Karen Heidelberger: “17% dos cargos de decisão nos fundos de VC são ocupados por mulheres” — Foto: Divulgação Os desafios da internacionalização das startups brasileiras dominaram as discussões sobre venture capital no Rio Web Summit 2026. Ao lado de um certo otimismo com a capacidade das empresas nacionais, os palestrantes destacaram os obstáculos enfrentados neste processo e expuseram os caminhos estratégicos para novos empreendedores expandirem suas operações para além das fronteiras do país. A internacionalização é vista como boa alternativa, sobretudo diante da redução de recursos que os especialistas chamam de “inverno de venture capital”, isto é, o resultado de uma combinação de fatores, como juros na casa dos 15%, escassez de IPOs (abertura de capital), além do já conhecido problema de isolamento geográfico do país. “O mercado está muito seco, há pouco dinheiro disponível no mercado, o que torna os fundos mais seletivos na escolha de empresas para investir. Estou me sentindo meio do ‘Game of Thrones in winter’”, disse Marcello Gonçalves, cofundador e sócio da DomoVC, referindo-se ao famoso inverno da série produzida originalmente pela HBO, que simboliza um período de escassez extrema e foco em sobrevivência. A gestora tem em seu portfólio empresas como Gympass, Hotmart e Loggi e atua em mais de cem startups. “Não estou vendo nenhum raio de sol aparecer, pelo menos até as eleições. O inverno também veio para a América Latina e nos Estados Unidos, mas aqui ele persistiu”, acrescentou Gonçalves. Alguns analistas, porém, avaliam que a restrição de capital tem sido bem menor, quase uma primavera, para as empresas de inteligência artificial. Se é possível apontar algo de positivo nessa redução de liquidez no país, conforme os palestrantes, foi o aprimoramento dos fundadores de startups. Sem o excesso de capital que existia em 2021 e 2022, os empreendedores precisaram aumentar muito o preparo técnico, a vontade de empreender e, claro, a qualidade do produto, atestam os investidores. O cenário atual também impõe mudanças de paradigmas, com a substituição do playbook de crescimento acelerado, que funcionou até 2023, por um novo modelo, focado na eficiência de custos, uso estratégico de IA, governança rigorosa, capacidade de execução e métricas consolidadas e realistas de retorno do investimento. O roteiro para atravessar fronteiras desenhado por Moises Swirski, sócio-fundador da MSW Capital, passa ainda pela existência de fundadores com total domínio do problema que se propõem a resolver. Em muitos casos, disse ele, o caminho para a internacionalização é mais simples do que se imagina. Tanto assim que algumas de suas empresas investidas estão fazendo esse movimento naturalmente, de forma orgânica. É o caso da iRancho, startup que faz manejo pecuário e atraiu já produtores de vários países. “Com um produto bom, o desafio é a conexão com o cliente, o relacionamento”, afirmou. Não sem razão, investidores apostam no sucesso das empresas nacionais no exterior, baseado em vantagens competitivas, carinhosamente batizadas de “temperinho brasileiro”. Trata-se da vocação para atender bem, estar próximo dos clientes e gerar dados proprietários, inclusive para alimentar suas próprias ferramentas de inteligência artificial. São diferenciais que as empresas estrangeiras não conseguem replicar, segundo os palestrantes. Também entram na receita a resiliência e a capacidade do empreendedor brasileiro para lidar com cenários adversos. Do lado dos investidores, é consenso a ideia de que o apoio à internacionalização precisa ir muito além da injeção de dinheiro. Os fundos têm que irrigar as startups com smart capital, ou seja, ativos intangíveis que incluem rede de relacionamento, conhecimento dos mercados, expertise de gestão e mentorias diversas. Mas, antes de desbravar o mundo, há questões essenciais a serem respondidas. A principal delas é se a startup já deve ser criada visando ao mercado externo (born global) ou consolidar sua atividade no Brasil antes de buscar a internacionalização. Filipe Garcia, CEO da WOW, maior aceleradora de inicialização do país, defendeu operações construídas localmente, modelo born local, scale global. Mas reconhece que, para algumas empresas, faz sentido já nascer global, como foi o caso da Logiez, startup do portfólio da WOW, inserida no contexto de vendas internacionais de mercadorias. A opção também se justifica quando o fundador tem uma sólida experiência prévia com operações no mercado externo. O melhor dos mundos, segundo Garcia, ocorre quando o produto está tão alinhado às necessidades dos clientes e acaba sendo puxado para o mercado internacional, sem que a empresa precise “empurrá-lo”. Um exemplo, disse, é a Openclick, plataforma de atendimento por IA, que foi levada para nove países da América Latina por um dos próprios clientes. Independentemente de como comecem, ninguém discorda que o Brasil é uma grande escola para empresários que querem ganhar o mundo. Isso porque, além das vantagens competitivas características e da ampla gama de setores atrativos para investidores, como energia limpa, minerais e biodiversidade, o empreendedor brasileiro precisa lidar com uma complexidade tributária cerca de seis vezes maior do que a média mundial. “A frase ‘o Brasil não é para amadores’ é verdadeira. As empresas que vão se internacionalizar precisam primeiro vencer em casa. Passou no teste aqui, vai embora para o mundo”, aconselhou Swirski. Que o diga o secretário-geral do Fundo de Investimentos da Internet na China, Wu Hai, presente no Web Summit por enxergar no Brasil um ótimo cenário internacional para investimentos chineses em aceleração de pequenas e médias empresas e desenvolvimento de cidades inteligentes. Ele esteve no evento compartilhando as experiências de Pequim, Xangai e Shenzhen. A participação feminina foi outro objeto de discussões relevantes durante o evento. Números apresentados por Karen Heidelberger, sócia da Deerfield Management, companhia americana que administra mais de US$ 16 bilhões em ativos, mostram que as startups fundadas por mulheres recebem entre 1% e 2% dos investimentos de venture capital do mundo, enquanto aquelas que são criadas por homens e mulheres levam 17% do volume de financiamentos. Logo, as empresas exclusivamente masculinas ficam com mais de 80% dos recursos, apesar de os resultados das empresas lideradas por mulheres serem muito superiores. No setor de tecnologia, por exemplo, o ROI (retorno sobre investimentos) das empresas fundadas por mulheres é 35% superior ao das companhias criadas por homens. “Se você der US$ 1 de financiamento a uma mulher, ela te dará 78 centavos de dólar. Se você der a um homem ou a um time todo masculino, você receberá de volta 31 centavos de dólar. No entanto, globalmente, apenas 17% dos cargos de tomada de decisão nos fundos de venture capital são ocupados por mulheres. Vai demorar até 2045 para haver uma paridade. É um número assustador”, lamenta a executiva.
Startups brasileiras desafiam escassez de venture capital e miram expansão global
Eficiência de custos e diferenciais competitivos locais são credenciais no exterior









