Se há um campo em que o Brasil deixou de ser apenas um importador de inovações tecnológicas é o financeiro. O país que criou o Pix — o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central (BC)que incomoda os EUA por seu impacto no segmento dominado por operadoras americanas — é também a residência de muitas startups financeiras bem-sucedidas. Essa fintechs brasileiras colaboram para configurar o Brasil como alvo de investimentos e uma referência atual para outros países nessa área, observaram participantes de vários painéis do Web Summit Rio 2026. Um dos debates teve o sugestivo título “Por que a próxima Stripe virá de São Paulo, e não de São Francisco?”, numa referência à gigante americana de processamento de pagamentos on-line. Para os participantes, o principal diferencial brasileiro é a combinação entre inovação tecnológica e uma atuação coordenada do BC, que criou condições para o desenvolvimento de ferramentas como o Pix, considerado um divisor de águas na aceleração da digitalização de pagamentos no Brasil. "Por que a próxima Stripe virão de São Paulo, e não de São Francisco?": painel do Web Summit Rio reuniu Dileep Thazmon, da Jeeves, Emílio Moreira, cofundador da vertical de administração e custódia da QI Tech — Foto: Lucas Tavares / Agência O GLOBO — O Brasil está claramente na vanguarda da inovação em pagamentos. Muitos países ainda estão tentando construir sistemas semelhantes ao Pix enquanto o mercado brasileiro já discute as próximas etapas dessa evolução — afirmou Emílio Moreira, cofundador da QI Tech, que fornece infraestrutura tecnológica para outras instituições financeiras. Ele destacou também o Open Finance, sistema criado pelo BC para permitir o compartilhamento seguro de dados cadastrais e financeiros que já conectou mais de 100 milhões de contas no país: — Não é apenas abrir dados, é sobre criar uma linguagem comum para o mercado. O cliente deixa de ser um “prisioneiro” de uma única instituição, porque pode levar seu histórico e sua confiança para onde o serviço for melhor. Isso simplifica brutalmente a migração e, no fim do dia, força todo o sistema a ser mais eficiente. “A América Latina pode conquistar o mundo?": Painel foi mediado por Maria Luiza Filgueiras, editora-chefe do Valor Pipeline, com a participação de Marcello Gonçalves, cofundador e sócio da DOMO VC, Izabel Gallera, sócia da Canary, e Marcelo Lima, sócio da Monashees — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo Lançado em 2020, o Pix é gratuito para pessoas físicas. Tem 170 milhões de usuários, 80% da população do país, e realiza mais de 7 bilhões de transações por mês. No ano passado, movimentou R$ 35,4 trilhões. Os debatedores argumentaram que a infraestrutura criada pelo BC ampliou a inclusão bancária e a concorrência no setor, além de facilitar a entrada de empresas inovadoras no sistema financeiro. — Uma das características mais impressionantes do mercado brasileiro é que o regulador não atua apenas como fiscalizador. Existe uma disposição genuína para dialogar com o setor e entender como a tecnologia pode melhorar a eficiência do sistema financeiro — disse Dileep Thazhmon, fundador e CEO da fintech americana Jeeves, que amplia a operação no Brasil por considerar o país como estratégico para seu crescimento. Mercado sofisticado O executivo observou que muitas empresas estrangeiras subestimam a complexidade do mercado brasileiro: — O erro mais comum é acreditar que basta trazer uma solução global para o Brasil. O mercado brasileiro tem características próprias, tanto do ponto de vista regulatório quanto do comportamento dos consumidores. Quem não adapta o produto acaba encontrando dificuldades. Em entrevista, Paddy Cosgrave, fundador e CEO do Web Summit, também destacou o Pix ao falar da importância de realizar uma versão do evento em um país tão relevante no mundo das inovações financeiras. Ele afirmou que, embora ainda seja pouco conhecido lá fora, o impacto do Pix chama a atenção de investidores