporativos pressionados, incerteza eleitoral e um cessar-fogo que nem cessou fogo, a pergunta que paira é: de onde viria esse impulso? Das 78 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 41 valorizaram hoje. Na semana, no entanto, 57 ficaram no vermelho. Comportamento das ações do Ibovespa em 19/6/2026 Código Nome Abertura Mínima Média Máxima Fechamento Var. % AZZA3 AZZAS 2154 ON 16,23 16,12 17,20 18,19 17,56 8,33 CYRE3 CYRELA REALT ON 21,21 21,11 21,83 22,19 21,83 3,22 MGLU3 MAGAZINE LUIZA ON 4,48 4,47 4,58 4,65 4,62 2,67 CSAN3 COSAN ON 3,41 3,38 3,46 3,49 3,49 2,65 CMIN3 CSN MINERACAO ON 4,21 4,21 4,31 4,39 4,32 2,61 LREN3 LOJAS RENNER ON 13,95 13,94 14,25 14,37 14,29 2,14 CEAB3 CEA MODAS ON 9,70 9,54 9,80 9,97 9,91 2,06 RECV3 PETRORECSA ON 10,05 9,97 10,19 10,29 10,18 1,80 CURY3 CURY S/A ON 32,63 32,63 33,27 33,55 33,27 1,68 ENEV3 ENEVA ON 24,03 24,02 24,41 24,52 24,49 1,62 CXSE3 CAIXA SEGURI ON 19,25 19,18 19,51 19,64 19,64 1,60 CSNA3 SID NACIONAL ON 5,20 5,14 5,20 5,26 5,26 1,54 MRVE3 MRV ON 4,89 4,85 4,91 4,96 4,92 1,23 YDUQ3 YDUQS PART ON 7,94 7,85 7,98 8,09 8,03 1,13 UGPA3 ULTRAPAR ON 24,85 24,41 25,11 25,32 25,10 1,09 GOAU4 GERDAU MET PN 9,50 9,47 9,62 9,68 9,63 1,05 RDOR3 REDE D OR ON 33,40 32,90 33,47 33,60 33,60 1,05 DIRR3 DIRECIONAL ON 13,41 13,32 13,57 13,74 13,59 1,04 VALE3 VALE ON 79,68 79,50 80,63 81,07 80,75 1,01 RAIL3 RUMO S.A. ON 12,30 12,16 12,42 12,47 12,45 0,97 NATU3 NATURA ON 7,42 7,36 7,49 7,62 7,50 0,94 USIM5 USIMINAS PNA 9,11 9,01 9,20 9,32 9,17 0,77 VBBR3 VIBRA ON 28,71 28,46 28,78 28,93 28,80 0,73 AURE3 AUREN ON 11,21 11,21 11,28 11,33 11,29 0,71 FLRY3 FLEURY ON 14,83 14,75 14,89 14,95 14,93 0,67 HYPE3 HYPERA ON 20,15 20,05 20,22 20,33 20,22 0,60 SANB11 SANTANDER BR UNIT 26,79 26,56 26,72 26,88 26,88 0,60 AXIA3 AXIA ENERGIA ON 51,03 51,03 51,77 52,08 51,81 0,58 B3SA3 B3 ON 14,32 14,26 14,44 14,56 14,41 0,56 EQTL3 EQUATORIAL ON 36,78 36,39 36,94 37,07 37,05 0,52 PETR3 PETROBRAS ON 43,12 42,80 43,20 43,35 43,34 0,49 SLCE3 SLC AGRICOLA ON 13,58 13,52 13,60 13,69 13,60 0,44 COGN3 COGNA ON 2,32 2,31 2,34 2,37 2,34 0,43 EMBJ3 EMBRAER ON 78,91 78,65 79,21 79,83 79,20 0,41 PRIO3 PETRORIO ON 56,99 56,83 57,13 57,40 57,20 0,40 SBSP3 SABESP ON 26,97 26,85 27,01 27,23 26,96 0,22 BRAP4 BRADESPAR PN 22,64 22,60 22,77 23,03 22,68 0,13 RENT3 LOCALIZA ON 40,01 39,72 40,09 40,33 40,12 0,07 GGBR4 GERDAU PN 21,71 21,54 