Há mérito na queixa por reajuste de bolsas, mas é preciso assegurar que conhecimento seja útil ao país 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O prédio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) — Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/EBC A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) publicou carta aberta criticando o congelamento das bolsas de estudos no exterior em US$ 1,3 mil mensais (cerca de R$ 6,6 mil) desde 2010. Para conseguir sobreviver, bolsistas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) se veem obrigados a contar com auxílio da família, de amigos ou a encontrar alguma forma de complementar a renda sem prejudicar os estudos. A formação de mão de obra qualificada no exterior é uma estratégia importante para o país promover um salto em seu estágio de desenvolvimento. Um exemplo citado com frequência é a Embrapa. Criada em 1973, a empresa manteve desde o início um programa de envio de pesquisadores para cursar pós-graduação em países de ponta. Com a volta deles ao Brasil, a Embrapa pôde desenvolver projetos que deram sustentação ao crescimento da agropecuária, transformando o país num dos maiores exportadores de alimentos do mundo. A China é um caso bastante conhecido de país que enfrentou o subdesenvolvimento tendo como base políticas de formação de profissionais em centros de ensino no exterior. Com a chegada de Deng Xiaoping ao poder, em 1978, o governo chinês começou a abrir o mercado interno enquanto enviava estudantes a grandes centros de ensino no Ocidente. Como resultado do conhecimento acumulado, deixou de ser uma economia rural para se tornar uma potência industrial, centro de inovação e segunda maior economia do mundo. Roteiro similar foi seguido por Coreia do Sul, Taiwan e Cingapura. Uma diferença entre esses países e o Brasil é a pequena concentração de bolsistas nas áreas mais críticas para o desenvolvimento econômico — ciência, tecnologia, engenharia e matemática, designadas pelo acrônimo em inglês Stem. Na China 40% dos universitários formam-se em áreas Stem, segundo dados da OCDE e da Universidade Georgetown referentes ao período de 2000 a 2023. Na Alemanha são 35%, na Índia 32% e na Coreia do Sul 31%. No Brasil? Apenas 16%. Por isso as bolsas de estudos para o exterior concedidas pela Capes e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ainda mantêm concentração em cursos relacionados a educação, ciências sociais, Direito ou humanidades de modo geral. Não que sejam irrelevantes, mas é sobretudo do conhecimento nas áreas Stem que depende o salto no estágio de desenvolvimento. A formação no exterior deveria ser uma política de Estado, independente das mudanças de governo. Há mérito na reivindicação por reajuste no valor das bolsas. Mas o governo também precisa assegurar que a sociedade receba valor em troca do que investe. Isso significa assegurar que os bolsistas retornem ao Brasil depois de adquirir conhecimento no exterior e que esse conhecimento seja relevante para o desenvolvimento do país, e não apenas para satisfazer às demandas e carências da comunidade acadêmica.
Remuneração de bolsistas no exterior deve trazer ganhos para a sociedade
Há mérito na queixa por reajuste de bolsas, mas é preciso assegurar que conhecimento seja útil ao país







