Percepção é que o BC “subiu a régua” regulatória e vê riscos potenciais nesse mercado emergente que passou a supervisionar. Bruno Samora, da Matera — Foto: Divulgação A nova regulação do Banco Central (BC) para prestadores de serviços de ativos digitais, que iguala as exigências regulatórias das plataformas de criptoativos com as das corretoras e distribuidoras de valores das finanças tradicionais, pode afastar fintechs e startups nascentes desse mercado, segundo especialistas. A percepção geral é que o BC “subiu a régua” regulatória e vê riscos potenciais nesse mercado emergente que passou a supervisionar. Por outro lado, incentiva a convergência entre as finanças tradicionais e o mundo cripto, o que abre espaço para produtos inovadores que combinem serviços de ambos os segmentos. Para Bruno Samora, chefe de produtos (CPO) da Matera, a publicação da nova resolução pelo BC marca um passo definitivo para o bolso do consumidor brasileiro e para o futuro dos meios de pagamentos. "Para o investidor pessoa física, a medida é um divisor de águas: as exchanges agora operam sob a mesma régua de conformidade, governança e gestão de risco dos grandes bancos. Esse movimento abre caminho para uma experiência financeira unificada", disse Samora. Na visão do executivo, a tendência é que, em breve, o usuário final possa gerenciar dinheiro tradicional, stablecoins, ativos tokenizados e criptoativos na mesma conta corrente e no mesmo aplicativo bancário, movimentando com a mesma simplicidade que hoje realiza um Pix. "Para que essa conta 'tudo em um' funcione na ponta sem fricção, os bancos correm nos bastidores para readequar seus sistemas. O principal desafio tecnológico deixa de ser a criação de um novo app e passa a ser a modernização das infraestruturas de core banking, preparando-as para liquidar múltiplos trilhos de pagamento simultaneamente", disse. Para Nicole Dyskant, o BC aumentou a régua regulatória, o que terá maior impacto para as plataformas de ativos digitais de menor porte. "Além de trazer uma régua alta que deve dificultar ainda mais a vida das pequenas e médias, a opção regulatória pela padronização inicial no segmento S3 e a migração futura para S4 vão facilitar a supervisão inicial do BC e inibirão a arbitragem regulatória", disse. "O mercado já sabia que o BC iria impor o conjunto de suas regras prudenciais, e que via o mercado de ativos digitais como um mercado de riscos, e de riscos ainda desconhecidos para o regulador". Segundo a especialista, a opção inicial pelo tipo 3 e posterior migração em 2028, independentemente do porte, traz uma complexidade adicional para as prestadoras de serviço. Para Dyskant, ao vedar a prestação de serviços de ativos virtuais para fins de enquadramento no S5, de menores exigências, o BC deixa claro que não considera essa atividade compatível com o regime regulatório mais leve. “A mensagem é objetiva: ainda que uma prestadora de serviços de ativos virtuais seja pequena, a natureza da atividade exige um padrão mínimo mais robusto de capital, controles e governança." "O outro lado da moeda: as pequenas e médias empresas podem argumentar que, ao padronizar o segmento, o BC acaba por tratar desiguais de forma igual, embora do ponto de vista regulatório, como disse, isso seja compreensível", disse ela.03/07/2026 17:26:15