Novas lideranças estão mais dispostas a assumir riscos e a agir em defesa de aliados; iranianos insistem que não haverá solução para a guerra sem cessar-fogo no Líbano Painel com as imagens dos aiatolás Ruhollah Khomeini (E) e Ali Khamenei no centro de Teerã — Foto: ATTA KENARE / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/06/2026 - 13:30 Mudança Estratégica do Irã: Fim da Paciência e Impacto Regional Os recentes ataques a Israel sinalizam o fim da "paciência estratégica" do Irã, com novas lideranças dispostas a assumir riscos e agir em defesa de aliados como o Hezbollah. Enquanto Trump pressiona por um cessar-fogo, o Irã responde aos bombardeios no Líbano, mostrando poder militar e influenciando negociações de paz. A mudança estratégica reflete maior disposição iraniana para confrontos diretos, alterando o equilíbrio regional. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Depois de um dos mais tensos fins de semana desde o início da trégua no conflito no Golfo Pérsico, Irã e Israel concordaram em suspender novos ataques, ao menos temporariamente, enquanto um acordo final está sendo costurado. Mas as ações deixaram mais do que estragos de lado a lado. Ao lançar seus mísseis, Teerã exibiu um novo apetite pelo enfrentamento, ligado à mudança no comando do país e ao abandono da doutrina da "paciência estratégica". Ao agir sob justificativa de apoio ao Hezbollah, os iranianos enviam uma mensagem poderosa aos aliados regionais e pressionam Donald Trump por uma solução que inclua a frente libanesa. “Ambos os lados, Israel e Irã, estão buscando um cessar-fogo imediato! As negociações finais sobre a ‘paz’ estão em andamento, sujeitas a que a ignorância ou a estupidez as atrapalhem. O bloqueio permanecerá em vigor, com toda a sua força e efeito, até que um ‘acordo final’ seja alcançado”, escreveu o presidente americano na rede Truth Social. De acordo com o jornal New York Times, Israel decidiu suspender os ataques após o ultimato de Trump, que nos últimos dias vem demonstrando a insatisfação com a resistência israelense a um acordo de paz com o Irã e com a expansão da guerra no Líbano — em entrevista ao jornal britânico Financial Times, o republicano disse que é ele quem dá as cartas, e que o premier israelense, Benjamin Netanyahu, “não terá escolha” a não ser aceitar um cessar-fogo firmado pelos EUA. Os dois conversaram por telefone no domingo. Pelo lado iraniano, o fim dos ataques foi anunciado em comunicado, no qual Teerã afirma que a operação ocorreu “em resposta às atrocidades do regime selvagem sionista” no sul do Líbano e no distrito de Dahiyeh, em Beirute, áreas dominadas pelo Hezbollah. — Na nova onda de operações contra alvos importantes e sensíveis nos territórios ocupados, o inimigo sofreu uma ofensiva bem-sucedida, recebendo golpes pesados, direcionados, inteligentes e custosos das poderosas forças da República Islâmica do Irã — disse Ebrahim Zolfaghari, comandante da Guarda Revolucionária. Israel afirma ter atacado alvos militares no Irã após ser alvo de mísseis Além de deixarem a trégua firmada em abril por um fio, os ataques do fim de semana confirmaram uma mudança estratégica dentro da República Islâmica: a doutrina da “paciência estratégica”, cunhada por Ruhollah Khomeini, parece ter chegado ao fim. A “paciência estratégica” começou a mostrar fissuras em 2024, quando Israel atacou o consulado iraniano em Damasco — à época comandada pelo aliado Bashar al-Assad —, e forçou uma resposta militar de Teerã. Os dois conflitos que se seguiam, o de junho de 2025 e a guerra atual, impuseram aos iranianos uma nova realidade, na qual se sentar à margem ou recorrer às armas de aliados não eram mais escolhas viáveis. O “novo” regime, no qual os militares têm mais poder do que os aiatolás, está mais disposto a correr riscos e agir imediatamente, como ficou nítido no fim de semana. — A falta de reação seria um sinal de fraqueza —disse Ali Vaez, analista sênior do Irã no International Crisis Group, em entrevista ao New York Times. — O ataque do Irã em defesa do Líbano não foi meramente uma resposta militar; foi a declaração formal de uma doutrina estratégica — disse Sadegh Larijani, presidente do poderoso Conselho de Expediência, órgão que assessora o líder supremo. —Se qualquer componente do Eixo da Resistência for atacado, a resposta se estenderá além das fronteiras geográficas e alterará o equilíbrio de poder regional. Ao projetar poder além de suas fronteiras, o Irã busca romper o processo liderado por EUA e Israel para remodelar o Oriente Médio — hoje em pausa por causa da guerra —, demonstrar suas capacidades militares mesmo depois de 40 dias de bombardeios e garantir ganhos estratégicos. A pouca disposição de Trump em reiniciar o conflito serve como um incentivo a mais para deixar o comedimento de lado. — Eles não acham que Trump vá entrar em guerra — disse Farzan Sabet, analista do Irã no Instituto de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento de Genebra, ao New York Times. — Mas mesmo que ele entre em guerra, eles estão bastante confiantes de que conseguirão lidar com a situação. Em termos imediatos, o ataque contra Israel demonstrou em termos militares algo que os diplomatas e políticos iranianos dizem há meses: não haverá solução viável para a guerra sem a inclusão do Líbano (e do Hezbollah) em um acordo ainda a ser finalizado. — O objetivo do cerco de pressão criado no Líbano não é apenas o Hezbollah, mas sim contra nossas barreiras de proteção e para enfraquecer as nossas atividades regionais — disse o analista político Mostafa Najafi, em comentários na TV estatal iraniana. — Não se pode separar a questão do Hezbollah e do Líbano da questão do Irã, porque eles têm uma ligação ideológica e geopolítica significativa; fazem parte de um mesmo modelo geopolítico. Os israelenses, já avessos ao cessar-fogo decretado em abril, sequer cogitam discutir o fim da ofensiva centrada no sul do país árabe. Suas tropas controlam 20% do território libanês, e Netanyahu declarou que a intenção é criar uma “zona tampão” na fronteira, além de derrotar o Hezbollah. — Em primeiro lugar, [as tropas] estão afastando o inimigo da fronteira — disse o premier em abril, durante uma reunião de Gabinete. — Nós falamos de uma zona de segurança sólida e mais profunda que previne o perigo de invasão e distancia a ameaça dos mísseis antitanque. Trump tenta separar os dois cenários nas negociações, evitando, por exemplo, impor uma pausa completa nos combates no Líbano como parte de um acordo com Teerã, mas até ele dá sinais de impaciência, como na tensa conversa telefônica com Netanyahu. Desde março, 3,6 mil pessoas morreram e mais de um milhão fugiram para áreas mais seguras no território libanês. — Ele (Netanyahu) está usando a guerra no Líbano para dificultar ainda mais que Trump chegue a um entendimento com os iranianos —disse Guy Laron, historiador na Universidade Hebraica, ao Washington Post. — É por isso que Trump está tão furioso.
Ataques contra Israel confirmam que a era da 'paciência estratégica' chegou ao fim em Teerã
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