Este conteúdo faz parte da newsletter Meus Filhos, Minhas Regras?, que responde a perguntas de pais, mães e cuidadores todas as semanas. Inscreva-se gratuitamente para receber toda quarta-feira no seu e-mail. "Tenho um filho de 9 anos e ele diz que uma menina do colégio gosta dele, pediu para namorar e fica o tempo inteiro em cima. Expliquei que ele é muito novo para pensar nisso. Como falar sobre relacionamentos com a criança?" Na primeira vez que minha filha, de 7 anos, disse que gostava de um menino novo da escola, pensei: "Mas já?". Confesso que não imaginava ter que lidar com isso tão cedo. Depois, lembrei de que, aos 6 anos, contei para minha mãe que gostava de um menino da escola. Lembro até hoje o nome dele. Era meu melhor amigo e morava na minha rua. A gente via "Os Goonies" na Sessão da Tarde. Era a década de 1980 e não havia tanta problematização. Minha mãe achou bonitinho quando eu pedi para mudar de turma porque ele tinha ido para o turno da tarde. Não me recriminou, nem me censurou. O Carlos foi um dos meus grandes amigos da infância. Trocamos um beijo na adolescência. E foi só isso. Sei que criança não namora, minha filha também sabe. Mas está descobrindo outros tipos de afeto. E entendi que censurá-la ou dar um sermão poderia mais afastá-la do que qualquer outra coisa. Perguntei o que aquele menino da escola tinha de diferente dos outros. "Ele não gosta daquelas brincadeiras bobas de menino, mãe. A gente desenha junto". Quando recebemos a pergunta desta semana, fiquei muito curiosa e um pouco aflita. "Será que eu estava fazendo a coisa certa ou sendo muito permissiva?". Quando as respostas vieram, senti um alívio tão grande que até li para minha filha alguns trechos. Ela apenas riu e me abraçou. Palavra das especialistas 👩‍🏫👨‍🏫 Thais Basile - Psicanalista e escritora 🧒 Primeiro, seria bacana entender o que o seu filho, nessa idade, pensa que é namoro. Porque o adulto tem um olhar quase sempre sexualizado, enquanto a criança pode entender que namorar é dar as mãos e ficar juntos no recreio, por exemplo. Mas, mesmo que seja algo tão inocente como isso, é importante ir além. 💬 Depois de ouvir a criança, é fundamental falar de afetos, dizer que é normal que uma pessoa sinta mais afinidade e goste de brincar com quem a ouve, com quem dá risada com ela, com quem protege ela de amigos que possam ser chatos ou irritantes, por exemplo. E que o "estar em cima" pode apenas ser um sinal de que a menina gosta de estar com ele, e que isso significa que ele é um bom amigo para ela e que podem brincar juntos (se ele também gosta de estar com ela), mas que não significa necessariamente que estarão namorando. 🤝 É importante que ele saiba que é normal gostar mais de um amigo do que de outro, e que isso não torna a relação um namoro, porque namoro está reservado para quando o cérebro e o corpo se desenvolvem mais, ou seja, para a adolescência e para a idade adulta. É importante dizer que o carinho e o amor estão presentes em todas as relações humanas positivas, não apenas no namoro. 👧 Também pode ser importante contextualizar para o menino que as meninas são bombardeadas desde cedo com mensagens de que são mais frágeis e menos importantes que os meninos. 🎨 Situações do dia a dia dele podem ser usadas para exemplificar isso: quando os meninos não querem usar rosa, porque está associado a meninas, também quando os meninos não gostam de perder no jogo para as meninas, pela percepção enganosa e preconceituosa de que elas seriam mais frágeis e menos habilidosas. 🎬 E que, por se sentirem menos importantes, as meninas são incentivadas pelos filmes, novelas, contos de fada e muitas vezes até pela própria família a buscar serem escolhidas para namorar com um menino para, assim, se sentirem importantes e amadas. 🧠 Este contexto pode servir para que ele comece a perceber a dinâmica por trás das relações, para que ele perceba que a questão está além dele e dela. Também pode servir para ajudar a romper com preconceitos antigos que limitam as relações humanas, como aquela velha ideia de que meninos e meninas não podem ser amigos porque são de sexos opostos. 🌱 Os cuidadores podem ensinar, desde cedo, que essa convivência saudável é perfeitamente possível, mostrando que o respeito vale para qualquer pessoa, incentivando a amizade sem interesse romântico. Podem trazer numa conversa o exemplo de um gesto simples, como dar a vez na fila a uma colega, mostrando que é apenas uma demonstração de carinho e afeto, exatamente como as meninas ou meninos poderiam fazer entre si. 