O volume de empréstimos concedidos pelas fintechs vem crescendo e mudando de perfil, com o consignado ganhando espaço nas carteiras, para além do cartão de crédito, produto que as lançou no sistema financeiro. Mas a participação ainda continua pequena frente à liderança isolada dos grandes bancos. Especialistas e executivos do setor avaliam que é natural que qualquer mudança no “transatlântico” que é o mercado de crédito demanda tempo, mas há quem defenda medidas que aumentem a portabilidade para que as “novatas” possam abocanhar uma fatia mais relevante dos empréstimos. Levantamento feito pelo GLOBO com os números mais recentes divulgados pelas instituições financeiras mostra que a participação das cinco maiores fintechs na concessão de crédito aumentou cerca de 1 ponto percentual entre o primeiro trimestre de 2025 e o mesmo período de 2026. De janeiro a março do ano passado, Nubank, Inter, C6, Mercado Pago e XP concederam R 354,6 bilhões na mesma época deste ano, alcançando a fatia de 4,5%. Por outro lado, os cinco maiores bancos do país (Itaú, Banco do Brasil, Caixa, Santander e Bradesco) concederam, juntos, R 5,127 trilhões no mesmo período de 2026 (64,8%). No final de 2016, por sua vez, a concentração das operações de crédito nos cinco maiores bancos era de 74,3%. Ou seja, houve uma queda relevante na última década. Crescimento de 330 vezes Uma pesquisa da PWC em parceria com Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD) reforça o quadro. Segundo o levantamento realizado com cerca de 40 empresas associadas à entidade, como PicPay, Stone, Creditas, e fintechs menores, a concessão de empréstimos das participantes cresceu 330 vezes na última década e alcançou R$ 10,4 bilhões, seguido por consignado para trabalhadores privados (R$ 7,1 bilhões). Só depois aparecem os números de cartão: R$ 4,3 bilhões à vista e R$ 2,2 bilhões no parcelado. De forma mais ampla, também houve aumento de empréstimos garantidos. Em 2019, 60% dos produtos ofertados eram sem garantia, percentual que caiu para 14% em 2025. Em 2021, apenas 34% das fintechs aceitavam garantia de qualquer natureza, no ano passado, chegou a 79%. Fintechs em expansão no crédito — Foto: Editoria de Arte “Em muitos desses segmentos, a alternativa real do tomador não é o crédito bancário tradicional, mas o cheque especial, o rotativo do cartão ou o financiamento informal”, afirmou Marcelo Buosi, COO da QI Tech e vice-presidente da ABCD, no documento. Segmento se consolida O professor de Finanças da FGV Rafael Schiozer destaca que o crescimento das fintechs no crédito consignado revela um amadurecimento do setor, porque reflete a evolução do relacionamento do cliente, que, na maioria das vezes, foi capturado pelo acesso mais fácil do cartão de crédito, mas já opta pela mesma instituição para pegar empréstimos. Para o especialista, a competição vem aumentando no crédito de forma geral, ainda que de forma lenta, o que é natural em um mercado muito grande e que guarda uma relação forte de confiança. — No mercado que elas se aventuraram, elas cresceram. No mercado de pessoa física, crescem bem mais rápido do que os bancos tradicionais. Na baixa renda, quem está entrando está dominando esse mercado. Será porque os bancões não se interessam? Uma parte sim. A maior parte dos beneficiários do Bolsa Família tem cartão de crédito de fintechs — disse Schiozer, que integra uma pesquisa sobre o tema na FGV. No caso do consignado privado, o professor avalia que a política foi bem-sucedida em quebrar a barreira de entrada para as instituições financeiras devido à forma de solicitação da operação. Após solicitar o consignado na plataforma do governo, o trabalhador recebe propostas de instituições e pode compará-las, optando pela que oferece as melhores condições. Esse modelo supera os desafios de distribuição de produtos que as novatas normalmente têm. Como os bancos já têm anos de tradição na oferta de crédito, os clientes normalmente resistem a mudanças, se não forem interpelados. No consignado do INSS, as novatas também conseguem entrar por meio dos pregões para definição das instituições responsáveis por fazer os pagamentos. — O crédito consignado privado criou uma espécie de Open Finance simplificado e específico para um produto, que parece ter funcionado bem — avalia. O Open Finance, iniciativa criada pelo Banco Central (BC) para compartilhamento de informações de clientes entre instituições financeiras, tem funcionado aquém do esperado para promover a portabilidade de crédito, na opinião de Schiozer. — O Open Finance foi criado com esse objetivo e tem funcionado aquém do que se esperava e aquém do que se desejava para esse fim. Entender porque a portabilidade não tem funcionado é um caminho para aumentar a competição para outras modalidades, para além do consignado. A Zetta, que representa grandes fintechs, como Nubank e Mercado Pago, defende que o BC amplie o Open Finance e a portabilidade de crédito e salário como mecanismos para aumentar mais a competição no sistema financeiro. A entidade ainda cita a revisão do Ressarcimento de Custo de Originação, uma espécie de taxa que a instituição de destino em um processo de portabilidade tem que pagar para o originador do crédito. Parte dos executivos do setor avalia que, após a série de ações necessárias para aumentar a segurança no sistema financeiro, o regulador precisa, em paralelo, propor medidas de estímulo à competição, para não correr o risco de dar passos para trás no aumento da concorrência. O quadro agora não é mais de falta de participantes no sistema financeiro, mas de “mobilidade”, já que as instituições mais tradicionais já tem um espaço cativo de em alguns mercados, como o de crédito. Para aumentar a competição, é necessário, dizem os executivos, iniciativas que deem mais fluidez aos recursos alocados no sistema financeiro.
Fintechs ampliam oferta de crédito, mas ainda estão longe de fazer sombra aos grandes bancos
De janeiro a março do ano passado, Nubank, Inter, C6, Mercado Pago e XP concederam R$ 354,6 bilhões na mesma época deste ano, alcançando a fatia de 4,5%







