A previdência social sustenta a enorme maioria dos aposentados no Brasil. São 41,5 milhões de pessoas e uma despesa na ordem de R$ 78 bilhões, entre o regime geral, BPC e regimes específicos. Porém, à medida em que o número de beneficiados cresce e a base da pirâmide que sustenta o regime atual - os trabalhadores em idade economicamente ativa - cai, fruto do envelhecimento populacional, sobram dúvidas sobre o quanto os atuais contribuintes vão recolher em uma ou duas décadas. Enquanto formuladores de política pública discutem o que fazer, a previdência privada aparece como alternativa. Mas, até agora, a capitalização individual mingua. O setor encerrou 2025 com um dos piores resultados de captação líquida de sua história, de apenas R$ 4 bilhões (queda de 93,5% em relação a 2024). Por trás do resultado preocupante está, segundo representantes do setor ouvidos pelo Valor, a cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para aplicações superiores a R$ 300 mil nos planos VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre), que hoje representam 88% do mercado. Neste ano, o valor para incidência do imposto subiu para R$ 600 mil por CPF. Um dos problemas é que, enquanto alternativa individual, ela compete com outros veículos de investimentos, por vezes mais lucrativos. Para Tsai Chi-yun, a solução encontrada em outros países é distinta: os planos coletivos de previdência privada. Fundador da Stay, plataforma de distribuição de planos corporativos que foi chamada de "Gympass" da previdência, ele aposta na participação empresarial para dar um salto na forma como pensamos a aposentadoria. E vê um mercado endereçável bilionário à sua frente. Valor Investe: Dados do Censo de 2022 mostram que estamos atingindo o auge do bônus demográfico. Demógrafos indicam uma janela de apenas 10 a 15 anos até que a parcela da população brasileira em idade ativa comece a diminuir. Qual é o impacto disso sobre a previdência social? Tsai Chi-yu: Impacta imensamente. Às vezes, focamos nesses 15 anos e esquecemos que o processo é gradual. Conforme a população envelhece, a produtividade média também tende a oscilar antes de as pessoas saírem definitivamente do mercado. Historicamente, os economistas sabem que a principal oportunidade de uma nação enriquecer é durante esse bônus. Países como os Tigres Asiáticos e a China souberam aproveitar isso. Quando essa janela se fecha, a possibilidade de prosperidade cai drasticamente. O nosso papel hoje é ajudar o maior número possível de pessoas economicamente ativas a conquistarem independência financeira e dignidade, reduzindo a sobrecarga sobre o sistema público. Valor Investe: No modelo de previdência social atual, uma geração sustenta a anterior. Como esse envelhecimento populacional afeta esse sistema, que já é deficitário hoje, quando há o bônus? Tsai Chi-yu, diretor-executivo e fundador da Stay — Foto: Divulgação Tsai Chi-yu: Os economistas chamam o atual modelo de intergeracional. Se a base da pirâmide (quem trabalha) diminui e o topo (quem recebe) aumenta, a pressão torna-se insustentável. No Brasil, já lidamos com déficits estruturais bilionários. A solução adotada por países que já passaram por essa inversão da pirâmide é o modelo híbrido: o governo garante um patamar mínimo para evitar o custo social da pobreza extrema, enquanto o restante migra para regimes de capitalização. Nesse formato, cada pessoa guarda seu próprio patrimônio em instituições seguras. No entanto, fazer essa transição no Brasil exige um capital político que poucos governos conseguem reunir. Valor Investe: Segundo a Fenaprev, o número de participantes nos planos de caráter aberto é de cerca de 11 milhões, para uma população de mais de 200 milhões. Por que esse mercado não cresce, mesmo com a fragilidade do sistema público? Tsai Chi-yu: Ter apenas 5% ou 6% da população com previdência privada é um número alarmante. Nos EUA, esse índice chega a 70%; no Reino Unido, é quase universal. No Brasil, houve um desincentivo recente com o aumento da tributação sobre algumas modalidades, mas o problema principal é estrutural. A maioria dos brasileiros depende exclusivamente do sistema social porque a previdência corporativa ainda não decolou. A previdência corporativa democratiza o acesso: enquanto quem tem alta renda possui assessores financeiros, o trabalhador médio precisa que o seu empregador forneça uma solução simples e eficiente. Valor Investe: Você acredita que falta portas de acesso à previdência individual ou consciência sobre o problema? Tsai Chi-yu: Ambos, mas a experiência do usuário é uma barreira crucial. A indústria de previdência parou no século 20. É um setor cheio de papelada, formulários manuais e burocracia excessiva para portabilidade. Hoje, as pessoas usam o Pix em segundos; elas esperam essa mesma facilidade na previdência. Queremos que o trabalhador possa investir ou resgatar via WhatsApp, de forma intuitiva. Além disso, a previdência privada forte gera três benefícios sistêmicos para o país. O primeiro é a segurança familiar, porque suaviza as curvas de consumo ao longo da vida e reduz a ansiedade financeira das famílias. O segundo é a retenção de talentos, com ajuda as empresas a remunerar e valorizar quem produz. E, por último, desenvolvimento econômico. Cada 1% do PIB em previdência privada gera aproximadamente 2% de crescimento em investimentos no mercado de capitais a longo prazo. Valor Investe: Recentemente, uma pesquisa da própria Stay mostrou que a Geração Z demonstra mais interesse em previdência do que as anteriores. Como você explica esse comportamento? Tsai Chi-yu: Embora a Geração Z seja a que menos possui patrimônio hoje em comparação com as mesmas idades em décadas passadas, eles são os que mais buscam produtos financeiros por conta própria. É uma geração muito bem informada, que já percebeu que a previdência social não será suficiente para o futuro deles. Quando simplificamos o acesso, eles são os primeiros a aderir, mesmo sem incentivos diretos da empresa. Eles entenderam que disciplina e juros compostos são os únicos caminhos reais para a segurança futura. Valor Investe: Qual a sua visão dos próximos anos para o setor? Tsai Chi-yu: Precisamos modernizar a legislação e facilitar a portabilidade. Meu objetivo é que a Stay ajude a elevar a régua dessa indústria no Brasil e gere eficiência para o mercado e segurança para os brasileiros nas próximas décadas. Se olharmos para os Estados Unidos, cerca de 70% dos trabalhadores têm previdência privada. Precisamos conscientizar as empresas a participarem desse processo para que a previdência corporativa cresça. A maioria dos brasileiros não tem um assessor de investimentos ou um “private banker” à disposição. Por isso, a empresa se torna o canal essencial para democratizar esse acesso. Eu sou um otimista por natureza. Existe um "novo pacto previdenciário" que envolve o governo dar o mínimo e permitir que a capitalização cuide do restante. Mesmo que alguém não use a Stay daqui a 10 anos, se a experiência geral do mercado brasileiro tiver evoluído por causa dessa concorrência e modernização, teremos ajudado a destravar um novo ciclo de crescimento econômico para o país.
'Novo pacto da previdência' exige adesão das empresas à capitalização, diz fintech
Déficits da previdência social e queda da captação da previdência privada revelam problema grande demais para não ser visto









