Esta é a última edição especial de Que Jogo É Esse nesta Copa. A partir de agora, a newsletter volta a ser publicada nas sextas-feiras, mas não poderia encerrar a cobertura com um assunto pequeno. A final entre Espanha e Argentina deixou uma impressão difícil de afastar. Durante quase duas horas, uma seleção controlou a bola sem transformar o domínio em espetáculo, enquanto a outra chegou ao fim dos 90 minutos sem finalizar. O gol espanhol apareceu tarde, quase como uma reparação, mas não salvou a partida da pergunta que surgiu ainda no estádio: acabávamos de assistir a uma das piores finais da história das Copas? Antes mesmo de saber que final seria assim, assistimos a todas as decisões com imagens disponíveis, buscamos registros, relatos e textos sobre as mais antigas e submetemos as 23 a uma mesma régua. O resultado é esta lista, da pior para a melhor. Foram avaliados cinco aspectos. A qualidade do jogo considera o nível técnico, a intensidade, a organização e a quantidade de momentos realmente bem jogados. O equilíbrio técnico e competitivo mede a capacidade das duas seleções de interferirem na partida, e não apenas a proximidade do placar. A emoção e a dramaticidade incluem viradas, gols no fim, prorrogações, pênaltis, chances decisivas e mudanças de rumo. O protagonismo individual olha para as atuações que decidiram ou passaram a representar aquela final. Por fim, o legado e a força das imagens medem o que sobreviveu ao jogo: comemorações, traumas, controvérsias, personagens e cenas incorporadas à memória do futebol. Cada critério recebeu uma nota de um a cinco, num total possível de 25 pontos. Em 1950, quando a Copa terminou com um quadrangular, Brasil x Uruguai foi tratado como final porque as duas seleções entraram em campo disputando diretamente o título. Em caso de empate na pontuação geral, usamos, nesta ordem, os critérios de desempate: qualidade, emoção, legado, equilíbrio e protagonismo. AS CINCO PIORES 23º: Alemanha Ocidental 1 x 0 Argentina, 1990 — 11 pontos A decisão mais desagradável da história das Copas combinou pouco futebol, violência e uma Argentina dedicada quase exclusivamente a sobreviver. A Alemanha foi superior, mas precisou de um pênalti controverso, convertido por Andreas Brehme aos 40 minutos do segundo tempo, para impedir que a tortura avançasse pela prorrogação. Pedro Monzón e Gustavo Dezotti foram expulsos, Maradona terminou chorando e o primeiro 1 a 0 de uma final pareceu durar muito mais do que 90 minutos. Qualidade: ⭐Equilíbrio: ⭐⭐Emoção: ⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐ Final da Copa do Mundo de 1990 — Foto: CEZAR LOUREIRO 22º: Espanha 1 x 0 Argentina, 2026 — 12 pontos A Espanha teve a bola, o campo e o tempo, mas demorou a encontrar o gol que justificasse tamanha superioridade. A Argentina se tornou a primeira finalista a atravessar os 90 minutos sem uma finalização e nem sequer repetiu as reações tardias que a carregaram pelo mata-mata. O gol no fim premiou a campeã correta, mas deixou uma decisão com pouca alternância, raros lances memoráveis e grandes jogadores reduzidos a figuras laterais. Qualidade: ⭐⭐Equilíbrio: ⭐⭐Emoção: ⭐⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐ Espanha foi campeã da Copa do Mundo de 2026 — Foto: Elsa/Getty Images/AFP 21º: Alemanha 1 x 0 Argentina, 2014 — 13 pontos Alemanha e Argentina produziram uma final tensa, com oportunidades suficientes para que o placar não permanecesse vazio por tanto tempo, mas pouco futebol contínuo. Higuaín desperdiçou a chance mais clara dos argentinos, Messi também teve a sua, e Götze decidiu aos 113 minutos com um domínio e uma finalização dignos da ocasião. O gol tardio melhora a memória de uma partida que passou longos períodos presa ao medo de perder. Qualidade: ⭐⭐Equilíbrio: ⭐⭐⭐Emoção: ⭐⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐ Final da Copa do Mundo de 2014 — Foto: Guilherme Pinto /Extra/Agência O Globo 20º: França 4 x 2 Croácia, 2018 — 13 pontos Seis gols deveriam impedir qualquer final de aparecer tão perto do fim da lista. O problema é que o placar conta uma história mais agitada do que o jogo. A Croácia teve mais iniciativa, mas sofreu um gol contra, um pênalti marcado com auxílio do VAR e dois golpes franceses que praticamente encerraram a decisão. Mbappé, aos 19 anos, deixou sua assinatura, mas a chuva na premiação permanece mais nítida do que a maior parte do futebol. Qualidade: ⭐⭐⭐Equilíbrio: ⭐⭐Emoção: ⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐ Festa dos jogadores da França após a conquista do título na final da Copa de 2018 — Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP 19º: Espanha 1 x 0 Holanda, 2010 — 15 pontos A Espanha conquistou seu primeiro título numa partida mais áspera do que brilhante. A Holanda tentou interromper o jogo de passes espanhol com faltas, De Jong acertou o peito de Xabi Alonso e Robben perdeu diante de Casillas a chance que poderia ter mudado a história. Iniesta marcou aos 116 minutos e deu à final uma imagem eterna que o restante da noite raramente alcançou. Qualidade: ⭐⭐Equilíbrio: ⭐⭐⭐Emoção: ⭐⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐⭐ Iniesta comemora o título da Espanha na Copa de 2010: 'tiki taka' espanhol atraiu holofotes na África do Sul — Foto: Martin Bernetti/AFP INTERMEDIÁRIAS 18º: Itália 1 x 1 França, 2006 — 15 pontos Zidane marcou de cavadinha, Materazzi empatou e os dois se reencontraram da maneira mais improvável na prorrogação. A cabeçada do francês no peito do italiano transformou uma partida apenas razoável numa das finais mais reconhecíveis da história, antes da vitória italiana nos pênaltis. 17º: Brasil 3 x 1 Tchecoslováquia, 1962 — 15 pontos A Tchecoslováquia saiu na frente, mas Amarildo empatou dois minutos depois e o Brasil controlou a decisão no segundo tempo. Zito e Vavá completaram a virada que confirmou o bicampeonato mesmo sem Pelé, lesionado desde o início daquela Copa. 16º: França 3 x 0 Brasil, 1998 — 16 pontos A França produziu uma atuação segura e histórica, mas o colapso brasileiro eliminou cedo o equilíbrio da final. Os dois gols de Zidane e o mistério em torno da convulsão de Ronaldo deram àquela noite um peso que o jogo, isoladamente, não sustentaria. 15º: Brasil 0 x 0 Itália, 1994 — 17 pontos Foi a primeira final decidida nos pênaltis e também a única que terminou sem gols depois de 120 minutos. O calor, o cansaço e o medo limitaram o futebol, mas Taffarel, Romário e a cobrança de Baggio sobre o travessão produziram imagens que atravessaram gerações. 14º: Brasil 2 x 0 Alemanha, 2002 — 17 pontos Brasil e Alemanha fizeram uma final correta, equilibrada durante boa parte do tempo e decidida quando Oliver Kahn falhou pela primeira vez naquela Copa. Ronaldo marcou duas vezes e completou uma das maiores histórias de redenção do futebol, quatro anos depois do trauma de Paris. 13º: Itália 4 x 2 Hungria, 1938 — 19 pontos Itália e Hungria produziram seis gols, mas os italianos chegaram ao intervalo vencendo por 3 a 1 e administraram a vantagem. Silvio Piola e Gino Colaussi marcaram duas vezes cada, e Vittorio Pozzo tornou-se o único treinador bicampeão mundial. 12º: Itália 3 x 1 Alemanha Ocidental, 1982 — 20 pontos O primeiro tempo terminou sem gols e teve um pênalti desperdiçado por Cabrini, mas a Itália tomou conta da decisão depois do gol de Paolo Rossi. A corrida descontrolada de Marco Tardelli após marcar o segundo tornou-se maior do que a própria partida. 11º: Brasil 5 x 2 Suécia, 1958 — 20 pontos A Suécia abriu o placar, mas logo foi atropelada por um Brasil que parecia apresentar ao mundo uma maneira diferente de jogar. Garrincha criou, Vavá marcou duas vezes e Pelé, aos 17 anos, fez outros dois, chorou ao fim e começou ali a construir sua relação com a eternidade. 10º: Itália 2 x 1 Tchecoslováquia, 1934 — 21 pontos A Itália ficou a nove minutos de perder a Copa em casa, empatou com Raimundo Orsi e venceu na prorrogação com Angelo Schiavio. O roteiro é extraordinário, embora a falta de imagens completas e o uso político do Mundial por Benito Mussolini tornem essa final difícil de avaliar apenas pelo futebol. 9º: Argentina 3 x 1 Holanda, 1978 — 22 pontos Kempes abriu o placar, a Holanda empatou perto do fim e Rensenbrink acertou a trave no último lance do tempo normal. Na prorrogação, Kempes apareceu novamente e a chuva de papel picado no Monumental recebeu a primeira Argentina campeã mundial. 8º: Alemanha Ocidental 2 x 1 Holanda, 1974 — 22 pontos A Holanda marcou de pênalti antes que a Alemanha tocasse na bola, mas os anfitriões responderam com Breitner e Gerd Müller ainda no primeiro tempo. Cruyff perdeu a final, Beckenbauer levantou a taça e o futebol total entrou para a história sem conquistar o mundo. 7º: Uruguai 4 x 2 Argentina, 1930 — 22 pontos A primeira final da história já teve rivalidade, discussão sobre qual bola seria usada e uma virada. A Argentina venceu o primeiro tempo por 2 a 1, mas o Uruguai marcou três vezes depois do intervalo e inaugurou em casa a lista dos campeões mundiais. 