Ana, Uma pergunta curta, mas pertinente para os avós: devemos começar uma brincadeira com os nossos netos pequeninos, sabendo que se for um sucesso vamos ter de a repetir mil vezes? Fazer cucu, mil vezes; subir ao escorrega, mil vezes; regá-los com a mangueira, mil vezes; contar a mesma história, mil vezes.Tu que estudaste o desenvolvimento infantil explica-me porque é que crianças inteligentes, que aprendem à primeira, precisam de mais do mesmo? E, claro, agradeço o conselho de alguma suplemento para os avós — e sobretudo as costas dos avós! — sobreviverem.Querida Mãe,Sabe aquele prazer enorme que a mãe tem quando estamos a ver um filme e, de repente, consegue prever o que é que vai acontecer a seguir? E, depois, a satisfação de perceber que o que achávamos que ia acontecer, aconteceu mesmo? É o mesmo sentimento, mesmo quando não o admitimos, que surge quando comentamos com uma amiga “aqueles dois vão acabar juntos”, e depois acabam mesmo juntos! Essa capacidade de acertar nas nossas previsões provoca uma descarga de dopamina, que tem o sabor da recompensa.Para os bebés e crianças é a mesma coisa. Tudo é novo. Nada é correlacionado. E lentamente vão fazendo ações que produzem resultados. Quando as repetem e se dá o mesmo resultado vão aprendendo sobre as relações de causa e efeito que explicam o mundo. Ou seja, o nosso cérebro, tão inteligente, premeia-nos sempre que conseguimos repetir, o que nos leva a querer repetir mais e mais vezes — que é exatamente aquilo que nos permite tornarmo-nos exímios a fazer uma determinada coisa. Ao longo do tempo, o cérebro vai memorizando essa cadeia de eventos e associações e deixamos de ter de pensar nisso.A aprendizagem é sempre feita construindo sobre os “tijolos” daquilo que já se sabe, por isso é que os avós/pais/irmãos e a interação humana em geral é tão fundamental, porque se repetem as mesmas brincadeiras, mas depois vamos introduzindo pequenas subtilezas, pequenos avanços. Os pequeninos vão exigindo mais desafios e nós vamos, felizmente, correspondendo.Isto não é uma tarefa pedagógica, que se faz porque é assim que se estimulam as crianças, bla, bla, bla, isto é um mecanismo natural, mais uma das maravilhas incríveis do funcionamento do ser humano. Mas, querida mãe, se isto explica porque é que a criança quer tanto repetir, já não justifica porque é que nós, adultos, estamos tão disponíveis para, apesar de já não nos surpreendermos, continuarmos a repetir a brincadeira sem parar.Mas, se pensar bem, também recebemos uma recompensa gigantesca que só chega ao coração de quem criou um verdadeiro vínculo com aquela criança, que é observá-las no seu deleite. De ouvir as suas gargalhadas, de anteciparmos a sua surpresa, de lhes darmos prazer. E isso é possível porque os amamos! E isto só prova uma coisa: é o amor que conduz a aprendizagem. Seja em casa, seja na sala de aula. É esta dinâmica que leva o cérebro a corresponder da melhor forma possível, a memorizar, a interessar-se, a procurar mais. São precisos adultos que tenham uma relação genuína com as crianças, porque senão o processo quebra-se.Por isso, não precisamos de vitaminas para nos estimular, mas sim de muito descanso. Os avós têm de aprender a dizer que não, que não estão disponíveis, tanto à criança, como aos pais, e sem culpas! Não faz mal não querermos brincar 350 vezes, podemos brincar só 349, e a criança aprende com isso também.O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990