"Nossa, já estava ficando paranoico com esse barulho", comentou um casal que saía pela porta da exposição "Pele Azul", de Vivian Caccuri. Eles se referiam ao som de mosquito que acompanha o espectador pelo primeiro andar inteiro da mostra. "Sempre gostei de trabalhar com sons que têm uma problemática cultural", diz Caccuri.

A artista, que pesquisa mosquitos há mais de dez anos e já rodou o mundo com exposições sobre essas pequenas criaturas, agora está com uma individual no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo até 3 de agosto. A mostra é uma revisão dessa longa pesquisa e tem como protagonista o Sabethes albiprivus, um mosquito de pele azulada.

A obra que intrigou o casal é "Gatonet (Nuvem)", uma instalação sonora composta por 120 blocos de concreto, 60 caixas de som e uma quantidade barroca de fios de cobre arranjados de forma a simular uma selva de cipós. Se no nível visual a obra cria uma aproximação entre o sintético e o orgânico, no nível sonoro ela produz uma sinfonia magnética —ainda que infernal. "Os mosquitos estão na gama de sons odiados e essa certeza tão grande no ódio me interessa", diz Caccuri.

A artista atribui parte desse ódio à influência da religião. Se a Europa cristã nos ensinou a apreciar o canto dos pássaros, vendo-o como um som dotado de alma, também nos ensinou a desprezar o ruído dos mosquitos. "O mosquito é uma máquina. Sua asa bate produzindo um barulho mecânico, sem alma, quase alienígena", afirma Caccuri.