🗣️ A ideia não é proibir o namoro e nem falar de regras simplesmente, é trazer complexidade e aprofundamento para a conversa, explicar a diferença entre namoro e amizade, permitir afetos, contextualizar histórico de socialização dos sexos, e isso tudo é algo a que uma criança de 9 anos de idade já pode ser apresentada, com palavras que possa entender. ⚠️ Também são informações que podem abrir caminho para outras conversas importantes como violência de gênero, por exemplo. Incentivar, normalizar ou permitir um namoro, mesmo que na brincadeira, nessa idade, pode tomar a forma de uma adultização precoce e, em último caso, facilitar situações extremas, como o abuso infantil. Vale a pena primeiro ouvir a criança e entender o que 'namoro' significa para ela, sugere educadora — Foto: Freepik Claudia Alaminos - Educadora parental e autora do livro "Manual de sobrevivência para pais de adolescentes" (Edipro) 🧒 Quando uma criança, um menino de 9 anos, fala que pediu alguém para namorar ou que gosta da menina da escola, geralmente, ele não está falando do namoro no sentido que os adultos entendem. 🌱 Na maior parte das vezes é uma forma de experimentar. Eles estão descobrindo vínculos, diferentes tipos de afeto, pertencimento, admiração, o status que ter um namorado ou uma namorada pode representar entre eles. Então, isso faz muito mais parte de uma experimentação e descoberta de diferentes afetos do que querer namorar como os adultos costumam entender. 💬 Diante disso, encerrar a conversa apenas dizendo que ele é muito novo para namorar pode acabar bloqueando um diálogo importante. A criança pode entender que aquele assunto não deve ser compartilhado e deixar de trazer outras dúvidas, sentimentos ou experiências que esteja vivendo. Mais tarde, na adolescência, muitos pais se queixam de que os filhos não conversam ou não se abrem, mas a construção dessa confiança começa justamente nessas pequenas conversas da infância. 👂 Vale a pena aproveitar essa oportunidade para primeiro ouvir a criança, entender o que aquilo significa para ela. Perguntar: "O que você acha que é namorar?", "Como é esse namoro que você imagina?", "Como você se sente quando essa menina aparece?", "O que acontece?". 🤔 Normalmente, essas perguntas abertas, feitas com cuidado para não demonstrar espanto e não interromper a comunicação, revelam muito mais do que a gente pode imaginar. 🥪 Já atendi casos de crianças que queriam apenas tomar lanche juntas e consideravam isso um ato de namoro. 🤝 Nessa idade, o foco não precisa ser discutir o namoro, mas falar sobre diferentes relacionamentos. É um momento para conversar sobre amizade, respeito, gentileza e até sobre consentimento. ❤️ A criança pode aprender que gostar de alguém ou fazer um pedido de namoro não obriga a outra pessoa a corresponder esse sentimento, nem a aceitar o convite. 📚 Tudo isso ensina muitas coisas. Quando, ao contrário, os pais reagem com preocupação excessiva ou tentam encerrar o assunto rapidamente, o grande risco é transformar um tema natural do desenvolvimento infantil em algo cercado de vergonha e segredo. E isso pode, como já disse, bloquear um diálogo construtivo e importante. ✨ Em suma, mais importante do que dizer "você é muito novo para namorar" é compreender o que a criança está vivendo, o que está sentindo, e ensiná-la a construir relações saudáveis desde cedo. NO RADAR 👀 Filmes para crianças e pré-adolescentes entenderem melhor afetos ao longo da vida: "Meu primeiro amor": Vada, uma menina de 11 anos, e seu melhor amigo, Thomas, passam grande parte do filme juntos, compartilhando aventuras, confidências e descobertas típicas da pré-adolescência. Ao longo da história, Vada começa a experimentar os primeiros sentimentos românticos e a tentar entender o que é estar apaixonada."Extraordinário": A história acompanha Auggie, um menino com uma condição facial rara que entra pela primeira vez em uma escola regular. O filme mostra como ele e as pessoas ao seu redor aprendem a lidar com preconceitos, inseguranças e amizades."Divertida Mente": Riley, uma menina de 11 anos, enfrenta uma mudança de cidade e precisa lidar com emoções complexas como alegria, tristeza, medo, raiva e nojo. A história se passa principalmente dentro de sua mente, onde essas emoções tentam ajudá-la a se adaptar às transformações da pré-adolescência. "Red: crescer é uma fera": Mei, uma garota de 13 anos, começa a enfrentar as mudanças emocionais e sociais típicas da adolescência, como as primeiras paixões, a valorização das amizades e os conflitos com as expectativas da família. Quando emoções muito intensas a transformam em um panda vermelho gigante, ela precisa aprender a lidar com sua nova fase de vida.