O Brasil busca reverter o banimento de suas exportações de produtos de origem animal para a UE, em vigor a partir de 3 de setembro, devido ao uso de antimicrobianos. O governo Lula, aconselhado a dialogar com Ursula von der Leyen, enfrenta resistência política de países como Hungria e França. Um protocolo de exportação foi criado, mas a reinclusão depende de aprovação dos 27 países da UE. A exclusão pode causar uma perda de mercado de US$ 1,8 bilhão e prejudicar a imagem do Brasil no setor agropecuário.​BRUXELAS - O governo brasileiro colocou em marcha uma ofensiva política para tentar derrubar o quanto antes o banimento do País como exportador de produtos de origem animal, sobretudo a carne bovina, à União Europeia (UE). Os europeus, por sua vez, prometem reavaliar o caso tão logo o governo brasileiro complemente a documentação com as exigências sanitárias.O gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi informado do plano. Integrantes da chancelaria aconselharam que ele se envolva pessoalmente no caso e dialogue com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. A primeira oportunidade será na semana que vem. Ambos planejam participar da reunião de líderes do G-7, em Évian, na França, entre 15 e 17 de junho.Lula e Ursula von der Leyen terão oportunidade de se encontrar na semana que vem, na França, em reunião do G-7 Foto: Ricardo StuckertPUBLICIDADEEm 12 de maio, onze dias após a entrada em vigor do acordo de livre comércio da UE-Mercosul, o bloco europeu anunciou a decisão de excluir completamente os produtos brasileiros de origem animal de seu mercado. A medida entrará em vigor em 3 de setembro e foi aprovada após votação dos 27 países de forma unânime.O governo brasileiro reagiu e deu início a um processo de consultas bilaterais​, principalmente com a Direção-Geral da Saúde e Segurança Alimentar (DG SANTE​), para tentar reverter a decisão, com reuniões frequentes em andamento em nível técnico e político. Esse órgão faz parte da Comissão Europeia, espécie de poder executivo do bloco, e recomendou a exclusão, depois aprovada por todos os países no comitê responsável.PublicidadeDo lado brasileiro, houve remessa de dados adicionais e a preparação de um novo protocolo pelo setor privado, com consultas ​ao Ministério das Relações Exteriores e ao Ministério da Agricultura, para se adequar às exigências europeias por segregação, rastreamento e fiscalização do uso de antimicrobianos nos produtos destinados ao mercado europeu.Leia maisUE vetou carne brasileira por questões de fiscalização, não por status sanitário, diz associaçãoUnião Europeia formaliza veto à importação de carnes do Brasil a partir de setembroO Protocolo Privado de Exportação de Bovinos Livres de Antimicrobianos foi homologado em 29 de maio, tendo sido proposto pela Associação Brasileira das Empresas de Certificação por Auditoria e Rastreabilidade. Entidades do setor do agronegócio, de pecuaristas à indústria, contribuíram na preparação. Entre elas, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). O objetivo é subsidiar a emissão da certificação oficial brasileira para exportação de bovinos e búfalos não submetidos a manejo com uso de antimicrobianos.A UE e o governo brasileiro combinaram de analisar as cadeias de produtos de origem animal de forma separada, para agilizar potencial liberação para alguns dos produtos Foto: Vivi Zanatta/EstadãoA UE e o governo brasileiro combinaram de analisar as cadeias de produtos de origem animal de forma separada, para agilizar potencial liberação para alguns dos produtos. O caso mais complicado é o do gado, por causa do tempo de crescimento dos animais, cerca de 3 anos, e das dificuldades logísticas de fiscalização. Os europeus querem demonstração de controle sobre os bovinos.PublicidadeA Comissão Europeia formalizou na quinta-feira, dia 4, a execução desta deliberação de excluir o Brasil, por meio de uma publicação no Jornal Oficial da União Europeia. Ela passa a valer em 3 de setembro. Até então, o Brasil ​era autorizado a exportar produtos de bovinos, equídeos, aves, aquicultura, mel e tripas.Como mostrou o Estadão, o Brasil foi banido porque o governo não oferece​u garantias suficientes de que aplica medidas necessárias para assegurar que não haja uso de certos antimicrobianos, entre eles antibióticos, na cadeia de produção. Esses medicamentos são proibidos na UE​.