Lula tem reunião bilateral com União Europeia para destravar exportação da carne brasileiraPresidente brasileiro também teve reuniões com o Japão e não encontrou Donald Trump na cúpula. Crédito: Carol MarinsGerando resumoSÃO PAULO e BRASÍLIA - A menos de três meses da entrada em vigor da decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países habilitados a exportar proteínas animais ao bloco, por não oferecer garantias quanto ao cumprimento de regras relativas ao uso de antimicrobianos, governo, indústria e entidades do agronegócio brasileiro intensificaram uma corrida para tentar reverter a medida. Embora a exclusão já tenha sido formalizada pela Comissão Europeia e passe a valer em 3 de setembro, a avaliação predominante entre autoridades e representantes do setor é a de que ainda existe espaço para uma revisão, desde que o País consiga convencer os europeus de que tem mecanismos adequados para comprovar o cumprimento das exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal.PUBLICIDADEA estratégia passou a combinar negociações técnicas, envio de novos protocolos sanitários e uma articulação política de alto nível que envolve o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros e lideranças do setor privado. O tema desperta atenção da indústria de carnes, que teme entraves no acesso ao mercado europeu, reconhecido por melhores remunerações. O Brasil exporta cerca de US$ 1,8 bilhão por ano em proteínas à UE. Os antimicrobianos são utilizados na pecuária para tratamento de doenças, como antibióticos, e também como promotores de crescimento. Cada país tem seus protocolos sanitários quanto ao uso de antimicrobianos, sobretudo pelos supostos efeitos dos produtos na saúde humana.PublicidadeAgrishow: acordo com UE marca avanço comercial para o agro, diz Roberto RodriguesEx-ministro afirma que abertura de mercado é estratégica, mas terá efeitos diluídos ao longo dos próximos anos. Crédito: edição: Yago BassiO governo trabalha simultaneamente em duas frentes. De um lado, técnicos do Ministério da Agricultura mantêm reuniões frequentes com a Direção-Geral da Saúde e Segurança Alimentar da Comissão Europeia (DG Santé), responsável pela análise das garantias sanitárias exigidas pelo bloco. De outro, o Palácio do Planalto busca elevar a discussão ao campo político. Segundo integrantes do governo ouvidos pelo Estadão/Broadcast Agro, o objetivo é demonstrar que o Brasil continua sendo um parceiro estratégico da Europa e que eventuais dúvidas técnicas podem ser solucionadas antes da entrada em vigor das restrições.“O tema chegou ao presidente Lula para que se dê urgência às discussões”, relatou uma fonte do governo. A estratégia oficial, segundo outro interlocutor, é clara: “É preciso resolver a questão técnica pendente e escalar o debate politicamente”.Leia maisGoverno Lula aposta em conversa de ‘alto nível’ com UE para reverter veto à carne brasileiraUnião Europeia acelera negociação com Brasil por terras raras após EUA fechar compra de mineradoraGoverno brasileiro aposta no ‘bom diálogo’ e vê espaço para tentar reverter novo tarifaço dos EUAO governo aposta que a combinação entre o avanço das negociações técnicas e a interlocução direta entre Lula e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, possa acelerar uma reavaliação do caso. A expectativa também está voltada para a reunião do Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações (Scopaff), prevista para 9 de julho, considerada uma das principais oportunidades para que a situação brasileira volte a ser analisada pelos europeus antes de setembro.PublicidadeDentro do Ministério da Agricultura, o discurso é de otimismo cauteloso. O secretário executivo da pasta, Cleber Soares, afirmou recentemente que “a perspectiva é positiva” e destacou que o governo trabalha para construir soluções compatíveis com a realidade das diferentes cadeias produtivas. Segundo ele, a adaptação tende a ser mais rápida na avicultura, devido ao ciclo produtivo mais curto, enquanto a pecuária bovina exige uma abordagem específica. “Estamos discutindo para, eventualmente, fazer uma regra de transição para bovinos, enquanto já incorporamos o frango”, afirmou.Guerra entre Israel e Irã pode afetar exportação brasileira de carne. Não usar após 23/6/25 Foto: Clio - stock.adobe.comA diferença entre as cadeias é vista como um dos pontos centrais da negociação. Enquanto a produção de aves opera em ciclos de pouco mais de 40 dias, permitindo ajustes relativamente rápidos na eventual retirada de antimicrobianos da rotina das criações, a bovinocultura exige períodos muito mais longos para adequação. Por isso, autoridades brasileiras tentam convencer os europeus da necessidade de mecanismos transitórios para a carne bovina.PublicidadeA indústria exportadora também mantém expectativa favorável. O CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, afirmou que a companhia trabalha com o cenário de reversão das restrições. “Acreditamos que pode ter maior dificuldade para uma proteína ou outra, mas que o Brasil vai conseguir reverter”, disse. Para ele, o desafio não está relacionado à qualidade dos produtos brasileiros, mas à formalização das garantias exigidas pela União Europeia. “É uma questão de dar garantia oficial de que nós cumprimos a legislação (europeia referente ao uso de antimicrobianos).”Tomazoni chama a atenção ainda para a relevância estratégica do mercado europeu. Embora a participação da União Europeia no total das exportações brasileiras de carnes seja relativamente limitada, trata-se de um mercado que remunera melhor determinados produtos, especialmente cortes de maior valor agregado. Uma eventual perda de acesso exigiria o redirecionamento dos embarques para outros destinos e poderia afetar a rentabilidade de diferentes segmentos da cadeia.No Congresso, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) acompanha as negociações de perto. O presidente da bancada, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), considera fundamental evitar que o Brasil permaneça fora da lista europeia. “O importante é que o Brasil esteja pelo menos listado, que não saia da lista de países habilitados, porque abre um precedente muito delicado”, afirmou. Segundo ele, o governo garantiu aos parlamentares que todas as informações, estudos e comprovações exigidas pela União Europeia serão apresentados.PublicidadePUBLICIDADEO próprio setor privado passou a defender medidas adicionais para reforçar os argumentos brasileiros. Em ofício enviado ao Ministério da Agricultura, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) solicitaram a ampliação das restrições nacionais ao uso de determinados antimicrobianos. As entidades argumentam que a iniciativa contribuiria para aproximar a regulamentação brasileira dos padrões internacionais e fortalecer a credibilidade sanitária do País perante os compradores externos.Apesar da mobilização, alguns especialistas avaliam que o governo está reagindo a um problema que poderia ter sido enfrentado antes, já que o regulamento europeu foi anunciado em 2023. Ainda assim, há quem veja espaço para uma solução. PublicidadeO empresário e pecuarista Pedro de Camargo Neto considera que o País tem condições técnicas para atender às exigências europeias, desde que haja rapidez na organização dos protocolos e na demonstração de conformidade. Ao comentar a ofensiva montada pelo governo em entrevista na semana passada ao Estadão/Broadcast Agro, ele resumiu a situação em poucas palavras: “Correndo atrás do prejuízo. Antes tarde do que nunca”.