21,71 21,99 21,66 0,05 IGTI11 IGUATEMI S.A UNT 23,69 23,63 23,77 23,89 23,78 0,04 PSSA3 PORTO SEGURO ON 52,49 52,15 52,58 53,25 52,50 0,04 BBDC4 BRADESCO PN 17,52 17,40 17,49 17,59 17,47 0,00 EGIE3 ENGIE BRASIL ON 33,79 33,43 33,80 34,28 33,88 0,00 POMO4 MARCOPOLO PN 6,01 5,97 6,03 6,09 5,99 0,00 ENGI11 ENERGISA UNT 45,49 45,25 45,47 45,75 45,44 -0,11 BRKM5 BRASKEM PNA 7,50 6,83 7,25 7,58 7,50 -0,13 PETR4 PETROBRAS PN 38,86 38,62 38,78 39,11 38,80 -0,13 TOTS3 TOTVS ON 27,01 26,88 27,10 27,45 27,10 -0,15 CPFE3 CPFL ENERGIA ON 44,20 43,70 43,89 44,38 43,88 -0,30 ALOS3 ALLOS ON 26,74 26,55 26,69 26,89 26,55 -0,34 CMIG4 CEMIG PN 10,77 10,68 10,72 10,82 10,68 -0,37 TAEE11 TAESA UNIT 39,55 39,18 39,35 39,65 39,30 -0,38 ASAI3 ASSAI ON 7,68 7,63 7,69 7,78 7,65 -0,39 BPAC11 BTGP BANCO UNT 50,93 50,64 50,78 51,12 50,64 -0,41 SMFT3 SMART FIT ON 18,64 18,50 18,69 18,98 18,67 -0,48 BBAS3 BRASIL ON 19,52 19,42 19,49 19,63 19,42 -0,56 KLBN11 KLABIN S/A UNT 17,28 16,89 17,07 17,38 17,13 -0,58 MOTV3 MOTIVA SA ON NM 13,71 13,54 13,66 13,79 13,67 -0,58 MULT3 MULTIPLAN ON 28,17 28,02 28,22 28,41 28,02 -0,64 VIVT3 TELEF BRASIL ON 32,68 32,20 32,43 32,68 32,46 -0,67 BBDC3 BRADESCO ON 15,34 15,16 15,24 15,38 15,16 -0,72 ITUB4 ITAU UNIBANCO PN 40,36 39,76 39,91 40,37 39,87 -0,80 SUZB3 SUZANO S.A. ON 43,81 42,99 43,40 44,37 43,23 -0,80 ISAE4 ISA ENERGIA PN 27,83 27,50 27,65 27,96 27,65 -0,90 ITSA4 ITAUSA PN 12,92 12,70 12,80 12,95 12,79 -0,98 VIVA3 VIVARA ON 20,91 20,67 20,91 21,20 20,85 -1,00 ABEV3 AMBEV S/A ON 16,17 16,05 16,11 16,31 16,05 -1,05 MBRF3 MARFRIG ON 15,45 15,11 15,26 15,48 15,28 -1,10 VAMO3 VAMOS ON 2,70 2,68 2,71 2,74 2,68 -1,11 BRAV3 BRAVA ON 19,25 18,58 19,00 19,36 18,99 -1,30 BBSE3 BB SEGURIDADE ON 39,40 38,64 38,93 39,54 38,90 -1,37 TIMS3 TIM ON 21,41 21,07 21,13 21,41 21,07 -1,40 WEGE3 WEG ON 46,05 44,85 45,20 46,20 45,16 -1,42 CPLE3 COPEL ON 14,68 14,54 14,63 14,85 14,56 -1,49 CSMG3 COPASA ON 57,55 56,67 57,04 58,40 56,67 -1,53 RADL3 RAIA DROGASIL ON 16,56 16,22 16,33 16,71 16,25 -1,81 HAPV3 HAPVIDA ON 10,65 10,31 10,45 10,70 10,31 -2,55 BEEF3 MINERVA ON 3,70 3,52 3,60 3,72 3,52 -5,12
Crise de confiança no Copom arrasta Ibovespa para queda de quase 2% na semana
Saldo do Dia: Mesmo com o cessar-fogo e a reabertura de Ormuz, os futuros de juros não cederam por aqui; cenário ameaça os ganhos acumulados pelo índice neste ano