​Integrantes do governo brasileiro e do setor privado reconheceram, em caráter reservado, que houve um erro do lado brasileiro e até demora na reação. Citam, por exemplo, que o Brasil decidiu tardiamente (em 27 de abril) a proibição do uso de alguns antibióticos para favorecer o crescimento do boi, todos vetados na UE, algo que Uruguai, Paraguai e Argentina fizeram um ano antes. Os três sócios do Mercosul permaneceram com acesso ao mercado europeu inalterado. Foram proibidos no País como aditivos melhoradores de desempenho: avoparcina, bacitracina, bacitracina de zinco, bacitracina metileno disalicilato e virginiamicina​.PublicidadePUBLICIDADEEsses interlocutores ouvidos pelo Estadão também relatam que os europeus demoraram a responder e ficaram meses em silêncio, sem atender chamadas e pedidos de contato, nem dizer que a documentação anterior remetida pelo Ministério da Agricultura, em outubro de 2025, era insuficiente para atender aos parâmetros da legislação europeia de antimicrobianos. Somente em abril, por cobrança na missão diplomática do Brasil em Bruxelas, os europeus agendaram uma reunião com a DG SANTE para maio, que ocorreu dois dias depois do anúncio da deliberação que baniu o Brasil. O gesto foi percebido como um sinal de interferência política e protecionismo dos países resistentes ao acordo UE-Mercosul, e um gesto de indisposição com um parceiro estratégico de longa data. Loja de queijos e embutidos em Bruxelas, Bélgica. Produtos de origem animal vindos do Brasil estão proibidos no bloco europeu a partir de setembro Foto: Felipe Frazão/EstadãoEles também admitem que, ao sinal de que não estava havendo respostas pelos técnicos europeus, Brasília foi avisada de que algo estava mal e tinha ciência de que haveria necessidade de medidas adicionais para o segmento de carne bovina - as exigências europeias não seriam atingidas apenas com o protocolo do “Boi Europa”. Mas não esperavam um banimento total. Parte do setor produtivo achou que havia exigências demais e que não ia ser atingido, porque entende que os europeus dependem das importações brasileiras. Eles ouviram de autoridades públicas que “​não há margem para o erro” e que a agenda ambiental “veio para ficar” e tem respaldo popular. Publicidade‘Surpresa’?O governo também reconheceu que se comunicou mal ao declarar que o veto era uma “surpresa”, já que desde 2018 era de conhecimento público a existência do regulamento contra os antimicrobianos e o governo dialogava para se adequar e verificar. Os europeus se disseram “estupefatos” com esse argumento e citaram que o País começou tardiamente a se adequar, sendo que sabiam há pelo menos quatro anos da necessidade de preparação.A Comissão Europeia se diz pronta para submeter o documentação brasileira a uma nova análise do comitê responsável, assim que for considerada completa e baseada em evidências. Não há uma data específica para que isso ocorra. Cabe à comissão propor a reinclusão do Brasil na lista, por cadeia de produto, o que dependerá do voto dos 27 países.