Ângela Mira descreve uma situação peculiar, mas que não será isolada. Numa zona mais rural de Beja, a médica de família encontrou três mulheres com esclerose múltipla que abandonaram a medicina e recebem agora “tratamentos” com doses elevadas de vitamina D. “Não as consigo demover”, lamenta. “Preocupa-me.” O exemplo serve como aviso: os suplementos alimentares estão por todo o lado, promovidos muitas vezes como soluções milagrosas e, por isso, tornaram-se hoje um perigo para a saúde pública.
“Há uma utilização desmesurada de suplementos”, diagnostica Ângela Mira, da Unidade de Saúde Familiar (USF) Alfa Beja. Descreve o fenómeno como uma “glorificação dos suplementos” e uma predilecção “pelo que é natural” em contraponto com a crescente “desvalorização dos medicamentos”.O relato encontra semelhanças com os de outras quatro médicas de família que traçam a imagem dos utentes com que se cruzam em consultório: o consumo de suplementos alimentares é cada vez maior, sobretudo para emagrecimento, reforço muscular, menopausa ou cognição, e as redes sociais são a porta de entrada para muitas destas cápsulas ou gomas na vida da população. Os mais jovens e as mulheres acima dos 50 anos parecem mais interessadas, mas a toma destes produtos é transversal a todas as gerações.












