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Negócios liderados mulheres dão mais lucro, mas recebem menos de 3% do investimento global, de acordo com o estudo Female Innovation Index 2025. O que poderia explicar essa conta que parece não fechar? Para a empreendedora brasileira Thaiane Maciel, o problema não se resume a dinheiro. “Capital não é só dinheiro. É permissão. É a diferença entre implorar por uma cadeira e, de fato, ser dona da sala”. O relato foi feito diante de uma plateia de investidores e fundadores reunidos na última semana em Aveiro, em Portugal. A frase encerrou um dos painéis da NovaNext, cúpula de tecnologia e investimento que levou cerca de mil participantes a Aveiro.Intitulado What's Next for Women in Entrepreneurship (O que vem a seguir para as mulheres no empreendedorismo), o debate foi moderado por Joana Martins, da aceleradora Hypernova, organizadora do evento, e reuniu quatro empreendedoras: as brasileiras Thaiane Maciel, do Instituto Ecocria – Canal Novo Mundo; Millena Araújo, da Inteligência Educacional; a holandesa Marleen Evertsz, da Nxchange e Mayara Marinov, do DTL Group. Três das quatro são brasileiras — um retrato da presença crescente de fundadoras e empreendedoras do país nos circuitos europeus de inovação. Durante o debate em Aveiro, as diferenças geográficas e sociais das painelistas evidenciaram como o problema afeta as lideranças femininas, independente de onde estejam.NúmerosQuem traduziu os desafios enfrentados pelas mulheres neste segmento de predominância masculina em número foi Millena Araújo, CEO da Inteligência Educacional, que é pesquisadora e está concluindo um mestrado. “Menos de 3% do capital de risco no mundo vai para startups lideradas por mulheres”, afirmou. “O problema não é que as mulheres não estejam prontas. É onde o capital está estruturalmente posicionado.” Quer receber notícias do PÚBLICO Brasil pelo WhatsApp? Clique aqui. E os dados disponíveis sustentam o diagnóstico, que se repete em diferentes mercados. Na Europa, somente 12% de todo o capital captado por startups foi para empresas fundadas por mulheres em 2024 — a mesma fatia de 2023 e só dois pontos percentuais acima de 2020, segundo o Female Innovation Index 2025; elas são cerca de 14% dos fundadores do continente. Portugal, palco do painel, não tem série estatística própria, mas, aplicado esse percentual aos 448 milhões de euros levantados pelas startups nacionais em 2024 (dados da Dealroom), apenas cerca de 53,8 milhões teriam chegado a fundadoras.No Brasil, o retrato é semelhante: as mulheres respondem por cerca de 19,7% entre os fundadores de startups no país, segundo o Mapeamento do Ecossistema de Startups da Abstartups com a Deloitte, e recebem somente 12% do capital de risco investido — o mesmo nível europeu —, conforme dados reunidos pela plataforma Startups e pela Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE).Na América Latina, a Association for Private Capital Investment in Latin America (LAVCA) apontou que negócios com liderança feminina ficaram com 18% do total aportado em rodadas acima de US$ 1 milhão. Nos Estados Unidos, o padrão se mantém: na última década, as startups fundadas exclusivamente por mulheres receberam de 1% a 3% do capital de risco, parcela praticamente estável que rondou 1,1% em 2025, segundo o PitchBook. Até o recorde de 27,7% do valor investido em empresas com ao menos uma sócia fundadora, naquele ano, foi inflado por poucas megarrodadas concentradas em inteligência artificial, como as da Anthropic e da Scale AI.A barreira também está do outro lado da mesa: no Brasil, apenas 4,75% dos fundos de investimento têm mulheres na gestão, segundo a Quantum Finance, e estudos do setor estimam que elas ocupam cerca de 17% dos cargos de decisão em venture capital — o que ajuda a explicar a observação de Maciel sobre quem, de fato, decide para onde o dinheiro vai.Os dados também revelam que a escassez de capital para empreendimentos fundados ou liderados por mulheres não corresponde a um problema de desempenho: a pesquisa da consultoria Boston Consulting Group (BCG) calcula que negócios fundados por mulheres têm, em geral, um retorno de 78 centavos de receita para cada dólar investido, contra 31 centavos dos fundados por homens. E fica ainda mais visível no topo: entre as startups que atingiram avaliação de US$ 1 bilhão em 2025, nenhuma havia sido fundada apenas por mulheres.RealidadesMarleen Evertsz, fundadora e CEO da Nxchange — bolsa de valores digital