O mercado de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS, na sigla em inglês) vive a expectativa de ganhar escala com a realização do primeiro leilão de baterias do país, previsto para dezembro. O certame — cujas regras foram publicadas pelo Ministério de Minas e Energia na semana passada — já vem mobilizando empresas do setor e estimulando novos negócios, incluindo a construção de fábricas de baterias no Brasil. A estimativa da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE) é que o leilão movimente cerca de R$ 8 bilhões em investimentos. As baterias são vistas como solução estratégica para mitigar o curtailment, como é chamado o corte forçado de geração em usinas solares e eólicas em momentos em que há excesso de oferta. Elas podem guardar o volume excedente de eletricidade para injetá-lo na rede posteriormente, sobretudo nos horários de pico de consumo, contribuindo para ampliar a segurança energética do país e diminuir o risco de apagões. — Além do impacto econômico, o leilão cria previsibilidade e acelera o desenvolvimento tecnológico. O setor trabalha com diferentes tecnologias de baterias e modelos de negócio, e a expectativa de contratação em escala naturalmente aumenta o interesse industrial no país — observa o diretor-executivo da ABSAE, Fabio Lima. — O certame tende a posicionar o Brasil como um hub regional relevante para soluções de armazenamento na América Latina. Baterias da Anodox fornecidas a uma empresa de construção civil da Suécia. Com elas, o gerador que fica no canteiro de obras não precisa ficar ligado o tempo todo, economizando combustível — Foto: Divulgação/Anodox Uma das empresas que já anunciaram investimentos na indústria é a WEG, especializada em soluções de engenharia elétrica. Em fevereiro, a companhia recebeu financiamento de R$ 280 milhões do BNDES para modernizar uma unidade dedicada à produção e integração de BESS e construir outra fábrica, que será a maior do tipo no país. Ambas as estruturas ficam em Itajaí (SC). Com a execução das obras, a capacidade produtiva será de até 2 gigawatts-hora (GWh) por ano. Início de operação em 2027 A nova unidade deve ficar pronta no fim de 2027 e focará na fabricação de BESS para aplicações comerciais, industriais e utility scale (grande porte), atendendo a usinas renováveis e projetos de infraestrutura de rede, por exemplo. Segundo o vice-presidente de Automação e Sistemas da WEG, Manfred Peter Johann, investimentos futuros em expansão industrial, desenvolvimento tecnológico e nacionalização gradual da cadeia produtiva estão em avaliação. Hoje, a produção de BESS no Brasil depende de componentes importados da China, sobretudo células de bateria, que representam o “coração” do sistema. — O armazenamento deve se tornar cada vez mais estratégico para o setor elétrico brasileiro ao longo dos próximos anos — diz Johann. Para o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Luis Gordon, a nova unidade da WEG inaugurará a fabricação de BESS em larga escala em território nacional. Há três programas distintos no banco com orçamentos somados de R$ 54 bilhões que podem ser acessados por empresas com projetos ligados a esse tipo de sistema de armazenamento. — As empresas também vão poder financiar os investimentos do leilão de baterias — afirma Gordon. A Anodox, empresa sueca de BESS presente no Brasil desde o fim de 2024, foi contemplada com um financiamento do BNDES na mesma chamada pública que a WEG, voltada para planos de negócios com o objetivo de investir na transformação de minerais estratégicos. A companhia, que hoje atua por meio de importação de sistemas de baterias produzidos pela cadeia industrial internacional do grupo, elegeu o Ceará para sediar sua primeira fábrica no Brasil. A unidade deve iniciar a operação em 2028 e criar 590 empregos, entre diretos e indiretos. A capacidade poderá alcançar 2GWh por ano. No primeiro momento, o foco da Anodox será a montagem modular e a integração de sistemas BESS, em parceria com um sócio chinês. A ideia, contudo, é fazer a transição gradual para a produção local. — A fase inicial ancora o negócio, estabelece a marca no país e cria o fluxo de receita que sustenta os investimentos seguintes — detalha o CEO e sócio da Anodox no Brasil, Cristiano Braga. — À medida que o mercado se consolidar, temos a opção de avançar progressivamente na cadeia, incorporando etapas de maior valor agregado, como a montagem de células e, no médio e longo prazo, o processamento de minerais estratégicos em território nacional, com parceiros do setor. Especializada em soluções de infraestrutura para a transição energética, a Brasol, controlada pelo fundo americano BlackRock e pela Siemens, estreou no mercado de armazenamento há dois anos. A empresa comercializa tanto sistemas que chegam totalmente prontos da China quanto equipamentos cuja montagem final é realizada por parceiros fabris locais. A companhia adotou o modelo BESS as a Service para indústrias e comércios. Na prática, ela arca com todo o investimento no projeto — incluindo desenvolvimento, estruturação, implementação, operação e manutenção — e faz um contrato de leasing com o cliente, que só paga as mensalidades pelo uso do ativo. — O cliente não precisa investir e nós assumimos todos os riscos — destaca o diretor da unidade de BESS da Brasol, Diogo Zaverucha, acrescentando que a empresa quer participar do certame em dezembro. — Com o leilão, toda a cadeia nacional se estrutura, o produto fica mais barato e o interesse pela solução aumenta. Exigência de conteúdo local > As diretrizes para o primeiro leilão de reserva de capacidade voltado exclusivamente para sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS, na sigla em inglês) no Brasil foram publicadas na semana passada. A portaria do Ministério de Minas e Energia (MME) cria dois certames, um reservado a projetos com conteúdo nacional e outro aberto a todos os fornecedores. > Um dos leilões será realizado em 2 de dezembro e será destinado a projetos que atendam requisitos mínimos de nacionalização definidos pelo BNDES. Dois dias depois, em 4 de dezembro, ocorrerá o outro certame aberto aos demais sistemas de armazenamento. > A publicação ocorreu um dia após a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovar a regulamentação para sistemas de armazenamento de energia, consolidando o marco regulatório que o setor aguardava para viabilizar os primeiros projetos em escala comercial. > As diretrizes do MME estabelecem que os empreendimentos vencedores terão contratos de reserva de capacidade com duração de 15 anos e início de suprimento em 1º de agosto de 2028. > As baterias deverão ser capazes de fornecer a potência contratada por quatro horas consecutivas por ciclo completo, podendo realizar até dois ciclos diários, limitados a 366 ciclos por ano. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) poderá, entretanto, despachar os sistemas por até 12 horas. > Para Luiza Masseno Leal, pesquisadora do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), do Instituto de Economia da UFRJ, os leilões serão fundamentais para dar mais segurança à rede elétrica. > — A urgência (de acelerar a integração de baterias ao Sistema Interligado Nacional) é real e crescente — afirma Luiza, acrescentando que países como EUA, Alemanha e Chile já utilizam a tecnologia para ampliar a flexibilidade e a segurança das redes elétricas. — A China é, com folga, o mais avançado e concentra mais da metade da capacidade global de BESS em escala de rede. O Brasil está atrasado.
Leilão de baterias já atrai novas fábricas para o Brasil
Unidades serão erguidas em SC e CE e devem ganhar escala com primeiro certame do setor, previsto para dezembro. Expectativa é de R$ 8 bilhões em investimentos









