Imigrantes em situação irregular temem ações do ICE durante o torneio; especialistas avaliam que governo Trump tentará equilibrar imagem internacional do país e sua agenda 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Trabalhadores fazem ato perto do SoFi Stadium, na Califórnia, por melhores condições — Foto: JUSTIN SULLIVAN / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 10/06/2026 - 16:45 Brasileiros Ilegais nos EUA Temem Deportações Próxima à Copa 2026 Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, sediada nos EUA, imigrantes brasileiros ilegais relatam medo de deportações, temendo ações do ICE, especialmente com o endurecimento das políticas migratórias sob Donald Trump. O aumento de 60% nas deportações entre 2024 e 2025 acentua o receio. Especialistas acreditam que Trump buscará equilibrar a imagem internacional com sua agenda interna. O evento, com 48 seleções, pode ser palco de protestos contra as políticas migratórias, impactando a imagem dos EUA. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Marcos Paulo Almeida vive há três anos em Las Vegas e costuma acompanhar futebol sempre que pode. Mas, na Copa do Mundo de 2026, sediada por Estados Unidos, Canadá e México, o brasileiro acredita que muitos imigrantes latinos em situação irregular, como ele, vão evitar estádios e eventos ligados á maior competição de futebol do planeta pelo receio com o endurecimento da política migratória do presidente Donald Trump e a atuação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês). — Acredito que os latinos não vão [participar] com tanto afinco da Copa do Mundo, pelo menos os irregulares — afirma Marcos Paulo. — Não é que o ICE vá de fato prender alguém nos estádios, mas pode usá-los como exemplo. E são os latinos os que mais consomem futebol nos Estados Unidos. O número de imigrantes deportados pelo ICE aumentou mais de 60% entre 2024 e 2025. Só no ano passado, primeiro ano do atual mandato de Trump, foram 443 mil deportações, de acordo com dados do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS, na sigla em inglês) publicados em fevereiro. Os rumores sobre uma ação mais incisiva da agência durante a Copa ganharam força depois de o diretor interino da agência, Todd Lyons, afirmar, em fevereiro, que o ICE será “peça-chave” na segurança do evento. Em um depoimento à comissão de Segurança Interna da Câmara dos Deputados dos EUA, Lyons disse que a agência estava comprometida em garantir segurança para participantes e visitantes durante o torneio. Ao GLOBO, José (nome alterado por questões de segurança) disse que, “para viver igual a um americano, você deve se tornar americano, ou seja, tem que ter documentos”. Ele chegou ao país em 2019 em busca do sonho de morar nos EUA e está até hoje no país de forma irregular. Trabalhador do ramo da construção civil, afirma não ter medo das abordagens de agentes onde mora, porém, diz que, se for para Los Angeles, local que receberá oito jogos do campeonato, terá receio de ser abordado. — Quem está aqui irregularmente não vai procurar assistir aos jogos da Copa — comentou. Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que a estratégia do republicano deve, por um lado, considerar a manutenção da imagem democrática do país no exterior, já deteriorada, e, por outro, calibrar o apoio interno, especialmente o da sua base, em relação às deportações. Pela primeira vez realizada em três países, a Copa do Mundo deste ano estabeleceu o recorde histórico de 48 seleções participantes, o que deve ampliar o impacto do evento pelo mundo. Jhonattan Mattos, doutorando em Relações Internacionais pela Uerj, não descarta “a presença de protestos massivos nos locais” de competição para “criticar ameaças e políticas migratórias”. Segundo ele, o evento será importante “tanto para a questão migratória quanto para a imagem dos Estados Unidos”. — Por mais que Donald Trump tenha questões quanto à imigração, também quer que o país volte a ser visto pelo mundo como acolhedor — pontua Mattos: — Acredito