A presença de atividades artísticas no ambiente escolar está associada a melhores indicadores educacionais, de acordo com o estudo realizado pela Fundação Itaú, Ministério da Cultura (MinC), Ministério da Educação (MEC) e Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Entre 2019 e 2024, a proporção de escolas com materiais pedagógicos de artes ou música passou de 36% para 45,1%. Concomitantemente, o levantamento destaca ganhos de até 5% em matemática e português no período, além de menores taxas de distorção idade-série, reprovação e abandono. Observa-se ainda impactos positivos na aprendizagem em escolas mais próximas de equipamentos culturais, como “Pontos” e “Pontões” de Cultura. O relatório ressalva que não se trata de causalidade direta comprovada, mas de indícios consistentes que justificam aprofundamento. O estudo faz parte da coletânea “Intersetorialidades: Evidências em arte, cultura e educação”, lançada durante seminário de mesmo nome realizado nesta terça-feira (16), no Setor de Indústrias Gráficas Sul, em Brasília. As informações foram organizadas pela Fundação Itaú em acordo de cooperação técnica com o MinC, o MEC e o Inep firmado no final de 2024. Os volumes combinam análises estatísticas de dados educacionais e de cultura, diálogos com experiências internacionais de países membros da OCDE, mapeamento de experiências e estudos de caso em diferentes territórios brasileiros. Observando a distorção idade-série nos anos finais do ensino fundamental de escolas municipais e estaduais, nota-se que este indicador é sempre menor nas escolas que utilizam materiais pedagógicos de artes ou música nas atividades de ensino e aprendizagem. Esta diferença, em termos de pontos percentuais, é mais expressiva no agrupamento de escolas de nível socioeconômico mais baixo, chegando a uma queda de 2,58 pontos em 2023 (o que corresponde a uma diferença relativa de 10,50%). Em geral, escolas que utilizam materiais pedagógicos de artes ou de música apresentam também taxas ligeiramente mais baixas de reprovação e abandono. No entanto, o estudo ressalta que são diferenças muito sutis, alcançando no máximo uma redução de 1,19% na média da taxa de abandono, mas marcam uma tendência de efeito positivo. Tais resultados são especialmente relevantes nas escolas de nível socioeconômico mais baixo. Nestas unidades, a utilização de materiais de artes e de música apresenta efeito positivo tanto no fluxo escolar, quanto na aprendizagem. Ou seja, além da redução da Taxa de Distorção Idade-Série (TDI) nos anos finais do ensino fundamental, há um aumento estatisticamente significativo da proficiência em matemática e língua portuguesa, com desempenhos até 4,26% e 5,19% superiores, respectivamente, tanto no 5º quanto no 9º ano. Vale destacar que, no caso dos resultados voltados para aprendizagem, a ampliação é observada em escolas de todos os níveis socioeconômicos. Outro eixo da análise considera a proximidade entre escolas e “Pontos” e “Pontões” de Cultura. O cruzamento de 7.084 aparatos culturais com a localização das escolas sugere que a relação de proximidade entre eles e os resultados educacionais apresenta padrões que deverão ser mais aprofundados em etapas futuras de acompanhamento destas variáveis. Nos indicadores de fluxo escolar, os dados se mostraram inconclusivos, mas no que se refere à aprendizagem houve destaques expressivos. Quando considerado o recorte de escolas de nível socioeconômico mais alto, localizadas a até 2 km de equipamentos culturais, por exemplo, a diferença de proficiência pode chegar a 17 pontos na escala SAEB, em comparação às escolas mais distantes, do mesmo nível socioeconômico. A escala SAEB é uma régua estatística contínua, geralmente de 0 a 500 pontos, usada pelo Inep para medir o nível de proficiência em língua portuguesa e matemática dos estudantes brasileiros Apesar dos resultados expressivos relacionados à aprendizagem estarem concentrados majoritariamente nas escolas de nível socioeconômico mais alto próximas a equipamentos culturais, a pesquisa como um todo ressalta que em territórios de maior vulnerabilidade a integração de materiais artísticos mostra-se como uma estratégia promissora que pode contribuir para ampliação do direito cultural e para redução das desigualdades. Embora a arte seja componente obrigatório na educação básica, sua implementação ainda é muito desigual no país. No caso, o principal desafio apontado pelo levantamento são as limitações na infraestrutura escolar. Em 2024, enquanto 55,9% das escolas estaduais e municipais brasileiras possuíam bibliotecas ou salas de leitura, apenas 3,3% contavam com ateliês de artes. A presença de salas de música ou dança também permanece baixa, com 1,5% e 0,6% respectivamente. O estudo também aponta fragilidades na formação específica de professores para as diferentes linguagens artísticas (música, dança, teatro, artes visuais) e a necessidade de financiamento contínuo e plurianual, superando a lógica de editais esporádicos. Também são evidenciadas as desigualdades regionais. Em 2019, o Acre registrou apenas 6% das escolas com materiais relacionados a artes e cultura. Embora em 2024 esse percentual tenha subido para 9,4%, ele ainda está muito aquém do registrado em São Paulo no mesmo ano, onde 77,3% das escolas utilizam esses recursos, por exemplo. “Os resultados sugerem que as linguagens artísticas podem fortalecer o vínculo, o senso de pertencimento e o interesse dos estudantes, sobretudo em uma etapa escolar como a dos anos finais, que já carrega desafios próprios substanciais”, diz Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú, em comunicado. “Os dados ainda demonstram o potencial de tais práticas em contribuir para redução das desigualdades estruturais em territórios de maior vulnerabilidade”. A avaliação é corroborada por pais e alunos. Pesquisa Datafolha de 2024, encomendada pela Fundação Itaú e Todos Pela Educação, mostra que 95% dos pais avaliam que atividades culturais melhoram o desempenho escolar dos filhos. Além disso, mais de 80% dos pais apoiam a ampliação de atividades artísticas, esportivas e culturais. Na “Semana da Escuta das Adolescências”, realizada pelo MEC, em 2024, com 2,3 milhões de estudantes ouvidos, quase 30% consideram as atividades artísticas e culturais tão centrais quanto esporte e bem-estar.
Arte e música nas escolas estão associadas a melhor proficiência em matemática e português, aponta estudo
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