A reestruturação dos investimentos em venture capital no Brasil tem se mostrado uma mudança estrutural que não será revertida, e não apenas um ajuste temporário de ciclo. O mercado financeiro finalmente se despediu do modelo de crescimento a todo custo, exigindo que as empresas apresentem negócios fundamentados em disciplina operacional e na geração de caixa previsível. A disciplina tomou o lugar da euforia descontrolada, elevando o nível de exigência para os fundos regionais e globais.

Conforme os dados consolidados pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), em conjunto com a consultoria KPMG, mais de 60% do capital investido na América Latina foi direcionado para rodadas Late-Stage. Simultaneamente, a correção nas avaliações fez com que os múltiplos de receita se estabelecessem em níveis históricos entre 4x e 8x da Receita Recorrente Anual (ARR). “O momento atual exige previsibilidade financeira e tecnologia proprietária“, diz Roberto Haddad, sócio-líder de Private Equity e Venture Capital da KPMG no Brasil.

A estratégia de pulverizar cheques em empresas que não possuem um diferencial competitivo claro se tornou insustentável, levando a uma concentração de investimentos em soluções de inteligência artificial aplicada e deep techs. O perigo imediato para o ecossistema é a asfixia do ecossistema inicial (early-stage) resultante de uma seletividade excessiva, que poderia impedir a emergência de uma nova safra de empresas de tecnologia. Sem um pipeline robusto, o mercado pode acabar concentrando a liquidez apenas nas consolidações de curto prazo.