“Qual é a melhor forma de ajudar a criança na escolha de seus próprios amigos, fazendo com que ela tenha a percepção correta, sem que nós, pais, sejamos 'superprotetores'? Tenho um filho de 12 anos” Pais e mães costumam acreditar que têm uma espécie de radar para identificar quem vai fazer "bem" ou "mal" aos nossos filhos. Muitas vezes, basta uma atitude de um colega para tirarmos muitas conclusões. Nossos pais faziam isso. Nós continuamos fazendo! Uma reflexão dos dois especialistas que ouvimos nesta semana, porém, me chamou atenção. Em vez de focarmos apenas nos amigos do filho para "protegê-lo", é muito importante olharmos também para nós mesmos. As referências que oferecemos em casa influenciam muito crianças e adolescentes na construção de suas escolhas e naquilo que aceitam (ou não) nas relações que constroem. Já tinha pensado nisso? Palavra dos especialistas 👩🏫👨🏫 Cláudio Thebas Escritor, educador pós-graduado em Pedagogia da Cooperação e palestrante no Rio Innovation Week 2026, que acontece de 4 a 7 de agosto 👀 Essa é uma das maiores preocupações de pais e mães: como ajudar nossos filhos a fazer boas escolhas nas amizades, especialmente quando chegam à pré-adolescência e começam, naturalmente, a escapar do nosso controle. 🤝 Na infância, as amizades costumam acontecer em ambientes sobre os quais temos maior influência. Isso nos dá uma sensação de segurança. Mas, conforme nossos filhos crescem, esse círculo se amplia. Eles passam a conhecer pessoas que nunca vimos, o mundo deles aumenta. E isso não só é esperado, como desejável. 🌍 É importante que a criança amplie suas relações para além do olhar dos pais. Isso permite que ela entre em contato com modos de vida diferentes e aprenda a conviver com a diversidade. É nesse encontro que ela desenvolve empatia, compaixão e uma compreensão mais ampla da sociedade. Tentar impedir esse movimento seria criar uma espécie de "gaiola condominial", na qual a criança aprenderia que só pode conviver com quem é parecido com ela. ❓ Isso posto, como ajudá-los a expandir as fronteiras do mundo e, ao mesmo tempo, fazer escolhas com segurança? ❤️ Creio que o caminho mais seguro começa antes do (im)possível controle das amizades dos nossos filhos. Esse caminho diz respeito a nós mesmos. A melhor referência que podemos oferecer é a forma como vivemos, dentro de casa, os valores que desejamos ver no mundo: respeito, afeto, cuidado, honestidade, responsabilidade e amor. 🌱 Quando esses valores são experimentados diariamente, passam a fazer parte da identidade da criança. Assim, quando ela encontra pessoas ou situações que confrontam esses princípios, tende a perceber esse contraste com muito mais clareza. 🛡️ É claro que, por falta de maturidade ou pelos naturais movimentos de contestação próprios da adolescência, nossos filhos podem se expor a alguns riscos. É justamente aí que entram nossa presença, nossa vigilância e nosso cuidado. 💡 Dicas breves: 🧭 Quando nossos filhos ampliam o próprio mundo e fazem amizades para além das nossas fronteiras de cuidado, pais e mães podem cometer um equívoco bastante comum: acreditar que os dados objetivos nos dizem mais sobre uma amizade do que aquilo que ela revela na convivência. 📍 É claro que saber o nome, a idade, o bairro ou até conhecer a família daquele amigo tem sua importância. Em grandes cidades, por exemplo, determinados contextos podem nos ajudar a orientá-los riscos concretos. Moro em São Paulo e, sempre que os filhos vão ao centro da cidade, lá vou eu e meu mantra: “Não falem ao celular na rua!” 🧠 Mas, quando a pergunta é se aquela amizade favorece ou não o desenvolvimento do nosso filho, essas informações dizem pouco. O que realmente importa conhecer são os hábitos, as opiniões, a maneira como essa pessoa trata os outros, como lida com os próprios conflitos, como reage às frustrações e quais valores revela nas pequenas atitudes. Esse conjunto oferece aos pais um retrato muito mais profundo do que um endereço ou um sobrenome. 🏡 Não há formula que dê certo sem que a gente faça de tudo para cultivar alguma proximidade. Inclusive quando tudo o que nossos filhos parecem desejar é distância. Aqui, é preciso que eles percebam que sempre há a possibilidade de uma proximidade. Talvez esse seja o maior desafio da parentalidade: equilibrar vigilância e confiança, cuidado e liberdade, limites e diálogo. 📱 Também é fundamental reconhecer que hoje o maior risco já não está, necessariamente, nos amigos de carne e osso. Ele está nos "amigos invisíveis" que chegam pelas telas. É ali que muitas vezes estão pessoas que desconhecemos completamente e que podem exercer uma influência muito maior do que imaginamos. 📉 Esses efeitos aparecem de maneiras diferentes: entre os meninos, observa-se um aumento da misoginia, do machismo, do consumo problemático de pornografia e da violência; entre as meninas, cresce o sofrimento provocado pelas comparações permanentes nas redes, a ansiedade e os episódios de automutilação. 🌳 Nosso objetivo é preservar a infância. Queremos devolver nossas crianças às brincadeiras, aos esportes, às refeições em família, às conversas sem pressa, às amizades presenciais e à convivência cotidiana. É nesse mundo que elas aprendem a confiar, a amar, a resolver conflitos, a respeitar as diferenças e a fazer boas escolhas. 