É sabido que o nível de ódio em comentários é sempre muito alto e que, portanto, eles devem ser lidos com parcimônia e consciência. Mas, às vezes, a curiosidade é mais forte que a inteligência e incorremos no erro. Eu incorri recentemente e fiquei ciente do incômodo de um leitor sobre alguns termos usados por mim para descrever vinhos.

Quando comecei a cobrir essa área no jornalismo, entendi que eu começava ali um trabalho de tradução. O vinho tem uma língua própria, criada por seus produtores, estudiosos e críticos, para que o efeito que ele tem nos nossos sentidos possa ser compartilhado —mesmo que esse efeito não seja exatamente comum a todos.

Há convenções para que se evite sensações únicas e individuais. Por exemplo, não é simples afetação chamar um vinho de "elegante". Pelo termo, sabemos que a bebida tem acidez alta, que é mais contida e pouco exuberante no nariz, que os taninos (se presentes) serão bem redondos, e que não haverá excessos nem no corpo nem em álcool.

Um vinho com muita acidez pode ser descrito como vertical ou ainda como crocante, uma tradução meio sem-vergonha do inglês "crispy" que pegou mais em Portugal, mas que também aparece por aqui.

Se você não conhece esse significado e lê que um vinho é elegante e vertical, realmente, pode achar que é balela. Mas, uma vez familiarizado com a linguagem, vai comprar com mais segurança do que vai encontrar na garrafa.