sediada em Amsterdã —, representou a leitura mais pragmática. Holandesa, ela contou ter construído as empresas com capital próprio e relativizou o peso do gênero na sua própria história. “Para cada empresa que recebe investimento, o fundador provavelmente conversou com mais de cem investidores antes de fechar uma rodada”, observou. Para ela, parte do desafio é de percepção: mulheres tenderiam a desistir mais cedo diante das respostas negativas, e enxergar a própria condição como obstáculo só reforçaria a barreira. Disse ainda que, quando necessário, procura “espelhar” os colegas homens.Thaiane Maciel narrou o oposto. Engenheira ambiental formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e hoje pesquisadora em economia circular em Berlim, como bolsista da Fundação Alexander von Humboldt, ela fundou o Instituto Ecocria – Canal Novo Mundo sem nenhum capital inicial. “Eu nasci e cresci em uma das baías mais poluídas do mundo, a baía da Guanabara no Rio de Janeiro. Queria restaurar aquele ecossistema”, afirmou. A prioridade, segundo ela, era remunerar as mulheres que a acompanhavam no projeto. “Somos jovens e mulheres, mas precisamos ser pagas pelo nosso trabalho.”Foi dessa experiência que veio a definição de capital como “permissão”. Para Maciel, financiamento que chega em forma de doação simbólica não resolve. “Precisamos de investimento real, em escala, que forme líderes. E garantir que as mulheres não estejam apenas recebendo capital, mas decidindo para onde ele vai”, disse. Ela representou o Brasil, segundo a moderadora, em discussões diante de autoridades alemãs sobre a presença de mulheres em espaços de decisão.Realidade brasileiraA trajetória das brasileiras no painel dialoga com um movimento de fundo no país. Segundo o Monitor Global de Empreendedorismo (GEM 2024), conduzido no Brasil pelo Sebrae em parceria com a Anegepe, as mulheres responderam por 46,8% dos empreendedores iniciais em 2024 — uma recuperação depois de quatro anos de queda, em que a fatia recuou de 50% para 40,2% entre 2019 e 2023. Em 2025, a abertura de pequenos negócios por mulheres bateu recorde: mais de 2 milhões de novos microempreendedores individuais e micro e pequenas empresas foram criados sob liderança feminina, cerca de 42% do total, com o Rio de Janeiro à frente entre os estados (44%).O acesso a recursos, no entanto, não acompanha o ritmo. Dados do Banco Central citados pelo Sebrae indicam que apenas 29,4% do volume total de crédito no Brasil beneficia empresas geridas por mulheres, e que os pequenos negócios chefiados por elas ficam com cerca de 30% de toda a concessão. Das mais de 10 milhões de brasileiras donas de negócio, só 2,57 milhões já haviam acessado empréstimos — aproximadamente um terço. Embora apresentem índices de inadimplência menores do que os dos homens, as empreendedoras enfrentam mais dificuldade para obter financiamento, com juros que, em regiões mais vulneráveis, podem ultrapassar 60% ao ano, segundo a entidade.O quadro se repete na escala global. A Corporação Financeira Internacional (IFC), braço do Banco Mundial para o setor privado, estima que os negócios de micro, pequeno e médio porte liderados por mulheres representam cerca de um terço dessas empresas nos países em desenvolvimento, mas enfrentam um déficit de financiamento da ordem de US$ 1,7 trilhão. O mesmo Banco Mundial projeta ganhos de US$ 5 trilhões a US$ 6 trilhões na economia mundial caso as mulheres passassem a abrir e expandir negócios no mesmo ritmo que os homens.Foi para esse ponto que Millena Araújo conduziu a discussão, recorrendo à história. Citou mulheres que revolucionaram o setor viticultor — das viúvas que reinventaram o champanhe na França à portuguesa Antônia Ferreirinha, que modernizou a região do Douro no século 19 e deixou hospitais e escolas como legado. O diferencial dessas pioneiras, argumentou, foi o acesso ao crédito. “Pesquisas mostram que mulheres à frente de startups e inovação podem ter rentabilidade maior do que o público masculino. Mas os grandes créditos não chegam às grandes empreendedoras”, afirmou.Segundo o Sebrae (Empreendedorismo Feminino 2025, GEM 2024), as mulheres já respondem por quase metade dos empreendedores iniciais no Brasil e abrem mais de 2 milhões de negócios por ano, mas seguem com menos de um terço do crédito do país e uma fração mínima do capital de risco. O gargalo, indicam os dados, não está na disposição de empreender, mas em quem controla a porta de entrada do dinheiro.