que, durante a Copa, a ação do ICE será mais contida. Pode ser que, depois do evento, tudo volte a ser como era antes. Uma pesquisa de opinião divulgada pela Reuters em parceria com o instituto Ipsos, publicada nesta semana, apontou que apenas 35% dos americanos aprovam o trabalho de Trump como presidente dos Estados Unidos, próxima da mínima histórica. Uma atuação do ICE de caráter arbitrário neste momento seria um erro estratégico, acredita Mattos: — De forma contraintuitiva, acredito que o ICE vai ter um papel mais discreto durante a Copa do Mundo do que vem tendo durante o dia a dia da política interna americana. Internamente, ele não é bem visto por todos os americanos. Protestos simultâneos Em janeiro, mais de 300 cidades registraram protestos simultâneos exigindo o fim da repressão e a retirada dos agentes federais de imigração das comunidades latinas. O movimento “ICE Out” foi impulsionado quando, no início do ano, dois cidadãos americanos, Renee Good e Alex Pretti, foram mortos por agentes. Mas outro levantamento da Reuters/Ipsos, publicado em fevereiro, indicou que 92% dos republicanos aprovam a deportação de imigrantes sem documentação legal. O percentual cai para 32% entre os democratas. Em entrevista ao GLOBO, Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca que uma atuação menos ostensiva, por outro lado, vai na contramão do modo como o presidente americano se coloca a seus apoiadores: — Para o Trump, o papel do ICE é fundamental porque ele se elegeu com a bandeira de combate à imigração irregular. Usava isso na campanha para bater muito fortemente em sua adversária, Kamala Harris. Vimos deportações em massa em seu primeiro ano de mandato. Esse eleitorado votou nele justamente apoiando esse reforço do controle imigratório. Lei para 'salvar a Copa' Uma deputada federal dos EUA chegou a apresentar, em março, um projeto de lei para “salvar a Copa do Mundo”. A proposta da democrata Nellie Pou estabelecia que nenhum fundo federal disponibilizado ao Departamento de Segurança Interna ou ao Departamento de Justiça poderia ser utilizado para realizar “qualquer atividade de fiscalização de imigração a menos de 1,6 km de qualquer partida ou Fan Fest da Copa do Mundo. A ONG Human Rights Watch (HRW), uma das maiores organizações de direitos humanos do mundo, pediu uma “trégua do ICE” durante as competições. A entidade alertou para os riscos de um evento marcado por “exclusão e medo” e acusou a Fifa de ter dado uma “resposta tímida” ao não utilizar “sua influência” junto a Washington. Gianni Infantino, presidente da Fifa e único dirigente esportivo presente na posse de Trump, não esconde a proximidade pessoal com o presidente americano. Em dezembro do ano passado, Infantino concedeu ao republicano o "Prêmio Fifa da Paz", cujos critérios nunca foram esclarecidos. A pressão da Fifa para uma “trégua” aos imigrantes seria mais eficaz para suavizar a atuação do ICE do que a de uma ONG, explica Mattos. — A HRW não vai ser levada tanto em consideração, porque uma das críticas da extrema direita contra o globalismo é exatamente sobre como essas organizações fazem política — diz: — Vejo isso [um freio] como uma forma não só de evitar tensões diplomáticas, mas também de resguardar uma certa imagem americana, inclusive em relação à democracia. Embora o papel do ICE não esteja claro, Velasco avalia que não haverá limitação das atividades durante o torneio uma vez que a agência é vinculada ao DHS. Por este motivo, segundo o especialista, uma possível atuação da agência deve considerar o caráter “investigativo sobre organizações criminosas, transnacionais, contrabando e exploração de pessoas”. Marcos, que trabalha como churrasqueiro em uma rede de restaurantes nos Estados Unidos, diz que Trump “perdeu a mão na questão da imigração” e defende a presença de imigrantes “regulares e irregulares” no país: — A gente carrega os Estados Unidos nas costas. Trump é mais um que vai passar e a vida vai seguir. (*Estagiário sob supervisão de Marina Gonçalves)