Estrutura reduz o risco de inadimplência para a plataforma, mas não elimina o risco para o cliente Fabrício Tota, vice-presidente do Mercado Bitcoin — Foto: Divulgação Depois de meses de queda no preço do bitcoin, plataformas de cripto buscam ampliar as formas de uso dos ativos mantidos pelos clientes em carteira. Uma dessas frentes é o crédito com garantia em criptoativos, em que o investidor toma recursos em reais sem precisar vender sua posição. No Mercado Bitcoin, a linha de empréstimos com criptoativos como colateral concedeu cerca de R$ 47 milhões e tem meta de chegar a R$ 100 milhões no ano, segundo Fabrício Tota, vice-presidente de Negócios Cripto da companhia. A operação aceita bitcoin, ether, solana e stablecoins de dólar, como USDT e USDC, como garantia. A leitura da empresa é que o produto não reflete necessariamente uma mudança no comportamento do investidor original de cripto, mas a ampliação da base de usuários do setor. “Acho que não foi o comportamento do público que mudou em relação ao que faz com cripto. O público ficou mais abrangente, mais heterogêneo, e nem todo mundo é trader”, afirma Tota. Segundo ele, parte dos clientes passou a manter ativos digitais como posição de mais longo prazo, o que abre espaço para produtos que ofereçam usos adicionais a essa carteira. “Se você precisar de liquidez, de recursos, de reais, por qualquer razão, é um ativo que pode ser dado em garantia para tomar crédito”, diz. A linha começou com bitcoin e ether, em fase de testes por canais assessorados, e foi aberta para toda a base de clientes do Mercado Bitcoin a partir de março. O cliente pode tomar até 50% do valor dos ativos dados em garantia. Se uma carteira usada como colateral vale R$ 10 mil, por exemplo, o crédito concedido pode chegar a R$ 5 mil. Segundo Tota, essa relação entre crédito e garantia foi definida para dar margem à volatilidade dos ativos usados na operação. A estrutura reduz o risco de inadimplência para a plataforma, mas não elimina o risco para o cliente. Caso o valor do ativo dado como garantia caia de forma relevante ou o empréstimo não seja pago no prazo, a garantia pode ser liquidada para encerrar a operação. Segundo Tota, antes disso, o cliente recebe alertas e pode aportar mais garantias ou liquidar antecipadamente o contrato. A taxa mensal do produto fica na faixa de 1,69% a 1,79%, segundo o executivo. Tota afirma que o custo menor em relação a modalidades sem garantia está ligado à existência do colateral, mas diz que o crédito precisa ser usado de forma consciente. “Dever não é ruim, desde que seja uma dívida de qualidade”, afirma. O dinheiro tomado pode ser usado dentro ou fora da plataforma. De acordo com o executivo, parte dos clientes usa o empréstimo para fazer novas operações com criptoativos, inclusive de forma alavancada, mas os recursos também podem ser sacados via Pix e usados para outras finalidades. A possibilidade de usar criptoativos como garantia ainda é restrita a empresas que conseguem custodiar os ativos, precificá-los e, se necessário, liquidá-los rapidamente. Para Tota, essa é uma diferença em relação ao crédito bancário tradicional, no qual ativos como bitcoin e ether ainda não costumam ser aceitos como colateral. “A gente adora esse ativo como colateral”, diz. “Primeiro porque é um ativo de muita qualidade; segundo porque temos o mercado aqui dentro e conseguimos obter liquidez muito rápido no caso de precisar liquidar uma posição.” O mecanismo se aproxima de estruturas de empréstimos colateralizados já usadas no universo de finanças descentralizadas, mas dentro de uma plataforma centralizada. Tota afirma que, em blockchains, o valor de ativos travados como garantia em operações de crédito soma cerca de US$ 36 bilhões, com aproximadamente US$ 24 bilhões em empréstimos tomados. Para o executivo, o desafio é levar esse tipo de operação a um usuário que não necessariamente tem familiaridade com as etapas do crédito feito diretamente em blockchain. “As pessoas não usam por causa da tecnologia. Elas usam para resolver uma dor, que é crédito”, afirma.
Crédito com cripto em garantia mira cliente que não quer vender ativos
Estrutura reduz o risco de inadimplência para a plataforma, mas não elimina o risco para o cliente
Mercado Bitcoin oferece crédito com criptoativos como colateral (50% valor); meta R$ 100 mi permite liquidez sem vender. Sinaliza shift de especulação para holding e diferencia plataforma ao aceitar ativos que bancos tradicionais rejeitam.