e empreendedores de tecnologia em todo o mundo e pode inspirar outros países: — O Brasil revolucionou o mundo das fintechs com o Pix, uma tecnologia extremamente disruptiva, quase uma destruidora de monopólios. Paddy Cosgrave, cofundador e CEO do Web Summit — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo A Clara, fintech mexicana líder na América Latina em cartões corporativos e gerenciamento de despesas para empresas, escolheu o Web Summit Rio para apresentar sua nova plataforma global. A solução, chamada Clara Global, teve seu código construído inteiramente com IA — o que acelerou o desenvolvimento — e poderá ser usada por empresas para processar seus gastos em qualquer lugar do mundo, em qualquer moeda. ‘Regulação de vanguarda’ Gerry Giacoman Colyer, CEO da Clara, destacou a qualidade dos profissionais brasileiros ao revelar que muitas inovações desenvolvidas na subsidiária do Brasil são replicadas pela startup em outros mercados. — Considero o ambiente brasileiro não apenas favorável, mas um dos mais maduros e estratégicos do mundo para o desenvolvimento de fintechs. Esse cenário de liderança é impulsionado por uma regulação de vanguarda, já que o país conta com um dos órgãos reguladores mais técnicos e modernos globalmente, tendo no desenvolvimento e na adoção estrutural do Pix a maior prova dessa capacidade institucional — afirmou. — Além disso, o Brasil oferece uma forte cultura de adoção digital, com uma população altamente conectada e muito aberta a inovações financeiras, somada a um capital humano de excelência. Hoje, sem dúvida alguma, o Brasil é o país que puxa a inovação tecnológica e financeira de todo o continente. Gerry Giacoman Colyer participa do Web Summitt Rio — Foto: Divulgação Em um painel sobre internacionalização de startups da América Latina, Izabel Gallera, sócia da Canary, empresa de venture capital (capital de risco) que investe em negócios em estágio inicial na região, disse que as barreiras geográficas para startups são menores atualmente, mas ainda há obstáculos. Ela diagnosticou, particularmente entre as fintechs, a busca de outros mercados a partir dos EUA, o que chamou de “diáspora latina”: — É preciso ter as conexões ou acesso ao talento específico. A barreira do produto hoje em dia, dada a IA, está próxima de zero, mas ainda existe uma barreira de distribuição. Marcelo Lima, sócio da Monashees, que investe em fintechs, empresas de IA e de softwares corporativos, concordou que há esse movimento, inclusive com empreendedores latinos iniciando seus negócios nos EUA. E citou entre os exemplos a Brex, fundada por brasileiros no Vale do Silício em 2017 no mesmo segmento da Clara, e que em pouco tempo se tornou um unicórnio (startup avaliada em mais de R$ 1 bilhão). Luana quer Kalshi no Brasil A brasileira Luana Lopes Lara voltou ao seu país para a sessão de abertura do Web Summit Rio apontada pela Forbes como a mais jovem bilionária a ter construído uma fortuna sem ser herdeira. Formada no MIT, a engenheira cofundou nos EUA a Kalshi, plataforma de mercado preditivo avaliada em US$ 22 bilhões, mas seus desafios como empreendedora estão no começo. Luana Lopes Lara, cofundadora da Kalshi, conversa com conversa com Tom Giles, editor executivo sênior de Tecnologia da Bloomberg News — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo Ela diz que a empresa vai insistir no diálogo com governos, inclusive o do Brasil, para superar barreiras regulatórias às suas negociações de contratos baseados na probabilidade de desfechos de eventos futuros, de eleições e economia a questões geopolíticos e partidas esportivas. — Nas apostas esportivas ou nos cassinos, o lucro vem quando o usuário perde. No mercado preditivo, é completamente diferente. A Kalshi não ganha quando as pessoas perdem. Faz dinheiro na taxa por transação — explicou. — Estamos muito esperançosos de que viremos para o Brasil em breve. A cobertura do Web Summit Rio 2026 na Editora Globo é apresentada pelo Itaú.