Na quinta, entre os dois jogos que abriram o Mundial, recebi uma sequência de prints levemente indignados de um homem de 70 anos questionando a organização de um bolão da Copa do Mundo. O México tinha acabado de vencer a África do Sul na abertura do torneio. Era o primeiro dos 104 jogos da competição. Faltavam semanas para a fase de grupos terminar. Ainda assim, ali estava ele, profundamente incomodado com a classificação parcial. Não queria saber do gol de Julián Quiñones, da atuação mexicana ou da festa no Azteca. Queria entender por que ele aparecia em décimo lugar e não em nono, como merecia sua pontuação. O problema, aparentemente, estava nos critérios de desempate. O homem em questão é meu pai. O bolão, dos meus amigos de arquibancada. E eu, que não consegui arrumar tempo para preencher meus próprios palpites antes da abertura da Copa, sei que, quando uma pessoa passa a discutir critérios de desempate depois de um único jogo de Mundial, já não estamos mais falando de futebol. Estamos falando dessa invenção maravilhosa da sociabilidade nacional em tempos de Copa do Mundo: o bom e velho bolão, imagino, porque ninguém jamais levaria a sério uma atividade chamada "campeonato internacional de opiniões sem fundamento". A explicação real é mais brasileira: juntar um bolo de dinheiro e transformá-lo em disputa. Há quem diga que a Copa, ainda mais com 48 seleções, é a competição mais democrática do planeta. Não é. Ela custa caro, elimina seleções antes da estreia, estabelece cabeças de chave e organiza grupos. Democrático mesmo é o bolão. No bolão, o comentarista do Sportv e a tia que escolhe placares pela combinação das bandeiras começam rigorosamente empatados. O sujeito que acompanha eliminatórias asiáticas de madrugada larga lado a lado com quem descobriu naquela manhã que a Nova Zelândia joga futebol. O especialista, o supersticioso, o pessimista, o patriota, o que aposta sempre em 2 a 1 e o que escolhe resultados depois de consultar a própria intuição convivem sob as mesmas regras, unidos pela convicção absoluta de que são capazes de entender mais do assunto do que todos os outros participantes. Tenho para mim que boa parte da graça do bolão está aí. O futebol é um esporte construído para humilhar especialistas. Nenhuma modalidade dedica tanta energia a desmontar certezas. Um campeonato de xadrez costuma ser vencido pelos melhores enxadristas. Uma maratona costuma ser vencida pelos melhores corredores. Já a Copa do Mundo passa um mês produzindo argumentos para que alguém que não assistiu a um jogo sequer desde o último Mundial possa olhar para um jornalista esportivo e dizer: "Eu te falei!". E o pior é que, às vezes, falou mesmo. Existe uma transformação curiosa que acontece quando alguém preenche uma planilha de bolão. A pessoa deixa de torcer para seleções e passa a torcer para acontecimentos. Às vezes nem para acontecimentos inteiros. Para pedaços deles. Um gol aos 48 do segundo tempo. Uma expulsão improvável. Um empate específico. Um placar exato. A partir daquele momento, a Copa deixa de ser disputada apenas por jogadores e treinadores. Ela passa a ser disputada também por dezenas de milhares de cidadãos comuns espalhados por escritórios, grupos de WhatsApp, mesas de bar e reuniões de família. Em algum momento deste Mundial, um gol do Congo contra Portugal aos 47 minutos provocará tristeza em uma multidão na Península Ibérica, alegria em milhões de pessoas na África Central e uma explosão emocional completamente desproporcional em algum apartamento da Tijuca, porque um sujeito qualquer acabou de acertar o único 2 a 2 da rodada e agora se sente capaz de administrar a seleção brasileira. O bolão produz essas distorções deliciosas. Faz gente inteligente agir de maneira absolutamente irracional. Faz adultos passarem dias acompanhando a tabela de um grupo que não lhes diz respeito. Faz pessoas que jamais assistiriam a uma partida entre seleções distantes tratarem um empate entre elas como assunto de segurança