O problema apresenta várias frentes. Por um lado, a “glorificação dos suplementos”, que, segundo descreve a médica de família Ângela Mira, cresce em oposição à “desvalorização dos medicamentos”. Por outro, a criação de modas dietéticas, como o consumo desregrado de carne vermelha, que contrariam o consenso científico e promovem hábitos alimentares com riscos elevados para a saúde. E há ainda a eleição de bodes expiatórios com o intuito de “criar um pseudoproblema” para “oferecer uma pseudo-solução” – um exemplo recente desta prática é a vilanização do cortisol como estratagema para vender um suplemento alimentar.Ao longo dos últimos oito meses, o PÚBLICO, em parceria com uma equipa de cientistas na área da Nutrição, da Nova Medical School (NMS), tem investigado o ecossistema da informação não-credenciada sobre alimentação, bem-estar e exercício físico em Portugal, com enfoque em práticas enganadoras assentes na desinformação, na pseudociência e noutras formas capciosas de manipulação.O projecto Factness engloba este projecto de jornalismo de investigação, assente na ciência e atento aos influenciadores nas redes sociais, à indústria dos suplementos, à regulamentação sobre estas actividades e ao discurso dos profissionais de saúde e investigadores na área.Na recta final do projecto, o PÚBLICO e a NMS juntam alguns desses profissionais e investigadores para debater as conclusões e os desafios suscitados no decurso desta iniciativa financiada por uma bolsa da Journalism Science Alliance. No dia 17 de Junho, a Sala dos Actos da Nova Medical School, em Lisboa, acolhe a conferência Factness: O lugar dos factos na comunicação de saúde, nutrição e fitness.A desinformação e a regulação serão o mote para duas mesas-redondas. A primeira propõe-se abordar tanto as causas do “sucesso” da desinformação como as consequências que esta pode ter para a saúde. O painel inclui a médica de família Francisca Azevedo, o investigador em comunicação José Moreno (CIES-Iscte), as investigadoras em nutrição Gabriela Ribeiro e Cláudia Marques (NMS) e o jornalista João Pinhal (PÚBLICO).A segunda mesa-redonda, moderada pela editora de Ciência do PÚBLICO, Teresa Firmino, foca-se no papel que as autoridades podem ter na regulação e na fiscalização destas actividades. Participam no debate Elsa Madureira, presidente da Comissão de Ética da Ordem dos Nutricionistas, Luís Cunha Miranda, coordenador do Observatório do Ato Médico, da Ordem dos Médicos, Paula Garcia, subdirectora-geral de Alimentação e Veterinária, da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária, e o jornalista João Pinhal.A marcar o arranque das sessões, o bioquímico e comunicador de ciência David Marçal, autor da série “​Como perder amigos rapidamente”​ e uma voz activa no combate à pseudociência e à desinformação, apresenta uma palestra sobre desinformação em saúde.Serão ainda divulgados, pela investigadora Carina Martins (NMS), os dados de um estudo que auscultou os leitores do PÚBLICO, procurando perceber os seus hábitos de consumo de informação sobre alimentação, saúde e exercício físico.O encerramento do evento ficará na mão da professora catedrática Conceição Calhau (NMS), investigadora em nutrição e autora do livro Engolir sapos engorda (2026).A participação é gratuita, mediante inscrição nesta ligação.