Enquanto grandes plataformas miram corte de custos, startups de nicho buscam validação e investimentos Galeazzi, da Wedy: 30 mil fornecedores e mais de 1 milhão de celebrações — Foto: Divulgação Quem optou por acompanhar as primeiras apresentações de startups no palco principal do Web Summit Rio 2026 pode ter se assustado em um primeiro momento. As quatro empresas que abriram o evento apresentaram discursos com a mesma promessa: reduzir a necessidade de empregados nas organizações. O choque inicial, no entanto, deu lugar a um mergulho em um ecossistema vibrante de startups, que aposta em tecnologia, mas também em capacitação, redes e relacionamento. O debate entre oportunidade e desemprego marcou o evento, que registrou números recordes. No centro desse dilema está a inteligência artificial, que vem redefinindo as regras do mercado. “Disrupção de modelo, em geral, gera desemprego, mas desta vez impacta em amplitude maior. Se por um lado a empregabilidade é um desafio, por outro, a possibilidade de empreendedorismo aumentou e o custo de oportunidade caiu”, resumiu Cleber Morais, diretor da Amazon Web Services (AWS), sobre o suporte da IA. Discursos feitos por executivos de startups confirmavam a tese. Muitos dos “sonhadores”, como foram chamados na abertura pelo diretor-administrativo do evento, Artur Pereira, contaram que optaram por deixar o mercado formal para empreender. “Fiz um acordo”, contou Babi Nunes, fundadora da Pantheon. Criada há cinco anos como fábrica de software, a empresa mudou de rumo há dois anos para desenvolver o Bino, um aplicativo que usa leitura facial para monitorar o risco de sono em caminhoneiros e operadores de máquinas. Hoje, com uma estrutura enxuta e composta por quatro pessoas, a startup fatura R$ 500 mil por ano. Centenas de startups como a Pantheon ocupavam estandes onde empreendedores apresentavam suas soluções. A dinâmica lembrava uma grande vitrine tecnológica, impulsionada pelo apoio de corporações, bancos e programas corporativos de aceleração, como o Itaipu Parquetec, o SNASH (da Sociedade Nacional de Agricultura) e o BNDES Garagem. “A gente consegue trocar experiências, estar próximo de outras empresas e fazer contato com clientes potenciais, além de toda a parte de treinamento”, afirmou João Santos, diretor comercial da Perto, que oferece tecnologia de acessibilidade digital para empresas, universidades e governos. Para startups em busca de tração, como a Perto, o conselho de Renan Conde, CEO da Factorial para as Américas, é evitar a armadilha da hipercustomização. “No início, a startup tende a customizar demais o produto para atender a tudo o que seus primeiros clientes pedem. Depois que cresce, o desafio passa a ser driblar a burocracia que engessa o negócio”, ressaltou o executivo. Conde fala com a autoridade de quem liderou a expansão da companhia pelo Brasil, México e Estados Unidos após aportes milionários de fundos globais. Atrair capital para acelerar o crescimento também moveu muitos empreendedores no pavilhão. Foi o caso do educador físico Leo Fukuda, que deixou o emprego tradicional para fundar a Be Gym, startup que combina inteligência artificial no WhatsApp a atendimento remoto para combater o sedentarismo. Fukuda apresentou o negócio a investidores no último dia do evento. Criada inicialmente com recursos de amigos e familiares, a empresa já conta com 15 colaboradores e uma base de 250 clientes no Brasil e no exterior. “Investir recursos próprios e buscar apoio de familiares e amigos é uma tendência forte. É um capital que vem antes do investidor-anjo”, comentou Carolina de Oliveira, sócia da KPMG responsável pelo ecossistema global de startups. Para a executiva, empreendedores que abraçam projetos nichados sinalizam um amadurecimento do mercado. Não garantem o surgimento de um unicórnio, mas geram um ecossistema dinâmico, com mais opções para investidores, que estão mais seletivos. “O capital para investimento voltou aos níveis pré-pandemia, mas ninguém consegue mais dinheiro apenas com um PPT”, concluiu ao falar da apresentação de PowerPoint. O capital para investimento voltou aos níveis pré-pandemia” Avaliadora em uma das rodadas de apresentação da competição de startups - promovida pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação -, Carolina se encantou com a Wedy. A plataforma de serviços para eventos, que reúne mais de 30 mil fornecedores e já atendeu a mais de 1 milhão de celebrações, acabou escolhida pelo público na grande final, embora o júri técnico tenha dado a vitória a outro projeto. “A indústria de eventos é maior que a de delivery. Conhecemos o mercado porque atuamos nele há 15 anos. Na Wedy, usamos IA para conectar promotores e fornecedores e garantir a transparência nas cotações. O modelo é de marketplace e o crescimento vem da lógica de rede: cada cliente traz seus fornecedores e cada fornecedor traz seus clientes”, contou Gabriela Galeazzi, cofundadora da startup. Com representantes de fundos globais como Kaszek, Monashees, SoftBank, Hummingbird e Prosus na plateia, o veredito dos avaliadores é unânime: no mercado de inovação, o domínio do inglês é indispensável. “Melhore o idioma e fale devagar para articular melhor as palavras”, recomendou Jeff Cabili, instrutor de oratória que veio de São Francisco especialmente para ensinar técnicas de apresentação. Para as mulheres, que recebem menos de 1% dos investimentos, dependem de comitês formados majoritariamente por homens e estão acostumadas a tomar menos risco, o desafio vai além do inglês. “Brinco que, se deixar o Bino na frente do computador fazendo minha leitura facial, ele vai ficar alertando o tempo inteiro, porque estamos sempre cansados e com sono”, observou a fundadora da Pantheon sobre o desafio de empreender. Para Jaana Goeggel, articuladora de uma rede de investidoras-anjo voltada a negócios femininos na Sororitê, a solução passa obrigatoriamente por descentralizar o capital. Ela defende que é preciso ter mais mulheres assinando cheques e liderando aportes em startups fundadas por mulheres. “É uma oportunidade de negócios, mas também uma preocupação pessoal. Sem essa articulação para ampliar a participação feminina em venture capital, ficaremos de fora das empresas que estão moldando o futuro”, afirmou. Diante desse cenário, o fôlego dos novos empreendedores e a articulação das investidoras servem de contraponto ao impacto inicial gerado por discursos como o do chinês Leo Huan, fundador da Dealism.ai. Oriundo de um país com 1,4 bilhão de pessoas e que enfrenta uma taxa de 16% de desemprego jovem, o empresário defendeu que a tecnologia deve conter a expansão das folhas de pagamento. “Ajudamos as empresas a superar o gargalo que é ter de contratar um novo funcionário a cada US$ 1 milhão adicionado em vendas”, afirmou. Se o avanço da IA trará mais eficiência ou desemprego é uma resposta que caberá às próximas edições do Web Summit Rio consolidar.