Especialistas discutem formas para dar maior eficiência às transações internacionais, simplificar processos e ampliar acesso a crédito e financiamento Marlyson Silva, presidente da fintech de ativos digitais Transfero: tendência é que os bancos desenvolvam tecnologia própria para movimentar seus recursos — Foto: Divulgação A última edição do Web Summit Rio trouxe aos palcos do Riocentro inovações desenvolvidas por fintechs, apresentadas em uma das 14 trilhas de conhecimento do evento. Transações globais em segundos, crédito definido por algoritmos, pagamentos integrados a aplicativos são alguns dos avanços tecnológicos recentes que levaram empresas a obterem resultados concretos e melhores, como aumento de clientes, serviços, de operações e, naturalmente, de receita. Os avanços, no entanto, embutem desafios. Um dos principais está relacionado ao cenário pós-Pix, eleito a ferramenta mais bem-sucedida de meio de pagamentos por boa parte dos especialistas que participaram do evento. Classificado de “matador de monopólios” por Paddy Cosgrave, fundador e CEO do Web Summit, por eliminar intermediários na cadeia de valor digital, o uso do Pix, produto que movimentou mais de R$ 27 trilhões apenas em 2025, leva a uma pergunta natural: Qual o futuro dos serviços financeiros e dos meios de pagamento e o que se deve esperar da infraestrutura financeira global? Entre as conclusões discutidas no evento, uma delas, a do painel “Fintech - Payment Infrastructure, Pix and Blockchain”, apontou para a integração entre diferentes sistemas cada vez mais transparentes. O futuro dos meios de pagamentos não será definido por uma única tecnologia. “A próxima geração da infraestrutura financeira tende a combinar diferentes sistemas, criando experiências cada vez mais rápidas, seguras e invisíveis para quem está do outro lado da tela”, disse Eduardo Santos, CTO do Start Bank. Segundo Santos, o próximo capítulo da infraestrutura financeira deverá simplificar todo o ecossistema, a tecnologia é apenas um meio e merece menos fascínio; o foco deve estar no valor criado para empresas, investidores e consumidor. A mudança nos meios de pagamentos adotada pelo Brasil com o Pix, na avaliação de Cosgrave, apontada como um dos maiores casos de inovação em pagamentos do mundo, vai revolucionar o mundo das fintechs, mas as demandas corporativas requerem maior eficiência, também, nas transações internacionais. Segundo ele, o Vale do Silício, até então motor da inovação global, vem cedendo lugar às estruturas tecnológicas desenvolvidas em outras regiões. O amadurecimento do mercado permitiu identificar com mais precisão as chamadas “dores” dos usuários e a criação de produtos sob medida para atender novas demandas. Transferências internacionais dependem de uma rede de bancos até chegar ao destino, elevando custos e aumentando a duração do processo. Levantamento do Banco Mundial estimou em 6% do valor o custo de uma transferência internacional. As alternativas deverão vir de tecnologias como blockchain e stablecoins. A digitalização do dinheiro permite que sistemas automatizados realizem compras e pagamentos em nome dos usuários, sem fronteiras geográficas. Por essa razão, os debates deram relevância ao modo como redes blockchain podem simplificar processos complexos do mercado de capitais, reduzir intermediários e criar formas de acesso a crédito e financiamento. Pagamentos internacionais serão cada vez mais em tempo real” A mexicana Clara, uma das maiores fintechs B2B da América Latina, mostrou como soluções desenvolvidas para realidades locais, com seus desafios específicos em pagamentos, bancarização e logística, apresentaram vantagens competitivas importantes. “Plataformas adaptadas ao contexto regional conseguem responder de forma mais eficiente às necessidades do mercado”, defendeu o CEO Gerry Giacomán Colyer. Focada em cartões corporativos e gerenciamento de despesas para empresas, a fintech anunciou o lançamento de sua plataforma global para gestão de gastos de empresas, que poderá ser usada em qualquer lugar do mundo e em qualquer moeda. De acordo com Colyer, o produto foi criado a partir da demanda dos clientes que operam na América Latina. É o primeiro produto global da fintech que permitirá atender cada vez mais corporações internacionais. A Clara também lançará seus próprios cartões operando com stablecoins que funcionam em qualquer moeda. Outra fintech, a XTransfer, com sede em Xangai, clientes em 90 países e 5,1% do market share global, também investiu em soluções tecnológicas para agilizar operações internacionais. “Uma transferência da XTransfer entre Brasil e China leva 50 minutos”, disse Violas Xiao, CEO para Singapura e América Latina da XTransfer. No ano passado, a fintech processou US$ 60 bilhões, reduziu em 95% as tarifas e em 80% os custos de conversão. “Pagamentos internacionais serão cada vez mais em tempo real. Para isso, é preciso que o mundo compartilhe informações com os mercados locais, assim como a regulamentação e o compliance”, disse. A Transfero, fintech de ativos digitais especializada em infraestrutura cripto e dona da maior stablecoin atrelada ao real, o BRZ, tem um braço de pagamentos que conecta o mercado financeiro tradicional a stablecoins e mercados globais. A empresa investiu em soluções para conectar múltiplas infraestruturas como Pix, Swift, stablecoins, plataformas de blockchain, bancos e provedores de liquidez em tempo real. “Nos últimos dez anos, o mercado B2B e os bancos tradicionais eram céticos em relação a bitcoin e ativos digitais, mas hoje o JP Morgan movimenta de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões por dia em uma blockchain desenvolvida por eles e economiza de 2% a 3% dessa movimentação. A área é autossuficiente e gera resultado positivo para o banco. A tendência é que os bancos desenvolvam tecnologia própria para movimentar seus recursos”, diz Marlyson Silva, presidente da Transfero. A fintech brasileira é provedora de liquidez para o real e para o dólar. Por exemplo, se uma grande empresa nos Estados Unidos deseja pagar no Brasil a um fornecedor ou cliente a Transfero provê liquidez via mercado digital. “Hoje estruturamos um fluxo financeiro em que nosso cliente economiza taxa bancária, operacional e aumenta sua eficiência porque em dez minutos o dinheiro sai de um lugar e chega no outro, quando poderia levar até três dias”, diz Silva. A Transfero processou mais de US$ 3 bilhões em pagamentos em 2025 e de US$ 15 milhões a US$ 20 milhões por dia usando stablecoins.