Apesar dos sinais iniciais de alívio das tensões, ainda é cedo demais para dizer que a crise está perto do fim 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Uma motocicleta pega fogo perto de manifestantes antigovernamentais durante confrontos com a polícia e civis em meio a uma operação para desobstruir uma estrada bloqueada em San Julián, departamento de Santa Cruz, Bolívia, em 6 de junho de 2026 — Foto: RODRIGO URZAGASTI / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/06/2026 - 17:12 Protestos na Bolívia: Bloqueios caem, mas crise persiste sem resolução Após 46 dias de bloqueios de estradas na Bolívia, o número de interrupções caiu pela metade, mas a escassez de alimentos e medicamentos persiste. Os protestos exigem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, com perdas econômicas de US$ 2,8 bilhões. Divisões entre manifestantes e acordos trabalhistas indicam possível abertura para negociações. Apesar de sinais de alívio, a crise ainda não tem fim próximo. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os bloqueios de estradas que causaram escassez de alimentos e medicamentos em toda a Bolívia começaram a diminuir após 46 dias de conflito que testaram a resiliência do novo presidente, Rodrigo Paz. O número de bloqueios de estradas caiu para cerca de 50 na manhã de segunda-feira, ante mais de 100 nos últimos dias, segundo a Administração Rodoviária Boliviana. Os manifestantes se retiraram em algumas áreas de La Paz, Cochabamba, El Alto e outras regiões, onde o governo mobilizou máquinas pesadas para desobstruir as vias e reparar o pavimento danificado. Em outras áreas, cidadãos removeram manualmente pedras, troncos e outros detritos. O transporte de cargas foi retomado em algumas partes do país, embora ainda ocorram interrupções. O ímpeto dos protestos começou a diminuir à medida que surgiram divisões entre os manifestantes e as consequências econômicas se fizeram sentir. As perdas ascendem a US$ 2,8 bilhões (R$ 14,29 bilhões), o equivalente a cerca de 5,5% do PIB da Bolívia, segundo a Câmara Nacional das Indústrias. A Confederação Nacional dos Trabalhadores, a Confederação dos Agricultores de La Paz e o ex-presidente Evo Morales lideraram os protestos, que já duram semanas e exigem principalmente a renúncia de Paz. No entanto, algumas facções dentro desses grupos — como professores e operários — assinaram acordos trabalhistas com o governo. Cinco sindicatos regionais pediram a seus líderes nacionais que iniciassem negociações, e agora eles parecem mais dispostos a fazê-lo. Rolando Choque, secretário-geral da federação dos agricultores, afirmou que enviarão uma carta ao governo delineando as condições para o diálogo. Ele declarou que, caso essas condições não sejam atendidas em 24 horas, os bloqueios serão intensificados. Segundo Choque, a renúncia do presidente não está entre as condições estabelecidas. Na semana passada, Paz sancionou uma lei que amplia o poder do Estado para impor medidas de emergência a fim de conter os distúrbios. Seu governo também indicou estar próximo de finalizar um acordo de financiamento de US$ 3 bilhões (R$ 15,3 bilhões) com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Longe do fim Apesar dos sinais iniciais de alívio das tensões, ainda é cedo demais para dizer que a crise está perto do fim. No domingo, alguns líderes sindicais no centro de La Paz foram confrontados por cidadãos enfurecidos, que atiraram tomates neles e os acusaram de prejudicar a economia. O ex-presidente Morales, que ainda goza de amplo apoio no país, criticou aqueles que se mostram dispostos a negociar com o governo durante um discurso transmitido por uma rádio local. O impacto econômico provavelmente persistirá mesmo após o fim dos bloqueios, afirmou Gary Rodriguez, diretor do Instituto Boliviano de Comércio Exterior, durante uma transmissão on-line na segunda-feira. Quase dois meses de bloqueios interromperam gravemente o fluxo de suprimentos para La Paz, elevando o preço de produtos básicos cada vez mais escassos e causando filas quilométricas em postos de gasolina. Alguns motoristas esperaram até uma semana para abastecer. Algumas empresas fecharam e outras colocaram seus funcionários em licença compulsória. Rodríguez alertou que os efeitos econômicos dos bloqueios continuarão a ser sentidos por vários meses e poderão se estender até o final do ano, mesmo que os protestos terminem imediatamente. Ele explicou que muitas empresas operam com financiamento e que a perda de produção durante esse período as deixa com obrigações financeiras que terão de cumprir, apesar da queda na receita. O setor industrial de La Paz permanece otimista quanto a um rápido fim dos bloqueios, embora os numerosos fechamentos de estradas continuem a interromper as exportações e a distribuição interna. O presidente da Câmara de Indústrias de La Paz, José Eduardo Iriarte, afirmou que 70% das indústrias do departamento paralisaram suas atividades devido aos bloqueios. Iriarte expressou confiança de que o conflito será resolvido em breve, embora tenha insistido na necessidade de adotar medidas para evitar que situações semelhantes se repitam no futuro. O representante do setor afirmou que a atividade econômica não pode continuar dependendo de conflitos que paralisam o país e afetam empresas, trabalhadores e cidadãos. Escassez A escassez aguda de alimentos, medicamentos e combustível também persiste após mais de um mês de protestos. Em La Paz, moradores formaram longas filas de até três quarteirões em frente a um supermercado estatal, no início da venda de frango a preços baixos. Mas nos mercados privados da capital política e da vizinha El Alto, não parece haver qualquer efeito: as carnes e os vegetais ainda custam mais do que o dobro do preço normal. Um homem passa por uma placa com os dizeres "Frango não disponível" afixada na entrada de um supermercado estatal, em La Paz, em 16 de junho de 2026 — Foto: MARVIN RECINOS / AFP Os medicamentos também são escassos nos hospitais e, perto dos postos de gasolina, os motoristas dormem em seus veículos por dias à espera de sua vez. — Toda a população está sofrendo. E o governo não toma nenhuma decisão. Estão esperando que as pessoas se cansem, que fiquem entediadas e que todos os bloqueios terminem — disse à AFP Paola Herrera, uma operária de transportes de 50 anos. Ela está na fila há cinco horas para conseguir um frango. Só é dado um por pessoa. O governo anunciou que, a partir desta segunda-feira, remessas de frango chegarão diariamente por via aérea de Santa Cruz (leste) para La Paz (oeste), com a ajuda dos Estados Unidos, Chile e Argentina, aliados do governo Paz. Com AFP.