PUBLICIDADE Cidade tinha reputação de uma das populações mais ávidas por leitura na região árabe e vendendores associam a baixa venda à redes sociais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Iraquianos fazem compras no famoso mercado de livros da Rua Mutanabbi, em Bagdá, em 1º de julho de 2022 — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A transição para a leitura digital reduziu drasticamente o movimento na histórica Rua Mutanabbi. Antigos livreiros relatam vender apenas uma fração do que comercializavam no passado. Mesmo após sobreviver a décadas de conflitos e a um atentado em 2007, o tradicional polo literário iraquiano enfrenta sua crise mais silenciosa com a internet. Para tentar sobreviver, novos comerciantes usam redes sociais e autores distribuem obras de graça. Contudo, os lucros continuam escassos e o desinteresse do público persiste. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Durante séculos, a Rua Mutanabbi, em Bagdá, no Iraque, foi um ponto de referência para os amantes de livros, ostentando títulos de todos os cantos do mundo, a ponto de dar origem ao ditado árabe: “O Cairo escreve, Beirute publica, Bagdá lê”. Mas, numa tranquila manhã deste mês, os vestígios dessa rica história pareciam estar desaparecendo, e livreiros como Hussein Ali lamentavam a queda nas vendas, à medida que os leitores optavam cada vez mais por cópias digitais. —Há 35 anos, eu vendia mais de 50 exemplares num dia como este. Hoje em dia, mal consigo vender cinco—disse o livreiro à AFP. Apesar da longa reputação de Bagdá como uma das populações mais ávidas por leitura na região árabe, havia poucos indícios de que essa tradição ainda persistisse. A rua, que leva o nome do famoso poeta do século X Abu al-Tayeb al-Mutanabbi, está repleta de barracas com prateleiras intermináveis de livros em árabe e inglês. Mas as placas anunciando que alguns volumes — muitos dos quais já estavam cobertos por uma camada de poeira — custavam menos de um dólar pouco contribuíram para atrair mais clientes. Exemplares raros Além das fileiras de prateleiras com livros sobre astrologia, psicologia e ioga, jaziam tesouros escondidos, incluindo coleções raras indisponíveis em qualquer outro lugar do mundo. Um desses volumes, disse Ali, era “O Grande Tesouro”, um texto religioso reverenciado por uma antiga minoria religiosa espalhada principalmente pelo Iraque e pelo Irã. Um iraquiano vende livros em sua loja na Rua Mutanabbi, em Bagdá, em 30 de setembro de 2025 — Foto: AFP O homem, na casa dos 70 anos, descreveu sentir tristeza por trabalhar duro e não receber nada em troca, relatando que continuava no ofício porque havia se acostumado com isso e por conta dos velhos amigos que o visitam em Mutanabbi. O livreiro associa a morte da criatividade em parte à disseminação das redes sociais. Acredita-se que as primeiras formas de texto escrito tenham surgido há mais de cinco mil anos na Mesopotâmia, na antiga cidade de Uruk, atualmente conhecida como Al-Warkah, no sul do Iraque. Issa Adnan, um engenheiro de computação, conta que acha mais fácil e rápido encontrar livros on-line do que ir à Rua Mutanabbi. Ele acrescentou que já não tem tanto interesse em ler romances e filosofia como antes porque passou a idolatrar a velocidade e a eficiência. Atentado suicida Um iraquiano confere um livro na emblemática Rua Mutanabbi, em Bagdá, em 11 de dezembro de 2020 — Foto: AFP Ao longo das décadas de guerra e violência que assolaram o Iraque desde os anos 1980, a Rua Mutanabbi permaneceu, em grande parte, um farol repleto de vida e letras, até que um atentado suicida em 2007 matou 30 pessoas e destruiu muitas lojas e barracas. A via até recebeu uma grande reforma há poucos anos. Mas, assim como outros livreiros, Abdullah Abdulazim ainda aponta para um “grande declínio” no número de leitores e visitantes. O vendedor recorreu às redes sociais para promover sua livraria, mas ainda reclama que os lucros são escassos ou, outras vezes, inexistentes. —Uma casa sem biblioteca carece de imaginação e inovação—disse. O autor Hakim al-Shammari afirmou que começou a distribuir seu livro mais recente gratuitamente para ministérios e instituições devido ao declínio do interesse pela leitura. Num café frequentado por intelectuais de todo o Iraque, Ismail al-Bayati afirmou que “Atualmente não há procura por livros em Mutanabbi apesar dos seus preços baixos”. Bayati, que agora está na casa dos 70 anos, conta ter lido mais de 500 livros ao longo da vida e diz que, mesmo assim, tenta comprar qualquer livro apenas pelo título, para alimentar sua paixão de longa data pela leitura e apoiar os livreiros. —O mundo está em um estado comparável ao de um viciado em drogas se ele perder o acesso às drogas... se não tivermos internet, é como se fôssemos morrer.
'Pra lá de Bagdá': livreiros tradicionais da capital do Iraque lamentam o declínio da leitura e queda nas vendas
Cidade tinha reputação de uma das populações mais ávidas por leitura na região árabe e vendendores associam a baixa venda à redes sociais