6º: Brasil 4 x 1 Itália, 1970 — 22 pontos O placar sugere uma goleada simples, mas a Itália sustentou o empate até os 21 minutos do segundo tempo. O que veio depois foi uma demonstração: Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto marcaram, Pelé comandou e o Brasil ficou definitivamente com a Jules Rimet. AS CINCO MELHORES 5º: Inglaterra 4 x 2 Alemanha Ocidental, 1966 — 23 pontos A Alemanha marcou primeiro, a Inglaterra virou e sofreu o empate no último lance do tempo normal. Na prorrogação, Geoff Hurst produziu o gol que bateu no travessão, quicou perto da linha e continua discutido seis décadas depois. Marcaria ainda outra vez, completando o primeiro hat-trick de uma final. Futebol direto, drama máximo, uma controvérsia eterna e a única imagem da Inglaterra campeã mundial. Qualidade: ⭐⭐⭐Equilíbrio: ⭐⭐⭐⭐⭐Emoção: ⭐⭐⭐⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐⭐⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐⭐⭐ Final da Copa do Mundo de 1966 — Foto: CENTRAL PRESS / AFP 4º: Argentina 3 x 2 Alemanha Ocidental, 1986 — 23 pontos A Argentina abriu 2 a 0 e parecia ter encerrado a final, mas Rummenigge e Völler empataram em sete minutos. Quando a prorrogação se aproximava, Maradona encontrou um passe entre os alemães e colocou Burruchaga diante do goleiro para decidir aos 39 do segundo tempo. Foi a conclusão perfeita para a Copa de um jogador que pareceu controlar pessoalmente tudo o que acontecia no México. Qualidade: ⭐⭐⭐⭐Equilíbrio: ⭐⭐⭐⭐Emoção: ⭐⭐⭐⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐⭐⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐⭐⭐ Final da Copa do Mundo de 1986 — Foto: Hipólito Pereira / Agência O Globo 2º: Alemanha Ocidental 3 x 2 Hungria, 1954 — 24 pontos A Hungria não perdia havia quatro anos, tinha vencido a mesma Alemanha por 8 a 3 na primeira fase e marcou duas vezes antes dos oito minutos. Os alemães empataram aos 18 e sobreviveram à pressão de uma das melhores seleções da história até Helmut Rahn virar aos 39 do segundo tempo. Puskás ainda teve um gol anulado perto do fim. O Milagre de Berna reuniu zebra, reação, grandes jogadores e um significado que ultrapassou o futebol na Alemanha do pós-guerra. Qualidade: ⭐⭐⭐⭐Equilíbrio: ⭐⭐⭐⭐⭐Emoção: ⭐⭐⭐⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐⭐⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐⭐⭐ Final da Copa do Mundo de 1954 — Foto: Arquivo O Globo 2º: Uruguai 2 x 1 Brasil, 1950 — 24 pontos Quase 200 mil pessoas foram ao Maracanã esperando uma festa para a qual bastava um empate. Friaça marcou no começo do segundo tempo e pareceu entregar ao Brasil a taça que o país já tratava como sua. Schiaffino empatou, Ghiggia virou e Obdulio Varela comandou uma vitória que produziu silêncio, trauma e mitologia. Não foi oficialmente uma final, mas nenhuma outra decisão entrou tão profundamente na identidade de vencedores e derrotados. Qualidade: ⭐⭐⭐⭐Equilíbrio: ⭐⭐⭐⭐⭐Emoção: ⭐⭐⭐⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐⭐⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐⭐⭐ Final da Copa do Mundo de 1950 — Foto: O Globo 1º: Argentina 3 x 3 França, 2022 — 24 pontos Durante quase 80 minutos, a Argentina realizou uma final impecável e a França parecia não ter entrado em campo. Então Mbappé marcou duas vezes em 97 segundos e transformou uma cerimônia de coroação numa experiência fora de controle. Messi fez o terceiro argentino na prorrogação, Mbappé completou o primeiro hat-trick numa final desde 1966, e Dibu Martínez salvou com o pé a finalização de Kolo Muani no último minuto. Nos pênaltis, Messi conquistou o título que faltava. Nenhuma outra decisão reuniu tanto futebol, tantos craques, tantas mudanças de destino e tantas imagens eternas dentro da mesma noite. Qualidade: ⭐⭐⭐⭐⭐Equilíbrio: ⭐⭐⭐⭐Emoção: ⭐⭐⭐⭐⭐Protagonismo: ⭐⭐⭐⭐⭐Legado: ⭐⭐⭐⭐⭐ Argentina's captain and forward #10 Lionel Messi kisses the FIFA World Cup Trophy during the trophy ceremony after Argentina won the Qatar 2022 World Cup final football match between Argentina and France at Lusail Stadium in Lusail, north of Doha on December 18, 2022 — Foto: Kirill KUDRYAVTSEV/AFP
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Do Maracanazo à agonia de 2026, Que Jogo É Esse avaliou as 23 partidas que decidiram o título mundial para escolher a melhor e a pior de todas











