A taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro nunca foi tão alta: saiu de 34,8% em 1990 para 53% em 2023, segundo a OIT. O número de empreendedoras bateu recorde em 2025, com 10,4 milhões de donas de negócio. Ainda assim, 1 em cada 4 mulheres no Brasil vive com menos de US$ 6 por dia, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A contradição é o ponto de partida do estudo "Elas Pagam a Conta", do Think Eva e da Olga, que mapeia por que a ascensão feminina no mercado de trabalho não se traduziu em prosperidade financeira equivalente. A resposta, segundo o levantamento, não está em escolhas individuais. Está em estruturas. Mulheres recebem, em média, 21% a menos que homens, segundo o 5º Relatório de Transparência Salarial do Governo Federal — R$ 3.965 contra R$ 5.039 no setor privado. A diferença não se explica por qualificação: nas faixas salariais intermediárias, 47,5% das mulheres têm ensino superior completo, contra 17,8% dos homens. A maternidade aprofunda a lacuna. Estudos citados no levantamento mostram que o nascimento do primeiro filho reduz o salário feminino em até 24%. Para mulheres com três filhos ou mais, a queda chega a 40%. Por outro lado, para os homens, o impacto é próximo de zero. Segundo análise publicado na revista The Economist em 2024, 24% das mulheres saem do mercado no primeiro ano após o parto, enquanto 17% permanecem fora após cinco anos. A isso se soma a sobrecarga de cuidado. Mulheres respondem por 76% das horas de trabalho não remunerado no Brasil e trabalham em média 58,1 horas semanais — remuneradas e não remuneradas somadas —, contra 50,3 horas dos homens, segundo o MADE. Essa disponibilidade menor limita o acesso ao emprego formal: 49,1% das mulheres estavam ativas no mercado em 2024, contra 68,8% dos homens. O custo recai sobre elas mesmas. Suas dívidas se concentram em pagamento da fatura do cartão de crédito (86%), supermercado (59%) e remédios (42%). Mas elas demonstram maior controle da situação: fecham 25% mais acordos de renegociação que os homens no Feirão Serasa Limpa Nome do que homens e pagam suas dívidas 11,6% mais rápido, mesmo com renda menor. Homens e mulheres investem de formas diferentes O estudo busca ainda desmistificar a crença de que mulheres são avessas ao risco quando se fala de investimentos. As mulheres são, frequentemente, classificado como mais conservadoras. Mas há uma diferença, que o estudo ressalta, entre capacidade e disponibilidade para risco. Enquanto a capacidade está relacionada ao quanto uma pessoa efetivamente pode perder sem comprometer sua estabilidade financeira — ou seja, envolve renda, patrimônio, segurança econômica e margem financeira real para assumir riscos — , a disponibilidade diz respeito ao quanto alguém se sente confortável, disposto ou emocionalmente preparado para correr esses riscos. O comportamento mais conservador tem explicação estrutural: elas investem com menor margem de segurança e objetivos mais concretos, tais como educação dos filhos, reserva de emergência, aposentadoria. Evitar risco, nesse contexto, é avaliação racional de capacidade real de perda. Mas assim, isso não significa que elas invistam mal ou de forma errada. Um levantamento de sete anos do professor Terrance Odean, da Universidade da Califórnia, mostrou que as carteiras femininas superaram as masculinas em 4,6 pontos percentuais de rentabilidade. Mulheres checam mais informações antes de investir, seguem menos recomendações informais (27,8% contra 34,2% dos homens) e decidem menos por intuição (7,5% contra 13,7%). Uma das barreiras que acaba distanciando as mulheres do mercado financeiro, em muitos casos, é a linguagem. O estudo destaca que há falta de compreensão, em muitos casos, porque o próprio mercado não é transparente ou não faz questão de ser didático. O resultado é que seis em cada dez (61,6%) recorrem à internet para tomar decisões de investimento. Apenas 20,5% das respondentes de uma pesquisa apontaram que recorrem a um assessor de investimento e 12,5% a um gerente de banco, mesmo podendo colocar mais de uma fonte. No crédito, 47% das empreendedoras relatam dificuldade para obtê-lo, 85% já tiveram pedido negado e pagam taxa média de 40,6% ao ano, acima dos 36,8% do mercado geral. Os motivos do investimento também variam muito entre gêneros. Quando perguntadas sobre seus objetivos, mulheres entre 41 e 45 anos se mostram mais motivadas a poupar para segurança de familiares e filhos. A reserva de emergência, que deveria ser prioridade em qualquer idade, só passa a ganhar espaço a partir dos 55 anos, quando elas conseguem, enfim, priorizar a si mesmas. Soluções propostas O estudo do Think Eva e da Olga aponta que as mulheres só conquistam a chamada "autonomia financeira" quando rompem com tabus, passam a ter acesso à educação financeira, falam mais abertamente e sem culpa sobre dinheiro e constroem a consciência de que prosperar também pode ser um projeto feminino. "Afinal, ninguém se torna autônomo sozinho. A autonomia se constrói na capacidade de ler o mundo, reconhecer as estruturas que limitam a própria vida e transformá-las. Mas a autonomia também exige condições emocionais e materiais mínimas para existir. A partir de Donald Winnicott, é possível compreender que não há liberdade real quando toda a energia psíquica está voltada à sobrevivência", ressalta o material. O levantamento organiza recomendações em três frentes. A primeira é para as empresas, sendo que a correção da brecha salarial é uma das principais. O custo de não agir tem dimensão mensurável. Salários equivalentes aos dos homens acrescentariam R$ 95,5 bilhões aos rendimentos femininos apenas em 2025, segundo o relatório de transparência salarial. A OIT estima que políticas plenas de igualdade de gênero poderiam ter gerado R$ 382 bilhões adicionais ao PIB entre 2017 e 2025. Outra sugestão é adoção de critérios livres de vieses para promoções corporativas. A licença-paternidade equiparada à maternidade é outra pauta relevante para tirar a carga de trabalho não remunerado em cima das mulheres. Em 2026, o Brasil sancionou lei que amplia a licença-paternidade gradualmente até 20 dias em 2029, avanço ainda distante da paridade. Para o mercado financeiro, a adequação da linguagem , para uma mais acessível, é fundamental para que elas entendam os produtos alinhados aos objetivos reais. Outro ponto é o do crédito sem viés de gênero para CNPJs liderados por elas, uma vez que o empreendedorismo é uma das principais formas que elas encontram para ganhar mais flexibilidade na rotina e dar conta de todos os afazeres. Para o setor público, a recomendação passa pela ampliação de transferência de renda, microcrédito específico e políticas de apoio ao trabalho de cuidado.
Mulheres ganham menos, gastam mais com o essencial e investem melhor — mas o mercado financeiro ainda não as viu
Estudo do Think Eva e da Olga mapeia as estruturas que sustentam a exclusão econômica feminina e aponta caminhos para corrigi-la








