A empresa de energia EDP começou a operar seu primeiro parque híbrido, com geração eólica e baterias, na América do Sul. A companhia investiu US$ 44 milhões (cerca R$ 230 milhões) no sistema, que foi incorporado ao projeto eólico Punta de Talca, que fica no município de Ovalle, no Chile. O objetivo é reduzir os cortes de geração renovável por razões sistêmicas, conhecidos pelo jargão “curtailment”, e aproveitar as oportunidades do mercado chileno para a tecnologia, já que o país possibilita diversas frentes de negócio no segmento. O sistema conta com 240 megawatt-hora (MWh) de capacidade instalada e média de armazenamento de 60 GWh por ano, sendo capaz de abastecer mais de 30 mil residências da região. Com as operações em fase de teste, a expectativa é alcançar a operação comercial ao fim deste ano. Além dos ganhos locais, a companhia espera aproveitar a expertise adquirida para empregá-la em outras geografias, incluindo o Brasil. O presidente da EDP na América do Sul, João Brito Martins, avalia que a iniciativa em território sul-americano deve servir de aprendizado sobre a implementação desse tipo de projeto na região por reduzir incertezas quanto aos prazos de construção locais e de tempo de instalação de equipamentos, por exemplo, trazendo competitividade. Ele lembra que, em nível global, a companhia já soma 550 MW de baterias em operação, sendo a maior parte nos Estados Unidos. “Este tipo de solução terá um papel crescente na evolução dos sistemas elétricos da região e vemos um potencial importante para o desenvolvimento deste mercado no Brasil nos próximos anos”, afirmou. A inauguração ocorreu cerca de uma semana depois de o Ministério de Minas e Energia (MME) do Brasil publicar uma portaria com diretrizes para o primeiro leilão de baterias do país, previsto para dezembro. Segundo Martins, a companhia ainda avalia detalhes do certame e da regulamentação do tema para decidir sobre sua participação, ainda que o tema tenha avançado na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) recentemente. A ideia inicial, no entanto, é participar, ainda que haja questões a serem endereçadas, como a previsão de que são os próprios geradores que deverão pagar pela contratação de baterias em leilão. A determinação consta no marco regulatório do setor elétrico aprovado no ano passado. “Este é um dos temas mais críticos, mas acredito que será resolvido”, disse. No Chile, uma das diferenças em relação ao regramento que está sendo construído no Brasil é a possibilidade de empilhamento de receitas. Para este primeiro projeto, para além de reduzir as perdas decorrentes dos cortes, a expectativa é que metade do faturamento venha de um encargo que financia a capacidade necessária ao sistema como um todo e a outra metade seja obtida via arbitragem de preços, ou seja, a companhia poderá armazenar a energia quando o preço estiver mais baixo e ofertá-la quando os valores estiverem mais competitivos. Há ainda a possibilidade de remuneração futura por serviços auxiliares, que são chamados tecnicamente no setor elétrico de ancilares, que incluem, por exemplo, a estabilização de tensão e frequência na rede. Do ponto de vista técnico, o sistema de armazenamento conta com 51 contêineres e considerou em sua construção a característica sísmica do Chile, o que exigiu que os fundamentos fossem feitos de forma mais aprofundada para garantir a estabilidade dos equipamentos, tanto em se tratando das baterias quanto dos 14 aerogeradores que operam no parque desde 2024. O projeto tem vida útil estimado em 20 anos e foi pensado ainda considerando a previsão de aumento de capacidade necessária para manter a potência instalada do parque, já que as baterias vão, conforme seu uso, perdendo efetividade. Em relação a novos projetos, Martins afirma que, no Chile, a empresa segue focada em geração de energia, ainda que o mercado não esteja aquecido. Em relação ao Brasil, na frente de geração, a perspectiva é similar, considerando não só o curtailment, que afetou a companhia negativamente em R$ 190 milhões no país, como também o ambiente macroeconômico, disse. *A repórter viajou a convite da EDP. Empresa EDP — Foto: Divulgação