O lançamento de um contrato de Ibovespa alavancado em 20 vezes e que negocia 24 horas por dia, pela Hyperliquid, uma espécie de bolsa de futuros descentralizada que opera por meio de protocolo “blockchain”, trouxe incômodo para participantes do mercado regulado no Brasil. Quem levantou a bola para o tema foi Alexandre Vasarhelyi, executivo-chefe de investimentos (CIO) da B2V Crypto, gestora de recursos que atua no universo dos ativos digitais e que criou o primeiro fundo dedicado no Brasil. Em seu perfil no Linkedin, ele escreveu: “A B3 acaba de ser atropelada” porque a partir desta semana qualquer pessoa no mundo poderia operar o Ibovespa 24 x 7 x 365 na Hyperliquid, “a maior bolsa descentralizada do planeta”. “Sem conta na corretora. Sem câmbio. Sem horário de pregão. Sem intermediário. O índice mais importante do Brasil agora tem preço em dólar, em tempo real, acessível de qualquer lugar. A B3 não fechou. Mas o monopólio, sim”, provocou. Isso muda completamente o jogo do Ibovespa, respondeu um interlocutor que atua com compliance e IA aplicada a negócios. “Antes a gente falava de BDRs e ETFs como porta de entrada — agora o acesso direto 24/7 em dólar elimina ‘friction’ [fricção] e traz liquidez real”, escreveu. “Meu único ponto de atenção: essa exposição direta, sem os filtros de uma corretora local, pode puxar investidor despreparado pra alavancagem pesada. A educação financeira precisa correr atrás desse movimento.” Sim, ele tem um ponto. Se a pessoa física se aventurar por algo assim pode de fato se machucar, mas seria mais nocivo do que as negociações de “day trade”, as compras e vendas de ativos no mesmo dia, com apoio da B3 e dos intermediários financeiros? Apesar das estatísticas desfavoráveis, esse tipo de operação, que tem o mérito de trazer liquidez para certos ativos, não para de aumentar. Em conversa com o Valor, Vasarhelyi, um trader experiente que passou por instituições como Credit Suisse, Deutsche Bank e ING, explica que para investir no contrato é só preciso ter uma carteira de “stablecoins” ancoradas ao dólar e transferir a quantia necessária à garantia de margem. Criada por um grupo de programadores em 2022, considerados a elite das transações de alta frequência, a Hyperliquid tornou-se conhecida no mundo cripto por disponibilizar contratos futuros de bitcoin em qualquer momento do dia. Um dos fundadores é Jeffrey Yan, que estudou matemática e ciência da computação em Harvard e é considerado um prodígio. A “exchange” oferece a infraestrutura, não atua como contraparte, como ocorre nas negociações em bolsa, dentro do ambiente regulado. Qualquer pessoa pode comprar um “ticker”, um código de negociação, colocar preço e negociar. O perfil .xyz foi quem criou o contrato de Ibovespa alavancado, assim como vários outros. O gestor estudou a Hyperliquid quando a companhia fez uma oferta de tokens e ele comprou cerca de 1% da carteira na emissão de ativos digitais, no que equivaleria a um oferta inicial no mercado de ações. Ainda não há negociações com o contrato de Ibovespa alavancado, então isso não seria, por ora, motivo de preocupação para a B3, segundo um observador a par das questões concorrenciais que cercam a bolsa. Uma atuação possível seria questionar a propriedade intelectual do índice. A A5X, uma nova infraestrutura de mercado brasileira focada em derivativos, licenciou, por exemplo, dados da B3 para desenvolver a criação de índices quando estrear, entre o quarto trimestre e o início de 2027. Mas como acionar um perfil .xyz já que a “exchange” é apenas uma infraestrutura e está no ambiente das finanças descentralizadas? “Não há com quem falar”, reconhece. Esse interlocutor pondera que quem deve ser atraído para esse tipo de contrato é justamente a pessoa física. A preocupação é esse investidor se machucar e achar que o mercado de capitais é apenas um jogo. Uma alavancagem de 20 vezes não é, contudo, algo para amadores. Sobre a hipótese de estratégias do gênero roubarem liquidez do Ibovespa futuro original da B3, ele avalia que, se o contrato ganhar adeptos, vai acabar servindo a operações de arbitragem, via robôs, e não necessariamente afetar de forma negativa o giro local. Mas pode, sim, afetar preços de mercado. Diante da proliferação de ofertas irregulares de contratos no exterior, a exemplo do Forex (o mercado que negocia pares de moedas), a atuação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) se limita a emitir “stop orders” (a ordem para que as ofertas sejam interrompidas). Só