O atual arcabouço fiscal não é uma boa âncora, e o Brasil precisa de um ajuste fiscal de R$ 300 bilhões a R$ 350 bilhões para colocar a dívida em uma trajetória sustentável, afirmou Marcos Fantinatti, economista-chefe da Verde, durante evento anual do fundo nesta quarta-feira em São Paulo. "O caminho é desindexar", disse ao participar de evento anual do fundo hoje em São Paulo. Fantinatti mencionou a desvinculação de despesas do salário mínimo e dos gastos com saúde e educação de métricas de receita. Com isso, disse, o Brasil pode caminhar para um superávit de 2% do PIB no início da próxima década. "É gradual, mas vai na direção correta", afirmou. Se quiser caminhar mais rápido nessa direção, será importante continuar com a agenda de revisão de gastos tributários, acrescentou Fantinatti. "É um desafio grande, não é fácil, mas com vontade política e conversa séria com a sociedade tem um caminho para se construir e levar a um equilíbrio muito melhor", afirmou. "A situação que a gente tem é complexa, mas é endereçável.” Ele reconheceu que um ajuste de R$ 300 bilhões a R$ 350 bilhões é "grande" e "politicamente difícil", mas disse que "se continuar na trajetória que a gente está não vai ser bom". Para Fantinatti, o arcabouço fiscal atual "não é uma boa âncora" porque "não é capaz de colocar a dívida em trajetória sustentável". O resultado disso, segundo ele, são juros elevados. "Sem ajuste fiscal, a taxa de juros não vai cair, ela vai continuar elevada", afirmou. "O Brasil tem um pé no acelerador fiscal e um pé no freio monetário", disse. Esse "acelerado fiscal" tem três origens, de acordo com Fantinatti. Um é o próprio orçamento, através da dinâmica das despesas. O crescimento médio real da despesa ao longo do governo Lula 3 deve ser de 4%, segundo Fantinatti. "É uma mudança de regime", disse, observando que nos dois governos anteriores (Michel Temer e Jair Bolsonaro) essa taxa variou entre zero e 1%. "Hoje, o nível de despesa é R$ 500 bilhões acima do previsto caso a gente tivesse a plena vigência do teto de gastos original", afirmou. Outra origem é o parafiscal. A Verde calcula que a aplicação em fundos e programas deve chegar a 3,7% do PIB ao fim do atual governo, de 2,8% do PIB no início do mandato. "Vai ser o maior percentual da série histórica", observou Fantinatti. A isso se somam os desembolsos do BNDES, que eram equivalentes a 1% do PIB no começo do governo e devem chegar a 1,7%. "O parafiscal é bem mais flexível, foge das restrições da legislação orçamentária. Para aumentar despesas há regras, restrições, rigidez", disse Fantinatti. Além disso, apontou, essas medidas parafiscais não aparecem nas estatísticas primárias que economistas costumam olhar, mas impactam a trajetória da dívida. Por fim, há estímulos ainda por meio das estatais federais, que "voltaram a registrar déficit depois de três, quatro anos de superávit", observou Fantinatti. Segundo ele, há má gestão, como no caso dos Correios, mas há também incentivos para que as estatais invistam. A conclusão, disse, é que "o tamanho do Estado vai ficando muito grande", criando fardos para o setor privado e distorções econômicas. — Foto: José Cruz/Agência Brasil Para Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde, CEO e CIO da Verde, a situação fiscal de mercados desenvolvidos, particularmente dos Estados Unidos, é “muito ruim mesmo” e isso ainda vai fazer preço nos próximos cinco a dez anos. “Não é um negócio para amanhã, mas ele não está sendo endereçado", afirmou. De certa forma, disse, isso traz alguma vantagem para o Brasil, porque haveria a avaliação entre investidores de que a situação fiscal do Brasil é péssima, mas a de outros países também é. "Ruim por ruim, nos favorece até certo ponto", afirmou. Ele apontou para mudanças dramáticas no perfil de endividamento dos EUA que, até 2008, se concentrava nas famílias, mas, desde então, passou a ser marcado pela dívida do governo. Arrumar esse cenário pode vir via crescimento nominal da economia, ajuste fiscal e/ou repressão financeira. Segundo Stuhlberger, deve ocorrer um misto dos três, "com risco de as coisas darem errado se tiver recessão", afirmou. Por repressão financeira, Stuhlberger disse se referir a uma "ação coordenada de bancos centrais de ter uma ‘japanização’ da política monetária, um juro curto muito baixo, meio generalizado, e uma inflação mais alta”. Além de expansionismo fiscal sem precedente, Stuhlberger caracterizou o cenário internacional como um ambiente que combina conflito geopolítico permanente e os avanços em Inteligência Artificial (IA). Sobre os conflitos geopolíticos, Stuhlberger disse que as guerras mais recentes mostraram uma diminuição na enorme distância que existia entre super potências e pequenos países. "As guerras provaram que pequenos atores conseguem gerar impactos macrodesproporcionais", afirmou. Por isso, ele disse que, saindo de fato o acordo entre EUA e Irã, será "uma grande vitória" do Irã. "Não resolve para sempre, mas é algo que vai ter de gerar um aumento generalizado de gastos com defesa", afirmou.