Coletivo alega existir 'aumento expressivo do custo de vida nos países de destino' e 'variação cambial de moedas estrangeiras frente ao real' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fachada da sede da Capes — Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/06/2026 - 22:18 Bolsas de Doutorado-Sanduíche da Capes não cobrem custos básicos no exterior, aponta ANPG Congeladas há 16 anos, as bolsas do Programa de Doutorado-Sanduíche no Exterior (PDSE) da Capes não cobrem os custos básicos de vida, segundo a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG). Com o aumento do custo de vida e variação cambial, doutorandos como Valquíria Souza enfrentam dificuldades financeiras no exterior, dependendo de apoio familiar. A ANPG critica a falta de reajuste e ressalta que o valor atual é inferior ao exigido por países como os EUA para documentos migratórios. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em Baltimore, nos Estados Unidos, sede da prestigiada Universidade Johns Hopkins, a doutoranda brasileira Valquíria Souza, de 30 anos, vive uma rotina marcada por um contraste: pesquisa em uma instituição de elite internacional, mas depende de ajuda familiar — incluindo a renda obtida com a venda de um carro da mãe — para conseguir se manter no exterior. Aluna de doutorado em Relações Internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ela foi aprovada no Programa de Doutorado-Sanduíche no Exterior (PDSE), financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O valor da bolsa, no entanto, não cobre os custos básicos de vida no país. — O que recebo não dá para viver. Minha mãe vendeu um carro que ela tinha, e foi o que me ajudou a ficar aqui. Só com o dinheiro que a Capes paga, não tem condições — afirma. A situação de Valquíria não é isolada. Ela integra um grupo de cerca de seis mil doutorandos brasileiros que participam do PDSE e relatam dificuldades para se manter no exterior com os valores atuais das bolsas. Na semana passada, a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) publicou uma carta aberta criticando o congelamento das bolsas desde 2010 em US$ 1,3 mil mensais — cerca de R$ 6,6 mil. No texto, eles alegam “aumento expressivo do custo de vida nos países de destino” e “variação cambial de moedas estrangeiras frente ao real”. — Com a falta de reajuste, as pessoas acabam não vendo a pós-graduação como perspectiva de futuro. Aqueles que não têm família ou rede de amigos que possam ajudar acabam não indo — diz o presidente da ANPG, Vinícius Soares. A carta aponta ainda que o valor é menor do que o exigido como garantia financeira mínima por países como os Estados Unidos para emitirem documentos migratórios. Além disso, o auxílio-deslocamento, de US$ 1,6 mil (R$ 8 mil), que é recebido para pagar a passagem de avião para o país no exterior, geralmente é menor do que o necessário para fazer o trajeto, uma vez que a data da viagem segue calendário exigido pelas universidades, não sendo possível procurar bilhetes mais baratos. Doação remunerada de DNA “Os bolsistas precisam recorrer a economias pessoais, apoio familiar, empréstimos ou campanhas de arrecadação para viabilizar uma atividade acadêmica que deveria estar minimamente coberta pela política pública de fomento. Em casos extremos, a fim de honrar seus compromissos financeiros mensais, há relatos de bolsistas, em editais anteriores, que trabalharam de maneira irregular no exterior e outros que realizaram doação remunerada de sangue e DNA como fontes alternativas de receita”, diz o texto. O valor está abaixo, por exemplo, do que outras instituições brasileiras pagam. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) prevê uma remuneração que varia de acordo com o país — uma reivindicação dos doutorandos apoiados pela Capes — que gira em torno de US$ 2 mil a US$ 3 mil (cerca de R$ 10 mil a R$ 15 mil). Já a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) define R$ 12 mil, o que significa US$ 2,3 mil. Pesquisa impactada No caso de Valquíria, ela ainda recebe um adicional de US$ 400 (R$ 2 mil) por residir em local de alto custo. Ainda assim, o valor não é suficiente diante dos preços no exterior. Segundo ela, mais da metade da bolsa é reservada para pagar o aluguel. De acordo com ela, se não tivesse rede de apoio familiar, não teria conseguido viver apenas com a bolsa da Capes. Ela conta que, por falta de dinheiro, até sua pesquisa — que busca avaliar como as universidades, em especial dos Estados Unidos, são tratadas por líderes de extrema-direita — foi afetada. — Eu gostaria de visitar essas universidades e infelizmente não vou poder, em razão dessa restrição orçamentária. Se tivesse reajuste, a gente poderia fazer mais coisa, levar as pesquisas para outros lugares, participar de mais congressos e ir a mais eventos — diz. Já a doutoranda de Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Juliana Nunes, de 28 anos, pesquisa o impacto da mudança do primeiro nome em crianças adotivas na identidade e na busca por origem. Ela está no Canadá desde fevereiro para fazer comparações entre adoção internacional, comum no país, e nacional, como ocorre no Brasil. Apenas com a bolsa, no entanto, não conseguiu pagar taxas obrigatórias para entrar no país. — Tive que achar outras formas antes de vir; no meu caso foi ajuda familiar. Só com o visto, foram mil reais — afirma ela, que contou com aportes da própria orientador para arcar com taxa de inscrição na instituição canadense. Em nota, a Capes informou que acompanha o aumento do custo de vida no exterior e trabalha “ativamente” na elaboração de propostas para a recomposição dos valores dos benefícios. “A implementação dessas medidas está sendo avaliada em conjunto com o MEC sob critérios de viabilidade orçamentária”, diz o texto. *Estagiários sob orientação de Daniela Dariano