que é o tipo de ação considerada ineficiente, porque “a CVM manda um e-mail que cai numa caixa postal em Cayman”, sem mais consequências, diz. Uma saída seria usar a mesma estratégia adotada pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) em relação aos mercados preditivos, que, em parceria com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), impediu o acesso a sites mantidos no exterior a partir do Brasil. Não há, contudo, uma atuação que configure uma oferta pública irregular pela Hyperliquid no país, diz Henrique Pimenta, sócio de Banking do BMA Advogados. “Teoricamente, bolsa e a CVM estão de mãos atadas”, diz Pimenta, ainda que veja a supervisão preocupada com situações que guardam certa semelhança, como no caso do Forex, o mercado global que negocia pares de moedas. “Mas nele há, de fato, prospecção ativa no Instagram. No caso da plataforma blockchain ela não está no Brasil ainda que seja acessível aos brasileiros.” Os protocolos de finanças descentralizadas (DeFi) estão na moda e tiram a figura da B3 e das corretoras do jogo, diz o especialista. Neles, não há modelos padronizados, preços estabelecidos e métricas de cálculo do ativo para se fechar negócios. “A rigor, as partes estabelecem o preço que quiserem, de forma bilateral. Tem um pouco a questão filosófica das finanças descentralizadas, mas também todos os riscos.” O principal é o de a contraparte não honrar o compromisso. Já o ambiente regulado, com todos os seus intermediários, existe justamente para mitigar riscos e assegurar a liquidação de ativos e derivativos. Foi após a crise das hipotecas de alto risco nos Estados Unidos, com a consequente quebra do Lehman Brothers e de outras instituições, que iniciativas fora do mercado convencional começaram a prosperar, junto com a evolução da tecnologia. “No final, o que se descobriu é que saíram vendendo derivativos que não tinham lastro. A DeFi surge nesse ambiente de querer estar fora do alcance de intermediadores e reguladores, fazer de forma direta”, lembra Pimenta. E se não precisa de intermediário ou uma contraparte central, não há custos de observância regulatória, emolumentos e outras taxas que remuneram a cadeia de distribuição. Também não há garantia de que não vá haver algum tipo de fraude e que os procedimentos anti-lavagem de dinheiro e de financiamento ao terrorismo estão sendo respeitados. “Em tese, com o crescimento do ambiente de DeFi e ele se tornando mais popular, isso diminui um pouco o papel das bolsas e corretoras que negociam derivativos e valores mobiliários, esse é o receio dos players estabelecidos”, diz Pimenta. O especialistas cita que atualmente a bolsa, que ainda atua como um monopólio, mantém um market share robusto, não há grande preocupação — mas e no futuro? “A exchange tem 12 funcionários, uns caras que entraram com protocolo de blockchain de smart contract rodando sem auditoria. Se isso ganhar tração pode reduzir a liquidez da bolsa, ainda mais se tratando de ativos do universo cripto. Quem negocia bitcoin, ethereum já é familiarizado e gosta disso. [O contrato de Ibovespa alavancado] atrai esse público, é o pessoal jovem, inovador.” Sem citar nomes, Rafael Furlanetti, presidente da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord), diz estar preocupado com a “bagunça” das ofertas irregulares como Contratos por Diferença (CFD) e o Forex, que são “o Tigrinho do mercado de capitais”. “O que está sendo oferecido para o cliente brasileiro por plataformas ilegais para vender um pedaço do céu, de forma irresponsável, sem controle de cadastro, compliance, tem se tornado incontrolável”, diz. Ele cita que as estimativas são de que os valores negociados pelas plataformas ilegais, incluindo as bets, representem cerca de 50% do volume do varejo na B3. “Isso vende a promessa de um lucro que não existe, não tem que fazer o ‘know your client’ [conheça o seu cliente], há uma evasão grande de dinheiro.” Furlanetti defende que Banco Central e CVM atuem fortemente contra esse tipo de “erva daninha” que consome parte da poupança do brasileiro. Fez uma reunião com o BC na semana passada e coordena outras agendas. Uma das propostas, afirma, seria proibir o fechamento de câmbio que tenha como destino as plataformas ilegais. Outra ação possível seria a Anatel derrubar os sites domiciliados no Brasil. “Se atuar no câmbio, já mata boa parte do problema aí”, diz Furlanetti. Henrique Pimenta, sócio da área de Mercado de Capitais do BMA Advogados — Foto: Divulgação