nacional. Faz um jogo entre México e Coreia do Sul numa quinta-feira parecer tão importante quanto uma final. Nenhum regulamento da Fifa menciona o bolão. Ainda assim, ele é uma das tradições mais resistentes dos Mundiais por aqui. Quando eu era criança, ganhei um bolão na escola. Não lembro qual foi o prêmio. Tenho dúvidas até se existia prêmio. O que lembro perfeitamente é da sensação. Durante algumas semanas, caminhei pelos corredores com a convicção inabalável de que entendia mais de futebol do que todos os outros colegas. Não entendia. Era só uma criança que havia acertado alguns resultados. Mas aquela pequena sequência de acertos me deu algo que talvez explique metade da indústria do esporte: a ilusão de que prever o futuro é possível. Tenho uma suspeita de que minha carreira começou ali. Não porque eu entendesse de futebol, mas porque descobri cedo uma das grandes tentações do esporte: a fantasia de que é possível decifrá-lo. Você faz previsões sobre acontecimentos que ninguém controla, entrega essas previsões ao mundo e passa um mês esperando a realidade confirmar sua genialidade. E, quando ela não confirma, o que costuma ser mais frequente, você culpa um pênalti perdido, um gol anulado, um goleiro inspirado, um gramado ruim ou alguma conspiração estatística que só existe na sua cabeça. O mais curioso é que quase ninguém entra num bolão pelo dinheiro. Ou pelo menos não continua nele por causa do dinheiro. O prêmio verdadeiro é outro. É a honra. É o direito de lembrar aos amigos, durante os próximos quatro anos, que você acreditou numa seleção desacreditada, desconfiou de uma favorita ou cravou aquele resultado improvável. Ninguém recorda exatamente quanto recebeu no bolão da Copa passada. Mas todo mundo lembra quem terminou em último. Todo mundo lembra quem apostou numa campanha desastrosa que nunca aconteceu. Todo mundo lembra quem passou um mês inteiro liderando para despencar na última rodada. A Copa distribui taças. O bolão distribui histórias. Por isso gostei tanto daqueles prints ansiosos do meu pai. Porque eles chegaram depois de apenas um jogo. Um único jogo. Faltavam 103. Neste sábado mesmo tem Brasil e Marrocos, estreia da seleção, milhões de pessoas preparando camisas, reuniões, churrascos e promessas. Mas, para quem participa de um bolão, a Copa já começou. Começou no dia em que cada um decidiu quem seria campeão, quem decepcionaria, quem surpreenderia e quantos gols sairiam em partidas que ainda nem existiam. Agora, só resta ao Mundial simplesmente acontecer. A Copa oficial pertence à Fifa. E esta, talvez ao Trump. A outra, a que transforma um senhor de 70 anos em fiscal de critérios de desempate, um jornalista em torcedor de gols aleatórios e um grupo de amigos numa comissão técnica de especialistas improvisados, pertence a todos nós. Palpitar é preciso. Viver não é preciso. UM CONVITE AOS LEITORES DA 'QUE JOGO É ESSE' PS: Já que passamos as últimas linhas exaltando o bolão, talvez seja justo contar uma coisa: nós aqui no GLOBO resolvemos transformar essa obsessão nacional em um jogo. Lançamos o Palpiteiros, que é mais que um bolão: é um campeonato de palpites para acompanhar a Copa do Mundo. A ideia é simples: não basta acertar. É preciso acertar melhor do que os outros. Você pode palpitar sobre os jogos, o campeão, o artilheiro, as zebras, os destaques do torneio e uma série de outras perguntas que vão surgindo ao longo da Copa. Quanto mais improvável o palpite, mais pontos ele pode render. Todo dia tem pergunta nova, você pode criar sua própria liga e até sugerir perguntas. E, como toda boa competição de Copa precisa de uma mesa de bar, um grupo de amigos e uma dose saudável de rivalidade, criei uma liga para os leitores desta newsletter. Se você quiser jogar comigo — e, muito provavelmente, terminar à minha frente na classificação — basta entrar no Palpiteiros e usar o código: [2889FD8E] A Copa distribui taças. Os bolões e o Palpiteiros distribuem histórias. Vamos produzir algumas juntos.