Disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos registrou nos cinco primeiros meses do ano 17 mil violações 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Crianças e intolerância religiosa — Foto: Editoria de Arte RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 13/06/2026 - 16:35 Aumento da Intolerância Religiosa nas Escolas Brasileiras em 2023 A discriminação religiosa nas escolas brasileiras é crescente, com 1.110 denúncias de intolerância registradas pelo Disque 100 entre janeiro e maio de 2023. Crianças de religiões de matriz africana, como Umbanda e Candomblé, frequentemente escondem suas crenças por medo de perseguição. Pesquisas apontam que essas violações muitas vezes ocorrem dentro das escolas, com agressões verbais e exclusão. Especialistas defendem educação e preparo de professores para combater a intolerância religiosa e promover diversidade cultural. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O serviço Disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) registrou entre os meses de janeiro e maio deste ano 1.110 denúncias de intolerância religiosa — ao longo do ano passado foram 2.472 casos —, totalizando 1.503 violações. Se somadas a outros índices que envolvem ataques a igualdade e liberdade, como discriminação, racismo, racismo religioso, injúria racial e étnica, as denúncias chegam a 11.513 e resultam em 17.165 violações. As agressões atingem não só adultos. Levando-se em conta todas as denúncias de violações de direitos humanos no período (cerca de 316 mil), 52% foram praticadas contra menores entre zero e 16 anos. A escola é um dos principais locais para as violações, em especial os casos de intolerância religiosa. Pesquisa feita pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (Niej) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em colégios públicos aponta que, como forma de se protegerem, alunos fiéis de religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, passaram a não revelar sua crença — parte passou a afirmar ser ateu, enquanto outra se limita a dizer que é cristã. A pesquisa do Niej foi feita em unidades escolares da Zona Oeste do Rio de Janeiro, com ênfase nos bairros de Campo Grande e Santa Cruz, que registram o maior número de casos de intolerância religiosa na capital. No entanto, há registros de violações em todos as unidades da federação, como o caso de uma estudante de 13 anos ameaçada de ser queimada viva em uma escola pública de Várzea Grande, Região Metropolitana de Cuiabá, em Mato Grosso, por colegas de sala de aula sob pretexto de ser “bruxa” e “macumbeira”. O caso veio à tona após ser denunciado pelo Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público-MT. A estudante é fiel de matriz africana. ‘Apenas piadas e apelidos’ De acordo com o pesquisador da UFRJ e doutorando em História Social Samuel Barbosa Júnior, estudantes seguidores da Umbanda e do Candomblé são os principais alvos de casos de intolerância religiosa. As violações ocorrem em maior frequência entre alunos e partindo de professor para aluno. A agressão de aluno contra docente é menos comum. Pesquisador do tema desde 2022, Samuel Jr. relata casos como o de uma aluna umbandista que foi rejeitada em grupo de estudo. Os demais estudantes eram de denominações evangélicas neopentecostais e católicos. Além da exclusão de grupos e isolamento em sala de aula, os ataques mais comuns incluem xingamentos, apelidos pejorativos, agressões verbais e, em alguns casos, violência física. — Esse comportamento vai além da igreja, não acontece só porque o aluno segue uma denominação evangélica neopentecostal, por exemplo. Na escola, ao praticar a intolerância religiosa, ele está reproduzindo o que escuta em casa, o que vê nas ruas, o que os colegas falam durante as conversas. Vai além da doutrina religiosa — explica o pesquisador, ao sugerir mudanças que podem combater os ataques: — É preciso ter campanhas educativas e preparar os professores para identificarem e combaterem os casos de intolerância religiosa. O ensino religioso nas escolas precisa ser revisto, para que a religião do professor não seja a única a ser estudada na sala de aula. É preciso conhecer a realidade de outras. O pesquisador acrescenta que o estudo de campo revelou casos em que docentes responderam não haver intolerância religiosa nem racismo religioso nas unidades onde atuam, “apenas piadas, apelidos e brincadeiras”. A falta de conhecimento dos professores sobre violações acaba normalizando esse tipo de comportamento e o racismo. Em outro relato incluído na pesquisa do Niej, Samuel Jr. conta o caso de