“Quando se trata de saúde e segurança alimentar, incluindo o uso de antibióticos, qualquer produto alimentício que entre na UE deve cumprir as mesmas regras que os nossos agricultores na UE. É um padrão elevado”, disse o porta-voz de Comércio, Olof Gill. “Desde 2024, existe uma lista provisória de países que cumprem os requisitos da UE. Atualizamos essa lista regularmente e, na nossa lista mais recente, o Brasil não consta dela. Por quê? Porque não forneceu garantias suficientes sobre o uso de antimicrobianos e antibióticos na cadeia alimentar da carne exportada para a UE.”PublicidadeOlof Gill complementou. “Não é complicado. Se o Brasil quiser ser incluído na lista, cabe às suas autoridades demonstrar que podem sanar as deficiências que identificamos. Isso não é novidade. Se as autoridades brasileiras demonstrarem que seus sistemas estão em conformidade, as exportações poderão ser retomadas. É simples assim”.​Outro fator que gera temor é que o comissário europeu para Saúde e Bem-estar Animal é Olivér Várhelyi, ​de origem húngara. A Hungria foi um dos cinco países refratários ao acordo comercial, assim como França, Polônia, Áustria e Irlanda.Um primeiro passo da escalada política foi dado na quinta-feira, dia 4, em Paris, quando o chanceler Mauro Vieira discutiu o tema com o comissário de Comércio da UE, Maroš Šefčovič​. O ministro havia sido subsidiado com dados do estágio das tratativas com sugestão de pressionar pela convocação do comitê e uma resolução célere do caso. O Itamaraty afirmou que eles conversaram sobre a implementação do acordo Mercosul-União Europeia​ e questões comerciais bilaterais.Para um embaixador, houve pressão política para retirar o País da lista e deverá haver novamente resistência política desses cinco países para antecipar​ a reunião que pode resolver o veto. A Comissão Europeia tem o poder de requisitar uma convocação extemporânea e, se isso ocorrer, pode soar como um entendimento que “erraram na dose”, conforme uma autoridade brasileira.PublicidadeApesar de a decisão passar por uma avaliação técnica de capacidades, para diplomatas brasileiros ficou claro o componente político na decisão de excluir o Brasil da lista de exportadores. Por isso, nos bastidores avalia-se ser necessária uma articulação política.​ Há estimativas de que a exclusão represente uma perda de mercado de US$ 1,8 bilhão.Além da pressão de Lula, o Itamaraty pretende acionar a rede de contatos de forma bilateral nas 27 capitais dos países europeus membros do bloco, com pedidos para que revejam seu posicionamento.​ As embaixadas brasileiras na Europa serão acionadas para pedir uma reavaliação.​O momento de ​recorrer ​ao presidente Lula é​ uma ​decisão estratégica. Essa cartada ​representa uma escalada do caso ao mais alto nível político, com a cobrança para que o comitê responsável pela decisão se reúna de forma extraordinária​ e antecipada.A próxima reunião do Comitê Permanente para Plantas, Animais, Alimentos e Ração da Comissão Europeia (SCoPAFF) está programada apenas para novembro de 2026. Portanto, dois meses depois da entrada em vigor da exclusão, em 3 de setembro.PublicidadeChoque de avaliaçõesO Estadão ouviu prognósticos diferentes dos dois lados, em conversas com diplomatas diretamente envolvidos no impasse. Há um choque de avaliações, entre representantes do governo brasileiro e autoridades europeias, em Bruxelas e Brasília. Os europeus falam em boa disposição e agir prontamente, no curto prazo. O lado brasileiro manifestou tom mais realista e uma perspectiva de difícil reversão até setembro.Para interlocutores do governo e do agronegócio, o mais importante agora seria conseguir que o Brasil volte para a lista, ainda que não para todos os tipos de proteína e produtos, o que consistiria numa reversão parcial do veto. O mais demorado deve ser a carne bovina.Além do prejuízo econômico com o fechamento do mercado, integrantes do governo e do setor privado ligado ao agro vêem dano de imagem ao Brasil, já que o mercado europeu é referência em práticas sanitárias e tem perfil premium - consome produtos de alta gama, com cortes nobres. A possibilidade de exportar para a Europa é uma marca explorada por produtores ao negociar a abertura de outros mercados.*O repórter viajou a convite da Delegação da União Europeia no BrasilPublicidade