Ganhei de um amigo uma coletânea de textos curtos, relatos e crônicas de viagem de Walter Benjamin. "Autoportraits du Rêveur" (autorretratos do sonhador, ed. de L’Herne) é na verdade a reedição de uma tradução publicada na França em 2012, mas que, de lá para cá, em contraposição ao culto da autoimagem (expressão, controle e promoção da imagem de si alçada a crença e lugar-comum), só justifica ainda mais a ênfase no papel do sonhador.
O sonhador narra os véus e o equívoco. É o homem da imaginação e da errância, viajante e estrangeiro, o que sai de si, o que observa de fora, narrador do que não se vê.
Num dos sonhos do livro, o narrador só vê depois de ficar cego. É revelador da relação reflexiva que mantém com o mundo ao redor, a ser decifrado como código ou mistério, e no qual o autorretrato é só mais uma ilusão ou armadilha, porque o eu é sempre outro, está sempre em outro lugar, onde menos se espera.
O primeiro texto da coletânea chama-se "A Muralha". É um título sugestivo das trapaças da representação. O narrador conta sobre o verão que passou num vilarejo espanhol, um entre tantos outros com nome de santo, encarapitado no alto de uma falésia.
O calor o fazia adiar o projeto de caminhar até uma das colinas circundantes, com moinhos de vento abandonados (outra imagem sugestiva das ilusões), que ele avistava de sua janela. Enquanto isso, contentava-se em errar pela sombra de ruelas interiores e labirínticas. Num desses passeios, descobriu uma mercearia onde vendiam cartões-postais. E, entre eles, foi capturado pela foto de uma muralha de defesa típica dos burgos da região.