uma professora evangélica que convivia em sala de aula com um adolescente ateu. Ao longo do ano letivo, os dois conversavam ao final da aula sobre religião. Meses depois, o estudante contou que tinha se convertido e virado evangélico. O aluno citou que uma razão para ele deixar de ser ateu foi o namoro com uma estudante evangélica. Um dos questionamentos apresentados pela pesquisa sobre o caso mirou no conteúdo reservado das conversas entre a professora e o aluno, que pode eventualmente ter levado a uma conversão à religião da docente. Na última quarta-feira, gestores públicos e líderes de religiões de matriz africana participaram de uma audiência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O grupo denunciou casos de intolerância e racismo pelo país. Organizadora do debate, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) manifestou repúdio ao racismo: — Poderíamos ficar aqui horas e horas falando não só de lideranças religiosas que foram agredidas no exercício da sua espiritualidade, mas de terreiros que foram depredados, mães e pais de santos que foram agredidos fisicamente. Não é possível que o Brasil consiga conviver com esse tipo de realidade. ‘Extermínio do diferente’ O racismo religioso, a intolerância e a discriminação por etnia têm levado pesquisadores a buscar maneiras para combater violações contra menores. Integrante do Laboratório de Gestão Social do Patrimônio (Grupo Milonga - Universidade Federal da Bahia) e autora do livro “Omodé e Curumin - Infâncias indígenas e afro-brasileiras”, obra em que o racismo é um dos principais temas abordados, a professora antropóloga Rosiane Rodrigues alerta para o número crescente de agressões a grupos vulneráveis, formados por minorias. — Vivemos hoje uma realidade em que o racismo religioso e a violência contra minorias pregam o extermínio de quem não é igual a você. Isso é muito perigoso e perverso — alerta Rosiane, ao defender ações educativas com crianças como forma de estancar esse processo. O livro “Omodé e Curumin”, da Editora Moderna, é voltado para estudantes do primeiro ao sexto ano do Ensino Fundamental. A obra faz um alerta para as crianças sobre o risco de serem alvos de discriminação por gênero, etnia e cor e defende a valorização da diversidade cultural. No texto, são abordados temas da rotina de grupos vulneráveis, como descendentes de africanos, indígenas, quilombolas e povos originários. Ao longo de sete capítulos, a autora apresenta textos de incentivo à valorização da diversidade e etnias. Foram identificados por Rosiane 29 povos originários, que vão de apanhadoras de sempre-vivas a benzedeiras e curandeiras, muitos desconhecidos pela maioria da população. Na obra há espaço ainda para um glossário com palavras indígenas e africanas que fazem parte do dia a dia, mas que passam despercebidas, como Ipanema e Tiete. — É preciso que as crianças aprendam a ter orgulho de sua origem, a defender a diversidade. Para mudar esse quadro crescente de violência, é preciso começar um trabalho de conscientização das crianças, que acabam reproduzindo o que os adultos pregam — explica Rosiane, ao destacar que muitos menores alvos de racismo e discriminação se calam com medo de sofrerem mais violência: — A criança identifica quando é alvo de racismo, por exemplo. Ela mostra isso pelo olhar e se cala. Muitas não falam mais sobre religião por medo ou deixam de ter orgulho de sua origem. Livro infanto-juvenil Omodé e Curumim, de Rosiane Rodrigues — Foto: Divulgação A proposta de criação do livro surgiu após uma pesquisa feita por meio da Universidade Federal Fluminense (UFF), em que Rosiane estudou a perda de guarda de filhos por mães de terreiros, indígenas e ciganas. As justificativas, segundo ela, iam ao encontro da discriminação e do racismo. Mães ciganas e indígenas, apontou o estudo, eram alvos de conselhos tutelares e da Justiça, que não entendiam as tradições de povos originários e seus modos de educar as crianças. Já as mães de terreiro enfrentavam processos movidos por familiares que não concordavam com a religião. O livro buscou mostrar a diversidade desses grupos vulneráveis. Um dos casos citados no estudo foi o de uma mãe que perdeu a guarda da filha para uma das avós, por ter iniciado a menor em uma religião de matriz afro. Com manifestações mediúnicas, a criança ainda foi internada numa clínica para pacientes psiquiátricos.
Alvo crescente de discriminação religiosa nas escolas, crianças se calam como forma de proteção
Disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos registrou nos cinco primeiros meses do ano 17 mil violações