💬 Eu cresci ouvindo a frase: "Não fale com estranhos". Naquela época, ela se referia às pessoas na rua. Hoje talvez precisemos atualizá-la: "Com quem você está conversando na internet? Quem são as pessoas que acompanham sua rotina, suas conversas e suas emoções pelas redes sociais?" 🫶 Por isso, acompanhar o uso do celular, estabelecer limites e saber com quem nossos filhos se relacionam no ambiente digital é exercer uma das responsabilidades mais importantes da maternidade e da paternidade: cuidar de quem ainda está aprendendo a reconhecer os riscos do mundo, inclusive daqueles que cabem na palma da mão. Mônica Donetto Guedes Psicanalista e orientadora parental, especialista em gestação e maternidade (@monicadonetto) 🤝 Aos 12 anos, as amizades se tornam um espaço fundamental para o desenvolvimento da identidade da criança. É nesse momento que os pais percebem com mais intensidade as escolhas sociais dos filhos, que podem parecer confusas ou até preocupantes. 🧩 No entanto, é importante lembrar que o "roteiro" dessas amizades não se escreve apenas na adolescência. Ele é construído ao longo de toda a infância, nas interações diárias e nas experiências vividas dentro de casa. 🛝 Para os pais de crianças pequenas, é essencial entender que a base das amizades se forma na convivência com a diferença. Quando uma criança insiste em brincar apenas do seu jeito ou os adultos intervêm a cada pequeno conflito, perde-se a oportunidade de ensinar que o outro também tem desejos e vontades. É no parquinho que ela aprende que o mundo não gira apenas em torno dela. 🌈 As famílias têm a oportunidade de ensinar a lidar com a diversidade nas interações sociais. Mesmo quando um colega se comporta de maneira egoísta ou não é um bom parceiro de brincadeira, é importante aprender a suportar essas frustrações. Assim, compreende-se que as relações nem sempre serão perfeitas e que, às vezes, será preciso buscar outras alternativas. 🔎 Quando uma amizade causa preocupação, o olhar deve se voltar para a dinâmica que a criança ou o adolescente estão ensaiando, em vez de focar apenas no amigo. O que eles levam para suas relações, seja aos 5 ou aos 12 anos, é uma bagagem emocional construída no cotidiano familiar. As amizades funcionam como um laboratório onde podem experimentar ser aquilo que são ou o que desejam ser. 🪞 A maneira como os pais lidam com suas próprias relações influencia diretamente a forma como os filhos se relacionam com os outros. A amizade pode se tornar um campo de repetição, em que a criança tenta resolver conflitos mal elaborados em sua própria história. Muitas vezes, porém, ela também se vê aprisionada ao modelo que conhece, reproduzindo padrões familiares sem os recursos psíquicos necessários para construir relações diferentes. 👥 Muitos pais se preocupam com a "tribo" ou o grupo social que o filho escolhe. É natural querer protegê-lo de influências que parecem questionáveis. No entanto, é fundamental refletir sobre o que o atrai para esse grupo. 🧭 A busca por identificação com uma tribo social muitas vezes faz parte da exploração da própria identidade. O adolescente pode estar em busca de pertencimento, aceitação ou características que sente lhe faltarem. Compreender essa dinâmica ajuda os pais a se aproximarem do filho, em vez de apenas afastá-lo do grupo. 🏫 A boa notícia é que esse roteiro não é fixo. A escola oferece um ambiente diferente, onde o filho pode deixar de ocupar o papel que tem em casa — seja o protegido, o que sempre manda ou o que sempre cede. O "não" de um colega pode funcionar como um ajuste de realidade. É nesse atrito que ele começa a se constituir como sujeito. 😔 É comum que quem vivencia o bullying sinta-se pressionado a entrar em um novo grupo social, mesmo que ele não reflita seus verdadeiros interesses ou valores. Muitas vezes, essa busca por pertencimento acaba reforçando a sensação de inadequação e aumentando a solidão. 🌱 O papel dos pais é atuar como mediadores no desenvolvimento da autonomia dos filhos. Ela se desenvolve quando a criança tem a oportunidade de fazer suas próprias escolhas e aprender com isso. Quando as famílias resolvem todas as dificuldades, mantêm o filho em uma posição passiva, em vez de ajudá-lo a se guiar por si mesmo. 💬 A pergunta pode ser: "Como você vai resolver essa questão?", em vez de simplesmente oferecer uma solução. Isso ajuda a desenvolver a capacidade de pensar criticamente. 🛡️ A superproteção, embora muitas vezes nasça do desejo genuíno de cuidar, pode funcionar como uma redoma. Ao evitar riscos nas relações — como discordar, ser rejeitado ou decepcionado —, impede-se o desenvolvimento da "casca" emocional necessária para a vida adulta. ❤️ Em última análise, o papel dos pais não é escolher os amigos, mas ser a base segura. É ser o porto para onde o filho pode voltar após as decepções e descobertas. Quando se confia na base de valores construída ao longo dos anos, as amizades se tornam um campo de aprendizado para a vida. Permitir que ele experimente, erre e aprenda é a forma mais profunda de protegê-lo, garantindo que não precise se anular para ser aceito nem se tornar agressivo para ser ouvido. O respeito e o diálogo sustentam a construção de relações saudáveis, agora e no futuro. Envie sua pergunta e nós vamos atrás de respostas
Como ajudar o filho a escolher bons amigos sem ser 'superprotetor'?
Especialistas explicam que tudo começa ainda antes de a criança ou o adolescente fazer suas amizades. Assine 'Meus filhos, minhas regras?' para receber este conteúdo por e-mail










