Ao falar sobre futebol, o importante não é tanto aquilo que a pessoa diz, mas a convicção. O que quer que diga, diga-o com absoluta segurança 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lumen Field, em Seattle, receberá jogos da Copa do Mundo 2026 — Foto: Divulgação/Fifa RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O texto apresenta um guia divertido para leigos sobreviverem ao período da Copa do Mundo. As táticas incluem evitar debates esportivos e aproveitar os espaços urbanos vazios. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Escrevo esta crônica na esperança de conseguir ajudar aqueles que, como eu, entram na Copa do Mundo com o sentimento de estarem cruzando a fronteira para um país ignoto. Estou falando de nós, os analfabetos da bola. O que se segue, portanto, é um breve manual de sobrevivência para todos os que não dominam a linguagem e os ritos do futebol. Primeira regra: decore quatro ou cinco frases para lançar nos momentos de maior desespero, no táxi, ou num jantar com colegas de trabalho, quando se espera que você faça algum comentário. Por exemplo: “Como sempre, o que nos faltou foi mais solidez defensiva!”; ou então: “o problema foi psicológico!”. O importante não é tanto aquilo que a pessoa diz, mas a convicção. O que quer que você diga, diga-o com absoluta segurança, olhando os outros nos olhos. No pior dos casos conseguirá confundi-los. Segunda regra: para além do Brasil torça sempre, como segunda opção, por uma seleção improvável. Por exemplo, Cabo Verde, que está pela primeira vez numa Copa do Mundo. Assim, deixará os futebólatras sem grandes argumentos, permitindo que você mude o foco da conversa passando a elogiar a democracia cabo-verdiana (merece os elogios), ou a beleza do arquipélago. Aliás — e esta é a terceira regra —, mudar o foco dos aspetos técnicos do desporto para o lado político e sociológico resulta sempre. Este ano há muito por onde escolher, começando pelos escândalos e trapalhadas da Fifa e do atual governo americano. Basta pensar no alto preço dos ingressos; no tratamento dado a algumas seleções africanas; ou na recusa de entrada em território norte-americano a torcedores, técnicos, e mesmo futebolistas. A atual Copa do Mundo tem tudo para ser a mais sombria e polêmica. Quarta regra: jamais tente compreender essa misteriosa figura das leis do futebol, que no Brasil se chama impedimento, e em Angola e Portugal, fora de jogo. O impedimento é a prova de que o universo possui zonas de sombra. Aceite-o como aceitamos os insanos paradoxos da física quântica, os discursos erráticos de Donald Trump, ou o mistério da Santíssima Trindade. Há coisas que não foram feitas para serem compreendidas. Quinta regra: aproveite para ir à praia ou ao cinema durante os jogos mais importantes. O culto pelo futebol tem o enorme mérito de esvaziar o mundo real. Algumas das memórias mais agradáveis que guardo das Copas do Mundo são de belas praias desertas em demoradas tardes de domingo. Sexta regra: nunca tente levar um futebólatra à praia durante um jogo importante. Seria tão inútil quanto tentar convencer o Papa a dançar frevo no carnaval de Olinda, e muito menos divertido. Limite-se a observá-los (aos futebólatras) com curiosidade científica. O fenômeno é fascinante. Pessoas perfeitamente equilibradas passam semanas inteiras a sofrer por causa de acontecimentos sobre os quais não exercem qualquer controle. Respire fundo. Daqui a algumas semanas a Copa terminará. Os futebólatras regressarão às suas personalidades rotineiras e nós, os analfabetos da bola, voltaremos a parecer, aos olhos deles, pessoas quase normais. Incapazes de compreender a metafísica do impedimento, sim, mas quase normais.