Rios transbordam. É da natureza. Antes da ocupação sem planejamento da cidade de São Paulo, os rios Pinheiros e Tietê eram curvos e suas margens, formadas por extensas várzeas, acomodavam o excesso de água resultante das chuvas. No decorrer de décadas, eles foram retificados, suas margens, ocupadas desordenadamente, e o solo, impermeabilizado. O ciclo de cheia e vazante não foi respeitado. Soma-se a isso o inegável aquecimento global e as mudanças climáticas. O resultado são as grandes enchentes.
Tragédias causadas por inundações trazem sofrimento e perdas. Paradoxalmente, a que atingiu 80% do estúdio e acervo de Bob Wolfenson, há seis anos, na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo —até então a maior em 77 anos—, lhe trouxe inspiração.
O que aparentava ser a destruição total de décadas de um primoroso trabalho, apresentou-se como algo novo e surreal. Surgiram formas e relevos que pediam uma releitura: "Não! Isso está bonito! Tem um lance aí", disse Wolfenson, diante da escolha entre o descarte ou a ressurreição artística.
Resgatado das profundezas do estúdio inundado, manchado de água e lama, ressuscitou em outra dimensão. Em vez de desespero, o evento trouxe reflexão e releitura, que só o talento e o olhar criativo e resiliente do autor conseguiriam realizar. Um outro Bob Wolfenson emergia daquele desastre. Como ele mesmo diz, "foi um efeito físico, sobre um material físico, criou-se, então, uma nova materialidade".










