O Irã trava uma campanha calculada para preservar o Líbano como seu último bastião de influência no Mediterrâneo, vinculando o destino do país a uma grande barganha com Washington enquanto busca encerrar a guerra do Hezbollah com Israel em seus próprios termos, e não nos de Beirute. Esse esforço colide com uma histórica frente de negociações patrocinada pelos Estados Unidos entre Líbano e Israel, destinada a encerrar décadas de conflito ao longo da fronteira entre os dois países e redefinir o equilíbrio de poder em uma nação há muito presa entre rivais regionais. Ainda assim, Beirute não recua. O presidente Joseph Aoun disse à Reuters na quarta-feira que “o futuro do Líbano está nas mãos dos libaneses, não do Irã — nem de Israel”, apresentando as negociações como uma disputa pela soberania do país. “A cooperação com o Irã é uma coisa, mas não aceitamos que os iranianos ditem o que devemos fazer”, disse Aoun. “Somos um Estado soberano. O Irã não pode falar em nosso nome. Não aceitamos que o Líbano se torne um campo para as guerras de outros.” “Estou determinado a seguir pela via diplomática”, acrescentou. “Não existe solução militar. Não temos escolha a não ser negociar para encerrar esse conflito, e os israelenses também não”, prosseguiu. De todo modo, o Líbano encontra-se em um impasse. O Hezbollah rejeitou publicamente negociações diretas com Israel, classificando-as como vergonhosas, mas Aoun afirmou que o grupo não apresentou ao governo um plano alternativo para encerrar a crise. Ele advertiu que, se o Hezbollah optar por permanecer em estado de guerra, prejudicará justamente a comunidade que afirma defender, prolongando um conflito que começou em 2 de março, paralelamente à guerra envolvendo o Irã, e que vem pressionando as delicadas divisões sectárias e políticas do Líbano. Enquanto isso, Teerã transformou um cessar-fogo no Líbano em condição para qualquer acordo mais amplo com Washington, o que lhe dá influência sobre um processo do qual está formalmente excluído. Líbano é o “marco zero” do Irã O Líbano tornou-se ainda mais importante para o Irã após a deposição do presidente sírio Bashar al-Assad, um dos principais pilares do chamado “Eixo da Resistência” de Teerã, no fim de 2024. “O Líbano é o marco zero da narrativa de resistência do Irã”, afirmou Andreas Krieg, da Escola de Estudos de Segurança do King's College London, descrevendo o país como a principal linha de frente de Teerã contra Israel e uma base para operações em todo o Levante. O ataque iraniano desta semana contra Israel, em retaliação a uma ofensiva nos subúrbios ao sul de Beirute, evidenciou essa postura ao sinalizar a disposição de Teerã de impor suas linhas vermelhas, especialmente no Líbano, disse Krieg. Foi a primeira vez que o Irã interveio diretamente em uma guerra entre Hezbollah e Israel. Uma autoridade iraniana afirmou que essas linhas vermelhas incluem qualquer tentativa de enfraquecer o Hezbollah, normalizar ataques contra o Líbano ou atingir áreas xiitas. A mensagem foi transmitida a Washington e Tel Aviv, disse a autoridade, acompanhada do alerta de que a continuidade das hostilidades poderia comprometer os esforços por um cessar-fogo e provocar consequências regionais mais amplas, incluindo ameaças a rotas marítimas estratégicas. Uma fonte libanesa familiarizada com as negociações mediadas pelos EUA afirmou que Teerã ficou irritado com a decisão de Beirute de negociar de forma independente com Israel, por considerar que isso retirava do Irã uma importante moeda de troca em seu confronto com Washington. Fumaça sobe do sul do Líbano após um ataque israelense, vista de Marjayoun, Líbano , em 12 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Stringer Negociações tortuosas em Washington Enquanto isso, as negociações em Washington produziram poucos avanços visíveis. No centro das conversas está uma divisão profunda. O Líbano exige um cessar-fogo duradouro como base para negociações que levem à retirada completa de Israel e ao retorno de centenas de milhares de deslocados sob supervisão do Exército libanês. Israel quer que o Hezbollah seja desmantelado como força militar, ao menos no sul do Líbano, e exige provas de sua retirada antes de abandonar os territórios ocupados. Dois funcionários libaneses, falando sob condição de anonimato, descreveram as negociações com Israel como tortuosas. Após cinco horas de reunião na semana passada, os negociadores libaneses concluíram que Israel não estava disposto a fazer concessões. O principal negociador, Simon Karam, informou aos mediadores americanos que as conversas deveriam ser suspensas e deixou a sala. A reunião só foi retomada após intervenção direta do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e do vice-presidente J.D. Vance. Isso resultou, segundo os funcionários libaneses, em uma “proposta de última hora, do tipo pegar ou largar”, com poucos detalhes. Ela previa um cessar-fogo condicionado à interrupção das hostilidades pelo Hezbollah e à sua retirada do sul do Líbano como primeira etapa. Assim como um anúncio anterior de cessar-fogo feito em abril, a proposta não fazia referência explícita à retirada das tropas israelenses. Rubio acusou o Irã neste mês de tentar sabotar as negociações. Para as próximas rodadas de conversas, previstas para este mês, Beirute propõe trilhas paralelas: retirada israelense e expansão gradual da autoridade do Estado libanês. Autoridades do país afirmam que ambos os processos precisam avançar simultaneamente. Um cessar-fogo acionaria um prazo de 24 horas para que o Hezbollah começasse sua retirada, permitindo a criação de “zonas-piloto”, inicialmente na região do Castelo de Beaufort, disseram as autoridades. Área por área, as tropas israelenses se retirariam, forças libanesas assumiriam o controle e civis deslocados começariam a retornar, com apoio de iniciativas internacionais de reconstrução. O Hezbollah rejeitou rapidamente o plano, classificando-o publicamente como uma rendição às condições impostas por Israel. Hezbollah não deve cooperar enquanto a guerra continuar, diz fonte Uma fonte libanesa familiarizada com a posição do Hezbollah afirmou que a via de negociação conduzida em Washington não levará a lugar algum, colocando frente a frente um Israel que se recusa a interromper sua ofensiva e uma delegação libanesa que não tem autoridade sobre o grupo. As verdadeiras negociações, disse a fonte, só começarão quando surgir um cessar-fogo decorrente de um acordo entre Estados Unidos e Irã. Nesse momento, o Líbano pressionará pela retirada israelense, enquanto Israel buscará garantias de segurança relacionadas às armas do Hezbollah — questão que a liderança do grupo não está disposta a enfrentar enquanto a guerra prosseguir. Segundo os dois funcionários libaneses, a posição de Beirute é fortalecida pelo crescente apoio de países ocidentais e árabes, além de um raro consenso doméstico, fora da comunidade xiita, em favor de uma estratégia nacional independente da tutela iraniana. O governo agora tenta navegar entre a insistência de Israel em desmantelar o Hezbollah e a determinação do Irã em preservá-lo como instrumento de influência regional. A continuidade do impasse ameaça consolidar uma nova realidade no sul do Líbano, potencialmente impedindo o retorno de grandes parcelas da população xiita deslocada. Membros do Hezbollah desfilam durante uma manifestação em comemoração ao Dia de Al-Quds (Dia de Jerusalém) nos subúrbios do sul de Beirute, Líbano, em 5 de abril de 2024 — Foto: REUTERS/Mohamed Azakir