A redução, na quarta-feira, da Taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,50% para 14,25% ao ano, já era esperada pelo mercado. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, foi unânime. O comunicado não deu qualquer sinalização sobre o rumo da taxa, mas alguns economistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que o Copom deve fazer uma pausa nos cortes em sua próxima reunião, no início de agosto. Foi o terceiro corte consecutivo dessa magnitude no ciclo de alívio dos juros iniciado em março, quando a Selic estava em 15%. Com a queda, a taxa se iguala ao nível de maio de 2025. A autoridade monetária, no entanto, deixou os próximos passos em aberto, apontando maior preocupação com a inflação diante de uma atividade econômica que voltou a se fortalecer e das incertezas em relação à guerra no Oriente Médio e a eventos climáticos. O BC também passou a considerar como risco de alta para inflação “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo”, em meio ao lançamento de novos programas de crédito pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva. Juros foram reduzidos em 0,25 pp pela terceira vez consecutiva — Foto: Criação O Globo “O Comitê julgou apropriado, nesse momento, dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, reduzindo a taxa básica de juros para 14,25%. No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária”, afirmou o Copom no comunicado. Não houve qualquer sinalização sobre os próximos passos. Na última reunião do Copom, em abril, o BC havia indicado que planejava continuar o ciclo de “calibração” dos juros, mas sem detalhar o ritmo e a extensão de possíveis novos cortes. Preparação de terreno A economista Andrea Damico, sócia-fundadora da Buysidebrazil, avalia que o BC foi mais duro em todo o comunicado, especialmente reconhecendo a reaceleração da atividade econômica e incluindo um novo fator de risco de alta para a inflação, relacionado aos novos programas do governo. Para ela, o Copom “prepara o terreno” para interromper o ciclo de queda dos juros em agosto: — O BC abre espaço para manutenção na próxima reunião. O economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos, vê “espaço muito limitado, a curto prazo, para o Copom fazer novos cortes”. Ele afirmou que deve calibrar suas projeções para a Selic quando for divulgada a ata da reunião, na semana que vem. “Nosso cenário-base antecipa um ajuste final em agosto de 0,25 p.p., o que deixaria a taxa Selic em 14,00% até (pelo menos) o 1T27. Mas, considerando a deterioração recente do cenário de inflação, uma pausa nos atuais 14,25% também parece bastante provável”, afirmou em nota o economista-chefe da XP, Caio Megale. Outros, no entanto, projetam a continuidade do ciclo de queda dos juros. Para o economista Leonardo França Costa, do ASA, no trecho em que cita a mudança do horizonte relevante, o BC deixa aberta a porta para novos cortes, a despeito da leitura mais dura do cenário para a inflação. “Nossa projeção é de encerramento de ciclo nessa reunião (em 14,25%), contudo, abriu-se uma possibilidade (grande) de o Banco Central seguir em seu ciclo de calibragem de juros, cortando novamente na reunião de agosto, esperando o desenrolar do cenário até lá”, afirmou Costa em relatório. O economista da AZ Quest Lucas Barbosa também avalia que o Copom fará uma pausa no processo de corte dos juros básicos em sua próxima reunião, em agosto. A depender da evolução do cenário, como o futuro da guerra no Irã e os efeitos do El Niño, poderá depois retomar os cortes: — O BC provavelmente está mirando uma trajetória de Selic que não é a do Focus, nem uma Selic parada, muito menos uma alta. O cenário que ele está antevendo é algo inédito, que é uma pausa na próxima reunião ou nas próximas reuniões, ou seguir cortando (direto), mas com um ciclo menor. A expectativa atual de Barbosa é de seguidos cortes de 0,25 ponto percentual se for confirmada a melhora da guerra. Se o cenário se mostrar mais adverso, avalia o economista, o Copom deu as informações necessárias para que se possa esperar uma pausa na próxima reunião; mas, se tudo convergir conforme o esperado, voltará a cortar juros assim que o cenário permitir. Riscos para a inflação No comunicado, o Copom mostrou incômodo com a aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre, embora ainda espere desaceleração este ano. O BC destacou especialmente o desempenho de setores que reagem ao comportamento da Selic, seu instrumento para esfriar a economia. “O conjunto dos indicadores mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre do ano, com setores mais cíclicos voltando a desempenhar papel significativo, e mercado de trabalho ainda com sinais de resiliência.” Em relação à inflação corrente, o BC destacou que os dados recentes mostraram distanciamento adicional em relação à meta — em maio, o IPCA acumulado em 12 meses atingiu 4,72%, superando o teto da meta, de 4,5%. “O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.” A projeção de inflação oficial do BC no horizonte relevante, que atualmente é o final de 2027, também subiu, de 3,5% para 3,7%. Crítica aos programas de estímulo do governo O comunicado citou o risco relacionado a “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo”, o que enfraquece parte dos canais usuais de transmissão da política monetária. Nos últimos meses, o governo federal lançou uma série de programas que tendem a estimular a economia, como as linhas de crédito para comprar carros, caminhões e motos. Além disso, o BC adicionou as ameaças climáticas relacionadas ao El Niño, com efeitos “sobre a produtividade agrícola e custos de energia”, que elevariam o risco de desancoragem das expectativas de inflação por período prolongado. Em relação ao cenário externo, o Copom manteve a avaliação de que a incerteza persiste, mesmo com o acordo preliminar entre Irã e Estados Unidos para encerrar a guerra no Oriente Médio, o que “exige cautela por parte de países emergentes”. Nas próximas reuniões, o colegiado vai passar a mirar o primeiro trimestre de 2028. O Copom considera que as projeções para a inflação, nesse horizonte, ficariam abaixo da meta. Juros futuros sobem Os juros futuros fecharam em forte alta antes da decisão do Copom, mas pressionados pela decisão do Fed de manter a taxa dos EUA com metade dos seus integrantes abrindo espaço para altas ainda neste ano. — Quando você tem a maior economia do mundo abrindo a possibilidade de uma alta nas taxas, os investidores começam a reposicionar suas carteiras em busca de maior remuneração, o que acaba pressionando os juros locais — disse Daniel Teles, sócio e líder comercial da Valor Investimentos. No fechamento, o DI para janeiro de 2027 subiu de 14,25% para 14,32%. O contrato para janeiro de 2028 avançou de 14,35% para 14,64% ao ano. Brasil tem os maiores juros reais Mesmo com o corte de ontem da Selic o Brasil é o país com a maior taxa de juros reais do mundo na comparação com outras 40 nações. A taxa real, que desconta a inflação projetada dos próximos 12 meses, ficou em 9,67%, superando a Rússia, com juro real de 9,31%, e a Turquia, com 5,57%, segundo levantamento da MoneYou e da Lev Intelligence. O Brasil ainda tem uma taxa superior à de outros países da América Latina, como México — em quarto lugar, com 5,1% —, e Colômbia, em sétimo, com juro real de 3,17%. De acordo com Jason Vieira, economista-chefe da consultoria e responsável pelo estudo, a guerra no Oriente Médio e seu reflexo nos preços alteraram a dinâmica das projeções globais de inflação para os próximos 12 meses.